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Fellini filma o mundo antigo de seus sonhos |
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01/01/2004
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Satyricon",
de Federico Fellini |
TIAGO MATA
MACHADO
Crítico da Folha de S.Paulo
A
primeira vez que Fellini leu o "Satyricon" de Petrônio, poeta da corte de
Nero, foi, gulosamente, na adolescência, em empreitada extracurricular
povoada por ilustrações eróticas. Anos mais tarde, retoma o livro sem a
mesma urgência, mas com o mesmo prazer, decidindo adaptar os fragmentos de
Petrônio como um arqueólogo que cola os estilhaços de uma cerâmica.
Fellini não pretende tanto filmar o mundo antigo quanto o que se sonha
hoje dele.
O diretor, que sempre se alimentou
de seus sonhos, chegando a anotar, por mais de 30 anos, um "diário dos
sonhos", andava, à época, influenciado pelas teorias junguianas, de cabeça
feita por um aluno e discípulo da "psicologia das profundezas" de Carl G.
Jung, o doutor Ernst Bernhard.
Em seu "Satyricon", Fellini filma o
"mundo antigo" de seus sonhos, partindo do princípio de que esses sonhos
são o rastro de uma noite original, primordial, de um "inconsciente
coletivo" que ele encena e satiriza.
Fellini faz arqueologia com a
psique humana, em busca de seus estratos mais profundos. Seus tipos nunca
se confundiram tanto com arquétipos quanto aqui: pueris, imorais,
grotescos -encontrar os rostos adequados e constituir a tapeçaria humana
do filme, a base do método felliniano, nunca foi tão difícil para o
cineasta.
Em uma construção que lembra a
Babel de Breughel (erigida com lúgubre beleza pelas mãos do cenógrafo
Danilo Donatti), dois efebos passeiam por uma série em compartimentos,
cada qual escondendo uma imagem dantesca de lascívia. É como se Fellini
passeasse pelo inconsciente reprimido do paganismo romano.
Os compartimentos da Roma
pré-cristã de "Satyricon" e seus ritos dionisíacos vão dar de volta nos
inferninhos da Roma pós-cristã de "La Dolce Vita": como diria o escritor
Italo Calvino, nas histéricas Romas fellinianas reinam a "truculência
elementar do Carnaval" e a "natureza sanguínea do instinto espetacular".
Glauber Rocha, para quem Fellini
era uma espécie de Dionísio, deus orgiástico dos espetáculos, via nos
filmes do diretor italiano uma "fenomenologia da decadência", capaz de
produzir jóias e fezes "dialeticamente". Para tal dialética, Fellini
chegaria a criar uma palavra, algo como "procadência", que exprimiria duas
facetas da decadência, sua inexorabilidade e o renovado potencial criativo
que a acompanha. "Satyricon" é um filme assim, inteiramente "procadente".
Satyricon
Fellini Satyricon
Produção: Itália/França, 1969
Direção: Federico Fellini
Com: Martin Potter, Hiram Keller
Quando: a partir de hoje no Espaço Unibanco
(© Folha Online)
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"Satyricon"
reestréia em cópia restaurada |
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A Roma de Satyricon
parece emergir da memória coletiva inconsciente |
Obra-prima de Federico Fellini, adaptada do relato de
Petrônio, está de volta ao cartaz
São Paulo -
Como Federico Fellini disse várias vezes em
entrevistas, sua motivação para adaptar Satyricon de Petrônio
para o cinema foi muito simples: sentiu-se atraído pela época
descrita porque ela lhe parecia tão bárbara e decadente quanto a
atual. Petrônio escreveu Satyricon no início era cristã, na
Roma de Nero. É um relato de viagem, sobre as trapalhadas de dois
vigaristas divertidos e irreverentes, Ascilto e Encolpio. Fellini
resolve transformá-lo em filme no fim da década de 60, quando o
mundo talvez ainda não mostrasse com tanta clareza para aonde iria,
mas, como se sabe, artistas são a antena da raça, etc. O filme que o
espectador irá ver é composto de fragmentos, bem ao gosto de
Fellini, fã de histórias lacunares. Existe uma linha virtual ligando
as peças desse mosaico pagão reinterpretado por Fellini. Há quase
uma história.
Encolpio
(Martin Potter) e Ascilto (Hiram Keller) disputam os favores do
efebo Giton (Max Born). Passam pela festa na casa de Trimálquio, um
novo rico da época, depois por prostíbulos e termas suspeitas, onde
conhecem o poeta satírico Eumolpo. São vendidos como escravos e
salvos das galés por um triz. Encolpio é jogado na arena para uma
luta desigual contra um gladiador, se safa mas descobre-se
impotente. Recupera sua "espada" por graças da feiticeira Enotéia. E
segue a viagem cuja narrativa se interrompe com o fim do filme. O
desfecho é assim um hiato entre hiatos e não uma conclusão. Essas
lacunas estão na própria origem do projeto. Fellini conta que releu
Petrônio no hospital, quando teve uma pleurite alérgica e quase
morreu.
icou
fascinado não apenas pelos episódios narrados pelo cronista, mas
principalmente pelo que faltava entre eles. Preenchia lacunas com a
imaginação, como fizera no tempo de colégio quando fora obrigado a
ler o livro pela primeira vez. Resolveu incorporar essas lacunas
como parte da linguagem narrativa de sua adaptação. O que não é dito
excita a imaginação do artista: "Aquela história de fragmentos
realmente me fascinava. Me agitava a idéia de que a poeira dos
séculos tivesse conservado as batidas de um coração já extinto",
conforme diz em longa entrevista concedida ao jornalista Giovanni
Grazzini e aqui editada em livro pela Civilização Brasileira.
Enfim, foi
atraído pela natureza fragmentária do texto e também porque a época
nele descrita parecia-lhe similar àquela em que vivia. Como transpor
uma para outra? Esse, o xis do problema porque Satyricon é,
também, uma reflexão sobre as dificuldades de se fazer um filme
histórico. Como se reconstrói uma época perdida no tempo? Para
Fellini, no limite isso é impossível: "Satyricon não é um
filme histórico, mas ficção científica sobre o passado", diz na
mesma entrevista. Assim, qualquer pretensão ao realismo seria
risível, pela impossibilidade de apagar da nossa consciência 2 mil
anos interpostos de História e de cristianismo. Quando se vai ao
mundo pagão, tudo deve ser reconstruído a partir dos fragmentos.
Tudo é arqueologia e busca de sentido. Mas é este impulso de
explorador, ciente das dificuldades, que o leva ao filme.
De modo que
em Satyricon não temos a Roma como ela era (mesmo porque isso
seria ilusório e, no limite, uma impostura), mas a Roma pagã
imaginada por Fellini. Há aí a busca de uma forma de sentir, de
amar, de morrer que seria anterior à adoção do cristianismo como
religião e ética dominantes. Quer dizer, o trabalho cinematográfico
pretende a reconstituição de um homem que sumiu nas cinzas do
passado, buscada por um homem contemporâneo. Essa radical distância
que nos separa da Antiguidade, essa, por assim dizer, "leitura"
diferente do mundo, é enfrentada com os recursos da fantasia. A esta
altura de sua carreira, Fellini é artista plenamente consciente dos
poderes de sua imaginação. Pinta uma Roma de sonho, que parece
emergir do seu inconsciente, ou melhor, de um inconsciente coletivo
já que, nesse tempo, Fellini é leitor de Jung, e acha nos conceitos
do psicanalista suíço o guia seguro para suas viagens interiores.
Quer dizer, a Roma imperial de Satyricon aparece como aquele
mundo pagão que talvez tenhamos guardado em nossa memória coletiva
inconsciente. (Luiz
Zanin Oricchio)
(©
estadao.com.br) |
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