A 235 quilômetros do aeroporto
internacional de Milão, com acesso por estrada de ótima qualidade que margeia o Lago di
Como e cruza intermináveis túneis, Alta Valtellina mantém o sossego que não mais se
vê em paragens do quilate de Cortina D´Ampezzo e Madonna di Campiglio. Nessas badaladas
estações de inverno, a alta sociedade italiana desfila para ver e ser vista.
Em Alta Valtellina, o agito, digamos assim, ocorre durante
as competições esportivas e em feriados prolongados, como os de fim de ano e de Páscoa.
Ali também está a maior área florestal da Itália. Os espetaculares vales e as geladas
montanhas que emolduram o Parque Nacional do Stelvio são cortados pela mais alta passagem
do continente - fechada no inverno por barreiras naturais de neve -, que leva a pousadas
charmosas que só abrem no verão, é claro.
A estrada que serpenteia pelo Stelvio é também um dos
trechos mais difíceis que os ciclistas do Giro d´Italia (importante prova de ciclismo)
enfrentam. A mesma passagem, estratégica na ligação do país com a Áustria, foi palco
de uma batalha entre italianos e soldados do império austro-húngaro na 1.ª Guerra. As
trincheiras seguem lá para comprovar a história e serem clicadas pelos turistas.
Partida - Bormio, com apenas 4.200 habitantes e a
1.225 metros de altitude, é o ponto de partida para se conhecer a região de
características variadas e com atrativos para todos os meses do ano. Um clima familiar
contagia quem chega. São famílias inteiras que administram hotéis, restaurantes e
bares. Todos se conhecem e não hesitam em se divertir contando particularidades da vida
alheia. Em pouco tempo, você está íntimo de nomes e sobrenomes de gente que nunca viu
antes. É uma festa.
Com quase 2 mil anos de história, a cidade conserva
algumas igrejinhas bem antigas e mantém intacto o passado dos montanheses da região, num
museu de quase 3 mil objetos. Na rua principal, a Via Roma, carros não transitam, abrindo
espaço para as caminhadas da população. São senhoras que fazem a
"passeggiata" a passos curtos, mães que empurram carrinhos de bebê, jovens que
circulam de mãos dadas. O vaivém cessa depois do almoço e só recomeça às 15 horas,
quando o comércio volta a abrir as portas.
O ritmo da cidade gira em torno das atividades esportivas.
E a sensação é, naturalmente, o esqui. A neve eterna do Stelvio permite que a prática
se estenda por todo o ano, embora no verão (com média de 22 graus) haja outras
possibilidades: trekkings por 75 trilhas, paraglider, alpinismo, pesca e mountain bike,
entre outros.
Os Alpes borminos, cujo topo está a 3.012 metros de
altitude, oferecem 50 quilômetros de pistas para esquiadores de todos os níveis. Quem
nunca se aventurou sobre as duas pranchas deve aproveitar para aprender lá. Os difíceis
primeiros passos são facilitados por esteiras rolantes, que ajudam a voltar para o ponto
inicial, mesmo que você tenha apenas deslizado poucos metros - antes dos inevitáveis
tombos gelados.
Os pacientes instrutores da Scuola Nazionale Sci Bormio
estão lá para dar uma mãozinha. Aliás, eles deixam no chinelo os galanteadores
monitores de resorts e navios. Não perdem a chance de uma investida - normalmente
engraçada, pois se sabe que as namoradas "oficiais" fazem marcação cerrada.
Redondezas - No inverno, quando a temperatura média
é de 5 graus, os turistas também aproveitam para conhecer as demais estações de Alta
Valtellina, que, juntas, somam 160 quilômetros de pistas esquiáveis. De novembro a maio,
as mais procuradas são Santa Caterina (povoado de origem da campeã olímpica Deborah
Compagnoni, a 1.700 metros de altura), Valdidentro-San Colombano (popular entre famílias
que buscam diversão em grupo, a 1.200 metros) e Livigno.
A 1.800 metros de altitude, Livigno fica na fronteira com a
Suíça, ligada a Bormio por uma estrada pontilhada por charmosas cidadezinhas. Mesmo que
você prefira Bormio a Livigno, ou vice-versa, evite comentar. As cidades travam uma
batalha que começa a ser incentivada na infância, quando os pequenos estréiam em
competições.
Ainda assim, Livigno vê sua fama crescer de forma mais
rápida a cada ano, principalmente entre os snowboarders, que encontram ali algumas das
melhores pistas da Europa. As lojas de duty free do centro fazem a alegria dos
consumistas, que abrem mão das brincadeiras na neve para garimpar bons preços nas
prateleiras. Viviane Kulczynski