A cúpula da Parmalat italiana é acusada
de fraudar o balanço,
destruir documentos e falsificar assinaturas
Leandra Peres e Carlos Rydlewski
Vai levar tempo até que os promotores italianos encarregados de
investigar o escândalo da Parmalat consigam esclarecer como uma
companhia de ótima reputação, com ações recomendadas à clientela pelos
bancos de investimento e fiscalizada por mais de uma empresa de
auditoria pôde se transformar de uma hora para outra no pivô de uma das
maiores fraudes empresariais da Europa. As primeiras conclusões indicam
que a cúpula da multinacional italiana praticou nos últimos anos o mais
clássico dos crimes do colarinho branco, que consiste em maquiar o
balanço. A empresa aparentemente sobrevalorizava seus bens de forma a
obter lucros contábeis mais elevados que os verdadeiros. Forjando
resultados satisfatórios, a Parmalat se habilitava a novos créditos
junto aos bancos, financiando assim sua política agressiva de
crescimento. A aparência de empresa sólida permitiu à companhia captar
empréstimos de 5 bilhões de dólares nos últimos três anos. O mundo da
Parmalat caiu quando ela não foi capaz de honrar uma dívida de alguns
milhões de dólares. Em pouco tempo, ficou evidente que os bons números
só existiam no papel. Agora que os balanços começam a ser analisados com
lupa, o rombo vem se materializando. A dimensão exata ainda é
desconhecida, mas as primeiras estimativas apontam para um buraco que
pode chegar a 12 bilhões de dólares – o mesmo desencaixe detectado na
quebra da empresa de telefonia WorldCom e maior do que os 9 bilhões de
dólares apurados na Enron, a distribuidora de energia com sede no Texas.
Essas duas gigantes americanas foram à lona no começo da década.
Os primeiros depoimentos indicam que o cérebro por trás da
operação fraudulenta na Parmalat é mesmo o empresário Calisto Tanzi, que
fundou a empresa em 1961 nas proximidades da cidade de Parma, na Itália.
O pequeno negócio de embutidos que pertencia à família se transformou
numa multinacional italiana que industrializa leite e sucos e fabrica
bolachas, biscoitos, bolos, sobremesas, iogurte e molhos. A companhia
opera em trinta países, emprega 36.000 pessoas e fatura 9,5 bilhões de
dólares. A Parmalat é hoje o oitavo maior conglomerado italiano e uma
das marcas do setor de alimentos mais conhecidas em todo o mundo.
Calisto Tanzi foi preso depois do Natal, e a Justiça negou mais de um
pedido de relaxamento de prisão feito por seus advogados. Os promotores
se vêem diante do desafio de identificar o que há de verdade e de
mentira num mar de declarações contraditórias. Tanzi afirma ter sido
orientado a agir dessa forma por executivos da companhia, que por sua
vez afirmam ter sido obrigados por Tanzi a maquiar o balanço. Os
advogados do dono da companhia já admitiram que Tanzi desviou 600
milhões de dólares para o próprio bolso.
Em depoimento, um executivo da Parmalat declara ter participado
de uma reunião de diretoria na qual se destruíram pilhas de documentos
reveladores – sob as ordens expressas de Tanzi. Em outro depoimento, um
diretor da empresa disse ter recebido a tarefa de arrebentar um
computador a marteladas. Os investigadores já descobriram operações
fajutas de venda de leite em pó a Cuba e uma conta falsa no Bank of
America no valor de 4,9 bilhões de dólares, usada para lastrear novos
empréstimos. A direção do banco informou aos promotores que essa conta
nunca existiu. Ao ser questionado sobre a conta bancária fraudulenta no
primeiro interrogatório, que durou nove horas, o fundador Tanzi admitiu:
"Essas eram coisas das quais eu sabia". A polícia já localizou numa
dependência da Parmalat um arquivo digital com o logotipo do Bank of
America. Desde que a investigação começou, há menos de um mês, já foram
presos, além de Tanzi, dois ex-diretores financeiros, os dois sócios
italianos da empresa de auditoria Grant Thornton e mais quatro suspeitos
de envolvimento nas irregularidades. Na semana passada, a transação das
ações em bolsa da multinacional foi congelada por tempo indeterminado e
a Securities and Exchange Comission (SEC), o xerife do mercado
financeiro americano, impetrou uma ação judicial em que acusa a Parmalat
de "envolver-se em uma das maiores e mais agressivas fraudes
corporativas da história".
Sempre que uma grande empresa quebra, o efeito cascata das perdas
é inevitável. Investidores, fornecedores, consumidores, todos perdem. No
Brasil, quando a Encol foi à falência, 42.000 famílias deixaram de
receber imóveis já pagos integral ou parcialmente. Com a decadência da
Enron, só os fundos de pensão perderam mais de 1,5 bilhão de dólares. No
caso da Parmalat, é cedo para medir as conseqüências, mas teme-se uma
onda de pequenas tragédias envolvendo fornecedores que trabalhavam com
exclusividade para a companhia. Na França, 120 produtores da região dos
Pirineus não recebem há dois meses e o governo já estuda uma ajuda
especial. Na Austrália, o responsável pela operação local concentra-se
na tarefa de convencer bancos e fornecedores de que a situação é
contornável. Como são dirigidos como empresas independentes, os negócios
fora da Itália não são necessariamente afetados pela crise da matriz. As
operações de laticínios na África do Sul, Canadá, Espanha, Austrália e
Rússia são aparentemente viáveis. O mesmo vale para a de biscoitos da
Parmalat nos EUA, onde é o terceiro maior fabricante do mercado.
Aparentemente, o caso brasileiro é classificado como
especialmente delicado pelos analistas. A operação brasileira acumula
prejuízos pelo sexto ano consecutivo. Onze cooperativas de leite da
região fluminense de Itaperuna deixaram de receber 1,6 milhão de reais
na terça-feira da semana passada. A dívida de 2,3 milhões de reais
vencera em 15 de dezembro e um acordo prorrogara o pagamento para o dia
29. No dia 30, apenas 30% do valor foi depositado. Os executivos da
subsidiária brasileira dividiram os fornecedores em dois grupos. Os
responsáveis pela entrega de 80% do 1,2 bilhão de litros de leite que a
companhia capta anualmente no mercado nacional terão prioridade no
pagamento. Até a semana passada, o objetivo era continuar bancando
diretamente os compromissos com esse grupo. O segundo inclui
cooperativas de pecuaristas e fornecedores de embalagens. Para atender a
ele, a Parmalat tenta viabilizar o pagamento com notas promissórias.
O encarregado de recuperar financeiramente a multinacional
Parmalat é Enrico Bondi, especialista em administrar empresas em
dificuldades. Num de seus trabalhos mais conhecidos, conseguiu reerguer
a Telecom Italia, a empresa de telecomunicações italiana. No mundo dos
negócios italiano, Bondi é sempre lembrado por sua competência e
costumes um tanto folclóricos. Um desses hábitos é exigir que seus
auxiliares madruguem no escritório, como se houvesse alguma relação
entre trabalhar bem e acordar com as galinhas. Ele, avisa, chega às 6 da
manhã e marca a primeira reunião para as 7. Outro hábito exótico seu é a
austeridade levada ao limite. Embora ganhe milhões e milhões de dólares
pelo seu bom desempenho, durante o período em que trabalhou na Telecom
Italia dispensava o motorista e dirigia um carrinho barato. Só para dar
o exemplo.
Após as fraudes na WorldCom e na Enron, a lei americana passou a
exigir que os presidentes e diretores financeiros das empresas assinem
os demonstrativos financeiros para que possam responder criminalmente
por qualquer informação falsa que eventualmente seja incluída nos
balanços. Em virtude da conivência comprovada de alguns de seus
analistas com as falcatruas na Enron, a empresa de consultoria Arthur
Andersen saiu do mercado e foi incorporada pela concorrência. Os
analistas querem ver até onde vai a responsabilidade no caso Parmalat,
que era auditada por duas grandes empresas, a Grant Thornton e a
Deloitte Touche Tohmatsu. Na sentença em que recusa o relaxamento de
prisão de Tanzi, o juiz Guido Piffer aponta a Grant Thornton como
responsável pela concepção do plano de montar uma subsidiária nas Ilhas
Cayman com a intenção de "modificar o sistema usado para ocultar as
perdas". Quando uma empresa de auditoria de nome respeitável afirma que
tudo está bem numa empresa, o mercado acredita, os investidores compram
ações, os fornecedores vendem e os bancos emprestam. Até o começo de
dezembro de 2003, com base na análise dos balanços, as agências de risco
davam nota máxima à Parmalat, o que só reforçava a idéia falsa a
respeito da companhia. A punição dos responsáveis é a maior contribuição
das autoridades à economia de mercado.
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Veja)