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O ano em que o papa deixou de falar

04/01/2004

A Basílica de São Pedro, no Natal de 2003


Poucas vezes o papa tinha se mobilizado com tanto vigor e, no entanto, nações profundamente católicas, como Espanha e Itália, e sobretudo Polônia, seu país natal, apoiaram o conflito no Iraque

Kelly Velásquez
da France-Presse

   2003 passará à história, no longo pontificado de João Paulo II, como o ano em que o papa deixou de falar. A perda de voz do santo padre foi certamente o fato mais significativo de um ano difícil, marcado pela guerra em março no Iraque e pelos insistentes pedidos do chefe da Igreja Católica a favor da paz.

   O sumo-pontífice, que festejou a 16 de outubro um quarto de século à frente da Igreja Católica, passou um ano complicado, empanado pela deterioração de sua saúde e a redução da metade de suas atividades.

   Ele, que tinha se pronunciado com voz forte e decidida, como nenhum líder da Terra contra a guerra por considerá-la um risco para a humanidade, pediu, convocou, implorou ao mundo com toda sua influência e autoridade moral para que se evitasse o conflito.

   Poucas vezes o papa tinha se mobilizado com tanto vigor e, no entanto, nações profundamente católicas, como Espanha e Itália, e sobretudo Polônia, seu país natal, apoiaram o conflito e fizeram parte do bloco a favor da guerra, dividindo politicamente a posição da Europa, em grande parte contra a conflagração.

   Em inúmeras ocasiões públicas, especialmente nos tradicionais Ângelus de domingo passado, o papa pediu pela paz no Iraque, pela paz no Oriente Médio e pelo ''fim das guerras esquecidas e dos conflitos atrozes que provocam morte e dor'', ao se referir às guerras fratricidas na África e aos combates na América Latina.

   A voz do papa era no início de 2003 uma das mais fortes e prestigiadas do panorama mundial e sua figura, apesar de aparecer frágil pelo mal de Parkinson, impunha-se como ponto de referência.

   As imagens da guerra transmitidas ao mundo pelos canais de televisão foram seguidas pelo Vaticano, que não deixava de pedir aos vencedores que se submetessem às leis internacionais e evitassem os abusos na luta mundial contra o terrorismo.

   Em outubro, quando Karol Wojtyla festejou os 25 anos do pontificado, um dos mais longos da história milenar do Catolicismo, sua voz começou a se deteriorar e seu estado de saúde se agravou, o que suscitou preocupação e temor entre os católicos.

   O papa, que tinha dado mais de quatro vezes a volta ao mundo, aos 83 anos não podia pronunciar uma palavra, a fala era inaudível e já não podia andar. Mostrou-se então ao mundo pela primeira vez em um trono móvel, negando-se a ser transportado numa simples cadeira de rodas.

   Porém, as imagens mais comovedoras de João Paulo II em 2003 foram durante a beatificação, a 19 de outubro, na basílica de São Pedro, de madre Teresa de Calcutá, a chamada santa dos pobres.

   Com a língua enrolada, a voz fraca, um ricto no rosto, o papa aparecia perante o mundo como um velho com um corpo indomável e um espírito forte, que não se resignava a aceitar as limitações de seu estado.

   Observadores, vaticanistas, religiosos e até vários cardeais pediram a redução de seus esforços e a Santa Sé diminuiu suas atividades. As audiências privadas foram limitadas e o papa recebe por poucos minutos em seu palácio apostólico chefes de Estado e líderes do mundo.

   A delicada situação gerou debates entre católicos e não-católicos, entre cardeais e leigos, que chegaram a propor a eventual renúncia do papa por não poder cumprir suas funções totalmente.

   A renúncia do chefe da Igreja no momento está descartada, embora seja evidente que a hierarquia da Cúria Romana se acha perante uma situação nova, um dilema.

   O carisma, a vontade de ferro, o sentido de humor e a capacidade de comando do chefe de bilhões de católicos passaram a ser características do passado e as decisões são tomadas, segundo os observadores, pela cúpula dirigente, especialmente pelo número dois, o secretário de Estado, cardeal italiano Angelo Sodano.

   Mas o papa, que no Natal demonstrou que ainda tem forças, não deixa de planejar viagens ao Exterior e não cancelou quatro para 2004: Suíça, Áustria, França e México.

   ''O pontífice não decidiu ainda se as realiza e não arquivou o assunto'' - afirmou seu porta-voz, Joaquín Navarro Valls, confirmando o desejo de Karol Wojtyla de continuar viajando, de se cercar de multidões.

(© NoOlhar.com.br)


Sucessor pode ser de transição

   O sucessor de João Paulo II será provavelmente um ''papa de transição'', de idade madura e de nacionalidade italiana, embora não se descarte um latino-americano - estimam fontes eclesiásticas do Vaticano, após o reequilíbrio do conclave de cardeais eleitores em favor da Europa.

   Segundo a tradição, a um pontificado longo segue-se um pontificado curto e por isso os cardeais podem escolher para guiar a Igreja um prelado idoso, que assegure a transição após um pontificado forte, que marcou o século XX. ''Talvez não se possa evitar um italiano'' - comentaram as mesmas fontes, que não excluem um latino-americano que cumpra os mesmos requisitos.

   A idéia de que regresse um italiano ao trono de Pedro, após 25 anos de reinado do primeiro pontífice eslavo da história, tranqüiliza várias correntes da Igreja Católica, que confiam na tradicional arte da mediação que os italianos dominam.

   No entanto, um purpurado latino-americano, com os mesmos requisitos de um italiano, como o cardeal colombiano Darío Castrillón Hoyos, 74 anos, especialista no manejo dos problemas internos do clero e da Cúria, não está excluído.

   Fora da Itália, os papáveis que a imprensa cita são além do colombiano Castrillón Hoyos, o hondurenho Oscar Andrés Rodríguez Maradiaga, 61; o argentino Jorge Mario Bergoglio, 66; o brasileiro Cláudio Hummes, 69; e uma surpresa, como o cardeal-arcebispo Viena, Christoph Schönborn, 58.

   Para vários especialistas em assuntos religiosos, um dos italianos favoritos é o cardeal Carlo Maria Martini, 76, ex-arcebispo de Milão. Reconhecido teólogo, respeitado e apreciado por João Paulo II, é considerado um liberal e suas probabilidades são grandes, como ocorreu com João XXIII, eleito em 1958 aos 77 anos, que morreu cinco anos depois, após ter convocado o Concílio Vaticano II, que modernizou a Igreja no início dos anos 60.

   O tema da sucessão de João Paulo II foi tabu durante as cerimônias e reuniões para festejar os 25 anos de pontificado. As especulações sobre os candidatos foram relançadas quando foi proclamado um Consistório para a designação de 31 novos cardeais, três deles latino-americanos.

   Os novos cardeais, que receberam o título cardinalício, vão se somar aos 164 existentes, para um total de 195 purpurados, dos quais 135 têm direito de votar em caso de Conclave.

   Nos próximos quatro meses, 10 cardeais vão passar dos 80 anos, perdendo assim o direito de votar na eleição do papa. Desses 135, 130 foram designados por João Paulo II e os outros cinco por Paulo VI (1963-1978): o alemão Joseph Ratzinger, o brasileiro Aloisio Lorscheider, o norte-americano William Baum, o filipino Jaime Sin e o samoano Pio Taofinu'u.

   Com os novos cardeais eleitores, reequilibra-se o colégio a favor dos europeus, que chegam a ser 66. Os latino-americanos são 24 e constituem o segundo bloco mais numeroso.

   Sete italianos figuram entre os papabili: Carlo Maria Martini; o secretário de Estado, cardeal Angelo Sodano, 76; Camillo Ruini, vigário de Roma, 72; Giovanni Battista Re, ministro do Papa para os Bispos, 69; Tarcisio Bertone, arcebispo de Gênova, 69; Dionigi Tettamanzi, arcebispo de Milão, 61; e Angelo Scola, patriarca de Veneza, 61.

   Mas como costumam assinalar os especialistas, o candidato ideal não existe e só no dia da eleição se conhece seu nome. O cardeal e arcebispo de Cracóvia, o polonês Karol Wojtyla, era a 16 de outubro de 1978 um outsider, que saiu eleito no segundo dia de votação no quarto escrutínio. (Christian Spillmann, da France-Presse)

(© NoOlhar.com.br)

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