Retornar ao índice ItaliaOggi

 

Notizie d'Italia

 

A grande fraude na Europa

04/01/2004

Calisto Tanzi, ao ser preso


A cúpula da Parmalat italiana é acusada de fraudar o balanço, destruir documentos e falsificar assinaturas

Leandra Peres e Carlos Rydlewski

   Vai levar tempo até que os promotores italianos encarregados de investigar o escândalo da Parmalat consigam esclarecer como uma companhia de ótima reputação, com ações recomendadas à clientela pelos bancos de investimento e fiscalizada por mais de uma empresa de auditoria pôde se transformar de uma hora para outra no pivô de uma das maiores fraudes empresariais da Europa. As primeiras conclusões indicam que a cúpula da multinacional italiana praticou nos últimos anos o mais clássico dos crimes do colarinho branco, que consiste em maquiar o balanço. A empresa aparentemente sobrevalorizava seus bens de forma a obter lucros contábeis mais elevados que os verdadeiros. Forjando resultados satisfatórios, a Parmalat se habilitava a novos créditos junto aos bancos, financiando assim sua política agressiva de crescimento. A aparência de empresa sólida permitiu à companhia captar empréstimos de 5 bilhões de dólares nos últimos três anos. O mundo da Parmalat caiu quando ela não foi capaz de honrar uma dívida de alguns milhões de dólares. Em pouco tempo, ficou evidente que os bons números só existiam no papel. Agora que os balanços começam a ser analisados com lupa, o rombo vem se materializando. A dimensão exata ainda é desconhecida, mas as primeiras estimativas apontam para um buraco que pode chegar a 12 bilhões de dólares – o mesmo desencaixe detectado na quebra da empresa de telefonia WorldCom e maior do que os 9 bilhões de dólares apurados na Enron, a distribuidora de energia com sede no Texas. Essas duas gigantes americanas foram à lona no começo da década.

   Os primeiros depoimentos indicam que o cérebro por trás da operação fraudulenta na Parmalat é mesmo o empresário Calisto Tanzi, que fundou a empresa em 1961 nas proximidades da cidade de Parma, na Itália. O pequeno negócio de embutidos que pertencia à família se transformou numa multinacional italiana que industrializa leite e sucos e fabrica bolachas, biscoitos, bolos, sobremesas, iogurte e molhos. A companhia opera em trinta países, emprega 36.000 pessoas e fatura 9,5 bilhões de dólares. A Parmalat é hoje o oitavo maior conglomerado italiano e uma das marcas do setor de alimentos mais conhecidas em todo o mundo. Calisto Tanzi foi preso depois do Natal, e a Justiça negou mais de um pedido de relaxamento de prisão feito por seus advogados. Os promotores se vêem diante do desafio de identificar o que há de verdade e de mentira num mar de declarações contraditórias. Tanzi afirma ter sido orientado a agir dessa forma por executivos da companhia, que por sua vez afirmam ter sido obrigados por Tanzi a maquiar o balanço. Os advogados do dono da companhia já admitiram que Tanzi desviou 600 milhões de dólares para o próprio bolso.

   Em depoimento, um executivo da Parmalat declara ter participado de uma reunião de diretoria na qual se destruíram pilhas de documentos reveladores – sob as ordens expressas de Tanzi. Em outro depoimento, um diretor da empresa disse ter recebido a tarefa de arrebentar um computador a marteladas. Os investigadores já descobriram operações fajutas de venda de leite em pó a Cuba e uma conta falsa no Bank of America no valor de 4,9 bilhões de dólares, usada para lastrear novos empréstimos. A direção do banco informou aos promotores que essa conta nunca existiu. Ao ser questionado sobre a conta bancária fraudulenta no primeiro interrogatório, que durou nove horas, o fundador Tanzi admitiu: "Essas eram coisas das quais eu sabia". A polícia já localizou numa dependência da Parmalat um arquivo digital com o logotipo do Bank of America. Desde que a investigação começou, há menos de um mês, já foram presos, além de Tanzi, dois ex-diretores financeiros, os dois sócios italianos da empresa de auditoria Grant Thornton e mais quatro suspeitos de envolvimento nas irregularidades. Na semana passada, a transação das ações em bolsa da multinacional foi congelada por tempo indeterminado e a Securities and Exchange Comission (SEC), o xerife do mercado financeiro americano, impetrou uma ação judicial em que acusa a Parmalat de "envolver-se em uma das maiores e mais agressivas fraudes corporativas da história".

   Sempre que uma grande empresa quebra, o efeito cascata das perdas é inevitável. Investidores, fornecedores, consumidores, todos perdem. No Brasil, quando a Encol foi à falência, 42.000 famílias deixaram de receber imóveis já pagos integral ou parcialmente. Com a decadência da Enron, só os fundos de pensão perderam mais de 1,5 bilhão de dólares. No caso da Parmalat, é cedo para medir as conseqüências, mas teme-se uma onda de pequenas tragédias envolvendo fornecedores que trabalhavam com exclusividade para a companhia. Na França, 120 produtores da região dos Pirineus não recebem há dois meses e o governo já estuda uma ajuda especial. Na Austrália, o responsável pela operação local concentra-se na tarefa de convencer bancos e fornecedores de que a situação é contornável. Como são dirigidos como empresas independentes, os negócios fora da Itália não são necessariamente afetados pela crise da matriz. As operações de laticínios na África do Sul, Canadá, Espanha, Austrália e Rússia são aparentemente viáveis. O mesmo vale para a de biscoitos da Parmalat nos EUA, onde é o terceiro maior fabricante do mercado.

   Aparentemente, o caso brasileiro é classificado como especialmente delicado pelos analistas. A operação brasileira acumula prejuízos pelo sexto ano consecutivo. Onze cooperativas de leite da região fluminense de Itaperuna deixaram de receber 1,6 milhão de reais na terça-feira da semana passada. A dívida de 2,3 milhões de reais vencera em 15 de dezembro e um acordo prorrogara o pagamento para o dia 29. No dia 30, apenas 30% do valor foi depositado. Os executivos da subsidiária brasileira dividiram os fornecedores em dois grupos. Os responsáveis pela entrega de 80% do 1,2 bilhão de litros de leite que a companhia capta anualmente no mercado nacional terão prioridade no pagamento. Até a semana passada, o objetivo era continuar bancando diretamente os compromissos com esse grupo. O segundo inclui cooperativas de pecuaristas e fornecedores de embalagens. Para atender a ele, a Parmalat tenta viabilizar o pagamento com notas promissórias.

   O encarregado de recuperar financeiramente a multinacional Parmalat é Enrico Bondi, especialista em administrar empresas em dificuldades. Num de seus trabalhos mais conhecidos, conseguiu reerguer a Telecom Italia, a empresa de telecomunicações italiana. No mundo dos negócios italiano, Bondi é sempre lembrado por sua competência e costumes um tanto folclóricos. Um desses hábitos é exigir que seus auxiliares madruguem no escritório, como se houvesse alguma relação entre trabalhar bem e acordar com as galinhas. Ele, avisa, chega às 6 da manhã e marca a primeira reunião para as 7. Outro hábito exótico seu é a austeridade levada ao limite. Embora ganhe milhões e milhões de dólares pelo seu bom desempenho, durante o período em que trabalhou na Telecom Italia dispensava o motorista e dirigia um carrinho barato. Só para dar o exemplo.

   Após as fraudes na WorldCom e na Enron, a lei americana passou a exigir que os presidentes e diretores financeiros das empresas assinem os demonstrativos financeiros para que possam responder criminalmente por qualquer informação falsa que eventualmente seja incluída nos balanços. Em virtude da conivência comprovada de alguns de seus analistas com as falcatruas na Enron, a empresa de consultoria Arthur Andersen saiu do mercado e foi incorporada pela concorrência. Os analistas querem ver até onde vai a responsabilidade no caso Parmalat, que era auditada por duas grandes empresas, a Grant Thornton e a Deloitte Touche Tohmatsu. Na sentença em que recusa o relaxamento de prisão de Tanzi, o juiz Guido Piffer aponta a Grant Thornton como responsável pela concepção do plano de montar uma subsidiária nas Ilhas Cayman com a intenção de "modificar o sistema usado para ocultar as perdas". Quando uma empresa de auditoria de nome respeitável afirma que tudo está bem numa empresa, o mercado acredita, os investidores compram ações, os fornecedores vendem e os bancos emprestam. Até o começo de dezembro de 2003, com base na análise dos balanços, as agências de risco davam nota máxima à Parmalat, o que só reforçava a idéia falsa a respeito da companhia. A punição dos responsáveis é a maior contribuição das autoridades à economia de mercado.

(© Veja)

Publicidade

Pesquise no Site ou Web

Google
Web ItaliaOggi

Notizie d'Italia | Gastronomia | Migrazioni | Cidadania | Home ItaliaOggi