Raymond Colitt
EM SÃO PAULO
Pergunte sobre
a Parmalat e a maioria dos brasileiros mostrarão o polegar para cima, em
aprovação ao bom nome da marca, a liderança de mercado e a qualidade do
maior produtor de leite longa-vida do país.
Em vez de citar escândalos, eles
lembram suas publicidades de alto nível, que incluíram celebridades como
Emerson Fittipaldi, o legendário piloto de fórmula 1, ou o astro do
futebol Ronaldinho. Uma campanha incluiu a distribuição de 15 milhões de
brinquedos de pelúcia e provocou uma mania nacional. O patrocínio da
Parmalat ao Palmeiras, um time de futebol de São Paulo, foi enormemente
popular.
"O Brasil tem uma imagem positiva
da empresa; essa crise é uma grande surpresa para todos", diz Antônio
Duarte Nogueira Júnior, secretário da Agricultura do Estado de São
Paulo.
O marketing de sucesso ajudou a
transformar a unidade brasileira da Parmalat em uma das maiores
operações estrangeiras do grupo, em certo momento responsável por até um
terço de seu faturamento global.
Em meados dos anos 90, a unidade
brasileira, sob o comando de Gianni Grisendi, que chegou da Itália em
1976 como um vendedor de 24 anos e mais tarde tornou-se seu presidente,
foi considerada uma operação modelo.
Calisto Tanzi, o ex-presidente e
fundador do grupo, hoje preso, costumava passar férias com sua família
no Brasil. Grisendi foi encarregado das iniciativas de expansão do grupo
em toda a América Latina, China e Austrália.
Mas, por trás da aparente
história de sucesso do segundo maior grupo de laticínios do Brasil,
muito leite estava sendo derramado. A Parmalat Brasil não apresentou
lucros desde que começou a publicar seus resultados financeiros, em
1997.
Até agora não há indícios de que
a unidade brasileira esteja diretamente envolvida no escândalo do grupo.
Ricardo Gontijo, falando em nome da Comissão de Valores Mobiliários,
disse que as declarações de rendimentos da unidade local da Parmalat
Finanziaria estão sendo examinados, mas acrescentou: "Ainda não temos
uma posição se algo [irregular] foi encontrado ou não".
No entanto, a operação da
Parmalat no maior país da América do Sul foi durante vários anos marcada
por erros administrativos.
Vários analistas descrevem a
estratégia de crescimento da Parmalat Brasil na maior parte dos anos 90
como imprudente. Ela gastou mais de US$ 350 milhões em diversas
aquisições, aparentemente sem muita preocupação pelo resultado final.
Grisendi, um apaixonado por futebol, admitiu publicamente não estar
preocupado com os lucros e que raramente foi questionado pela Itália.
"Não somos mais uma companhia metódica, avessa a riscos", ele disse em
1992.
"Ninguém entendeu a estratégia de
marketing - eles compravam companhias em uma região, as fechavam e saíam
do Estado", diz Rodrigo Avim, da Confederação Nacional da Agricultura,
em Brasília. "Acho que foi um problema de administração."
s críticos têm acusado a Parmalat
de tentar dominar o mercado eliminando produtores de alto custo e
influenciando os preços do leite com estoques de leite em pó. Em
diversas ocasiões ela foi chamada aos tribunais e teve de depor sobre
sua política de preços diante de uma comissão do Congresso. "Era uma
política predatória e altamente devastadora", diz Christino Áureo,
secretário da Agricultura do Estado do Rio de Janeiro.
Parte da estratégia de expansão
aparentemente aleatória incluía a aquisição de ativos supervalorizados
que geravam redundância ou se afastavam das atividades principais da
empresa. "Eles compraram muito lixo, com tecnologia ultrapassada e uma
logística pobre", diz José Vicente Ferraz, da FNP, uma consultoria
agrícola sediada em São Paulo.
Essas práticas continuaram até
1998, quando a Parmalat adquiriu sua primeira e única fábrica de
chocolate, apenas para vendê-la dois anos depois quando percebeu que não
tinha economia de escala.
Depois da partida de Grisendi, a
Parmalat começou a enxugar suas operações no Brasil no final de 2000.
Ela reduziu o número de fábricas de 17 para as atuais nove, racionalizou
a produção e a distribuição e adotou uma estrutura administrativa mais
ágil. "Estamos buscando uma operação mais enxuta e produtos com maior
valor agregado", disse um diretor da companhia.
Ainda assim, a Parmalat Brasil
não se tornou rentável, perdendo ao todo R$ 293,1 milhões (hoje US$ 103
milhões) entre 2000 e 2002 e outros R$ 79,9 milhões nos primeiros nove
meses do ano passado. Ela culpou a depreciação da moeda em 2002 e a
depressão econômica em 2003. No entanto, outras empresas de laticínios
cresceram e tiveram lucros nesse período, diminuindo a parcela de
mercado da Parmalat.
"A Parmalat pagou um alto preço
para conquistar o Brasil, e continua pagando", diz Ferraz.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
(© Financial
Times/UOL Mídia Global)