Contos do escritor italiano alcançam o equilíbrio mais
sutil entre a lucidez e a fantasia
JOSÉ GERALDO COUTO
COLUNISTA DA FOLHA
Desde que a literatura existe
-ou pelo menos desde Esopo, no século 6 a.C.-, os escritores
ocasionalmente servem-se de fábulas protagonizadas por animais para
comentar de modo oblíquo as imperfeições humanas.
É nessa linhagem que se
inserem as "Histórias da Pré-História", do italiano Alberto Moravia
(1907-90), publicadas originalmente em 1982 e agora lançadas no Brasil
pela Editora 34.
Só que, diferentemente do que
costuma ocorrer com as fábulas convencionais, as historietas de Moravia
não desembocam num preceito moral que confira um sentido unívoco e
definitivo aos acontecimentos narrados.
Ao contrário: seu universo
ficcional é um terreno repleto de ambiguidades e de caminhos abertos à
mudança e à invenção.
Nesse aspecto de subversão de
uma leitura teleológica e moralista (em sentido estrito) do mundo, as
"Histórias da Pré-História" lembram um pouco as "Fábulas Fabulosas", de
Millôr Fernandes, com as quais compartilham, de resto, o humor
desabusado e um acintoso anacronismo.
"Ah Dãoh e Eh Vah"
Exemplar, nesse sentido, é o
conto "Ah Dãoh e Eh Vah: Aqueles Preguiçosos", paródia impagável do
episódio bíblico da expulsão do Paraíso.
No livro de Moravia, Deus (ou
melhor, Jeh Oh Vah) é um diligente hortelão que mantém sua propriedade,
o Éh Dehn, num estado de exuberância e limpeza perfeitas.
Mas um dia ele hospeda Ah Dão
e Eh Vah, "dois vagabundos sem eira nem beira, que não faziam nada além
de tocar violão, dançar, cantar e fumar baseados". Para se livrar dos
visitantes incômodos, o hortelão convence a Ser Pente a induzi-los a
cometer uma transgressão, dando-lhe o pretexto para a expulsão.
Mas, devido a um imbróglio que
não convém revelar aqui, tudo sai errado e Jeh Oh Vah é que resolve ir
embora, deixando sua arruinada propriedade ao casal de hippies "avant la
lettre".
Em outras histórias é uma giganta chamada Mãe Na Tureza que cria os
seres do mundo e, eventualmente, aperfeiçoa-os de acordo com as próprias
pretensões destes.
Em três ou quatro passagens é
impossível não lembrar da "Reforma da Natureza" de Monteiro Lobato.
Quase todos os bichos têm suas
queixas e reivindicações -o que permite a Moravia desenvolver os temas
da identidade, da ambição e das diferenças culturais.
Permite-lhe também inventar um
mundo pré-histórico em que os camelos têm chifres frondosos, as girafas
não têm pescoço e a baleia é um animal minúsculo que vive numa poça.
Homem como anomalia
É como se o autor se
divertisse imaginando variantes da história natural, ou mundos
alternativos que poderiam ter surgido se, numa encruzilhada do tempo, a
natureza tivesse seguido outro caminho. Pensando bem, não deixa de ser
esse um dos papéis da arte e da literatura.
Nesse universo de bichos
antropomórficos, o homem, quando surge, é uma curiosa e indecifrável
anomalia.
Num conto ambientado na
Austrália de nossos dias, um canguru, cobiçando calções iguais aos dos
humanos, tenta se comunicar com um homem usando a ajuda de um papagaio e
de um macaco. O primeiro conhece "a Palavra"; o segundo, "o Gesto" -os
dois instrumentos de comunicação humana.
A maneira como Moravia conduz
a empreitada ao desastre inexorável reveste o relato de uma comicidade
que se poderia chamar de trágica e que remete a Kafka e até mesmo a
Beckett.
Longe de ser um mero
divertimento infanto-juvenil, as "Histórias da Pré-História" revelam
Moravia na plenitude de sua capacidade criativa.
Suas fabulosas fábulas são
mais uma faceta de uma obra que, partindo de um despojado realismo
social, acabou se espraiando ao longo de seis décadas em várias
direções, mas sempre tendo como bússola uma investigação iluminista do
homem, inspirada no marxismo e na psicanálise.
Em "Histórias da
Pré-História", o autor de "Os Indiferentes", "La Ciociara" e "Desideria"
alcança talvez o equilíbrio mais sutil entre a lucidez e a fantasia.
Trata-se mais de um livro
jovial do que propriamente infantil. Com sua leveza e sua graça -e
sobretudo com seu respeito à inteligência e à imaginação do leitor-, é
recomendado a todas as faixas etárias.
Na edição brasileira, as
elegantes ilustrações de Cecília Esteves acompanham perfeitamente o
generoso espírito do texto.
Histórias da Pré-História

Autor: Alberto Moravia
Tradução: Nilson Moulin
Editora: 34
Quanto: R$ 25 (237 págs.)
(©
Folha de S. Paulo)