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A Itália guarda seu tesouro

20/02/2003

Bormio, Itália

 

Bormio - A paisagem verdejante e montanhosa que serve de fundo para o enigmático sorriso de Monalisa, no mais famoso quadro de Leonardo da Vinci, fica no norte da Lombardia, quase na fronteira com a Suíça e a poucos quilômetros da Áustria. Da Vinci esteve na região de Alta Valtellina em 1493 e descobriu no lugar alguns dos tesouros que os italianos - sabe-se lá como - ainda conseguem guardar quase que para uso exclusivo.

   A 235 quilômetros do aeroporto internacional de Milão, com acesso por estrada de ótima qualidade que margeia o Lago di Como e cruza intermináveis túneis, Alta Valtellina mantém o sossego que não mais se vê em paragens do quilate de Cortina D´Ampezzo e Madonna di Campiglio. Nessas badaladas estações de inverno, a alta sociedade italiana desfila para ver e ser vista.

   Em Alta Valtellina, o agito, digamos assim, ocorre durante as competições esportivas e em feriados prolongados, como os de fim de ano e de Páscoa. Ali também está a maior área florestal da Itália. Os espetaculares vales e as geladas montanhas que emolduram o Parque Nacional do Stelvio são cortados pela mais alta passagem do continente - fechada no inverno por barreiras naturais de neve -, que leva a pousadas charmosas que só abrem no verão, é claro.

   A estrada que serpenteia pelo Stelvio é também um dos trechos mais difíceis que os ciclistas do Giro d´Italia (importante prova de ciclismo) enfrentam. A mesma passagem, estratégica na ligação do país com a Áustria, foi palco de uma batalha entre italianos e soldados do império austro-húngaro na 1.ª Guerra. As trincheiras seguem lá para comprovar a história e serem clicadas pelos turistas.

   Partida - Bormio, com apenas 4.200 habitantes e a 1.225 metros de altitude, é o ponto de partida para se conhecer a região de características variadas e com atrativos para todos os meses do ano. Um clima familiar contagia quem chega. São famílias inteiras que administram hotéis, restaurantes e bares. Todos se conhecem e não hesitam em se divertir contando particularidades da vida alheia. Em pouco tempo, você está íntimo de nomes e sobrenomes de gente que nunca viu antes. É uma festa.

   Com quase 2 mil anos de história, a cidade conserva algumas igrejinhas bem antigas e mantém intacto o passado dos montanheses da região, num museu de quase 3 mil objetos. Na rua principal, a Via Roma, carros não transitam, abrindo espaço para as caminhadas da população. São senhoras que fazem a "passeggiata" a passos curtos, mães que empurram carrinhos de bebê, jovens que circulam de mãos dadas. O vaivém cessa depois do almoço e só recomeça às 15 horas, quando o comércio volta a abrir as portas.

   O ritmo da cidade gira em torno das atividades esportivas. E a sensação é, naturalmente, o esqui. A neve eterna do Stelvio permite que a prática se estenda por todo o ano, embora no verão (com média de 22 graus) haja outras possibilidades: trekkings por 75 trilhas, paraglider, alpinismo, pesca e mountain bike, entre outros.

   Os Alpes borminos, cujo topo está a 3.012 metros de altitude, oferecem 50 quilômetros de pistas para esquiadores de todos os níveis. Quem nunca se aventurou sobre as duas pranchas deve aproveitar para aprender lá. Os difíceis primeiros passos são facilitados por esteiras rolantes, que ajudam a voltar para o ponto inicial, mesmo que você tenha apenas deslizado poucos metros - antes dos inevitáveis tombos gelados.

   Os pacientes instrutores da Scuola Nazionale Sci Bormio estão lá para dar uma mãozinha. Aliás, eles deixam no chinelo os galanteadores monitores de resorts e navios. Não perdem a chance de uma investida - normalmente engraçada, pois se sabe que as namoradas "oficiais" fazem marcação cerrada.

   Redondezas - No inverno, quando a temperatura média é de 5 graus, os turistas também aproveitam para conhecer as demais estações de Alta Valtellina, que, juntas, somam 160 quilômetros de pistas esquiáveis. De novembro a maio, as mais procuradas são Santa Caterina (povoado de origem da campeã olímpica Deborah Compagnoni, a 1.700 metros de altura), Valdidentro-San Colombano (popular entre famílias que buscam diversão em grupo, a 1.200 metros) e Livigno.

   A 1.800 metros de altitude, Livigno fica na fronteira com a Suíça, ligada a Bormio por uma estrada pontilhada por charmosas cidadezinhas. Mesmo que você prefira Bormio a Livigno, ou vice-versa, evite comentar. As cidades travam uma batalha que começa a ser incentivada na infância, quando os pequenos estréiam em competições.

   Ainda assim, Livigno vê sua fama crescer de forma mais rápida a cada ano, principalmente entre os snowboarders, que encontram ali algumas das melhores pistas da Europa. As lojas de duty free do centro fazem a alegria dos consumistas, que abrem mão das brincadeiras na neve para garimpar bons preços nas prateleiras. Viviane Kulczynski

(© estadao.com.br)

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