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Autor espanhol esboça subterrâneos de Veneza

05/01/2004

A tempestade, de Giorgione (c. 1478-1510)

LIVRO/"A TEMPESTADE"

RODRIGO PETRONIO
FREE-LANCE PARA A FOLHA

   Em um canto, com olhar absorto, uma mulher seminua amamenta uma criança recém-nascida.

   No fundo, uma grande tempestade se anuncia, crispando o céu de raios e sulcando o vilarejo com o seu jogo de luzes e sombras. Mais à frente, uma ponte e um riacho calmo se anunciam, ao fim do qual se divisa uma ruína, com suas colunas carcomidas pelo tempo.

   À esquerda, um jovem peregrino apoiado em um bastão fita o infinito, mas também parece observar, com lascívia e de soslaio, a mulher sentada do outro lado, hesitante em seu gesto maternal.

   É basicamente essa a composição da tela "A Tempestade" do pintor veneziano Giorgione (c. 1478-1510). Toda a cena é trespassada por um clima sombrio e uma atmosfera de prognósticos de difícil compreensão.

   E é a partir dessa paisagem, desse cenário e desses personagens que o escritor espanhol Juan Manuel de Prada arquitetou o seu romance homônimo, usando o tema histórico e pictórico como pretexto para um enredo que mistura investigação artística e narrativa policial.

   O livro de Prada é amarrado a partir de um jogo vertiginoso de coincidências, onde a viagem de um jovem especialista em arte da Renascença a Veneza se vê comprometida pelo testemunho de um assassinato cuja vítima é justamente um falsificador e ladrão de obras de arte, Fábio Valenzin.

   Entre a vida e a arte, eis que é abolido o grande hiato: o jovem Ballesteros é engolfado em um jogo de conspirações e preso em uma rede infinita de falsificações que a própria realidade tece.

   A cada momento descobre uma nova peça desse xadrez enigmático, o que lhe revela uma nova versão do caráter daqueles que o cercam e da morte que presenciou.

Velha cidade

   Essa trajetória acidentada não é gratuita. Serve para introduzir o leitor no coração sombrio da velha cidade italiana, não aquela vista na vitrine turística ou exaltada como sede do milagre artístico e arquitetônico universal, mas uma cidade prestes a ser engolida pelas enchentes, submersa em disputas de poder, com rivalidades sórdidas envolvendo a arte e seu prestígio econômico e social, e um roteiro de paixões ilícitas que nunca vêm à luz.

   Subjaz a esse percurso policial uma dura crítica aos limites de interpretação da arte. Não só: também à própria validade da teoria sobre a criação e a fruição artísticas. Aos poucos o protagonista vai reconhecendo nos personagens da tela de Giorgione traços dos personagens de sua vida real.

   Essas descobertas encerram algo de trágico: é como se o mestre italiano só pudesse tê-la concebido estando envolvido em uma mesma natureza de corrupção e conluios, o que destrói a possibilidade de uma visão científica ou isenta do fato estético. Essa crítica, no entanto, longe de obstar a reflexão, liberta-nos para um terreno inexplorado da investigação artística.

Meditação

   O leitor pode pensar que se trata de mais um romance histórico com ritmo policial ditado pela moda. Não é o caso. Ele fornece mais uma meditação profunda sobre o tema do que uma série de pistas e charadas a serem decifradas em chave culta.

   A habilidade técnica de Prada é admirável, e a intriga, surpreendente, embora peque em alguns momentos, ora pelo sentimentalismo (entre Ballesteros e Chiara), ora pelo fato de a narrativa lembrar em alguns pontos os roteiros e um tipo de enquadramento do cinema-padrão, o que a empobrece.

   Isso não macula os jogos entre verdade e beleza que encontramos em suas páginas. E aqui é inevitável não ouvir ecos de Oscar Wilde. No cerne da obra, a fronteira entre a ilusão e o real, entre a representação e o fato, entre a cena e os personagens se esvai para compor um outro território, onde a arte passa a ser vista como uma religião (é preciso crer e vivê-la para criar), e a vida, paradoxalmente, como um de seus desdobramentos, o que não a desmerece, mas sim lhe confere novos sentidos.

   Afinal, para lembrar o vate, viver não é preciso. O que é preciso é criar.

A Tempestade
    
Autor: Juan Manuel de Prada
Editora: Best Seller
Tradução: Luiz de Araújo
Quanto: R$ 35 (320 pág.)

(© Folha de S. Paulo)

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