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Parte de Pompéia sobrevive em São Cristóvão

10/01/2004

Pompéia. Ao fundo, o Vesúvio

Parte de Pompéia sobrevive em São Cristóvão

Daniela Name

   Há brasileiros que trabalham duro e apertam o cinto para realizar o sonho de ver de perto tesouros da Antigüidade guardados nos museus italianos. E o que a maioria deles não sabe é que o sonho pode começar a se realizar sem necessidade de avião ou passaporte. No Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, a coleção formada pela imperatriz Teresa Cristina reúne peças arqueológicas preciosíssimas de um período que vai do século VII a.C ao século III d.C. Entre as raridades estão quatro afrescos que pertenciam a casas de Pompéia, cidade que foi soterrada pela lava do Vesúvio. O restaurador italiano Pietro Tranchina está no Brasil para recuperar as peças, que farão parte da exposição “Amor e morte — Roma e Pompéia”, que o Centro Cultural Banco do Brasil inaugura em julho como o grande destaque de sua programação de arte deste ano.

   — Mesmo na Itália é difícil ver afrescos com esta qualidade — diz Tranchina, que está no Brasil com a assistente, Francesca Rabi. — Estamos estudando a melhor forma de poli-los, para recuperar a cor original.

Na coleção da imperatriz, de vasos a amuletos fálicos

   Os dois estão trabalhando no laboratório de restauração do museu, em São Cristóvão, a convite da União Latina, que gastou cerca de R$ 80 mil no projeto de recuperação dos afrescos. A instituição, que promove a cultura de países latinos ao redor do mundo, também está à frente da captação de patrocínio para a recuperação de toda a Coleção Teresa Cristina, que tem mais de 700 peças, distribuídas entre vasos de cerâmica, frascos de vidro, objetos de bronze (como cabos para espelhos e panelas) e até amuletos com a forma de falos. O orçamento da recuperação total da coleção é de R$ 2 milhões, incluindo a realização de uma exposição, de um catálogo e de oficinas de restauração. Os objetos de bronze são os que mais precisam de cuidados.

   Um passeio pela coleção mostra que dom Pedro II — um apaixonado pela fotografia, pela leitura e pelas viagens — encontrou a mulher certa ao casar-se com Teresa Cristina. Vinda da família dos Bourbon, ela já era imperatriz do Brasil quando, em 1853, convenceu seu irmão Fernando II, Rei das Duas Sicílias, a mandar para o Brasil peças encontradas em escavações em sítios arqueológicos da Itália, a maioria deles localizada em Herculano e Pompéia, as duas cidades completamente soterradas pelo magma do Vesúvio em 79 d.C. A destruição de Pompéia foi tão brusca que algumas vítimas foram petrificadas pelas cinzas com expressões que traduzem o terror do momento. Muitas casas e muitos objetos ficaram intactos depois que o magma esfriou.

   — Pompéia é o parque de diversões para qualquer arqueólogo — brinca a curadora das coleções de arqueologia do Museu Nacional, Tânia Andrade Lima. — Aprendi com os restauradores que a lava do vulcão foi péssima para as pessoas, mas ótima para a História, porque ajudou a preservar os objetos. A principal característica da coleção Teresa Cristina é a grande ênfase em objetos cotidianos. A imperatriz foi pioneira ao preservar este tipo de objeto, que mostra como era a vida naquela época. Ela também estimulou que fossem feitas escavações nas propriedades da família, no Sul da Itália.

   Nestas escavações promovidas pela própria imperatriz — em terras italianas que tinham feito parte de seu dote de casamento — foram encontrados vasos etruscos belíssimos, todos em exposição no Museu Nacional. Entre as peças há ainda estatuetas provenientes de santuários, que mostram um pouco da vida religiosa dos antigos romanos, e os tais amuletos fálicos de Pompéia — acreditava-se que eles tinham poderes mágicos e, por isso, eram extremamente populares.

Afrescos devem ter pertencido a casas abastadas

   s afrescos que Tranchina está recuperando são um caso à parte. Eles formam duas duplas de fragmentos de fachadas. Nos dois casos, tudo indica que são resquícios de casas bastante abastadas da sociedade pompeiana, já que as pinturas murais eram um trabalho que todo mundo podia apreciar, mas só quem possuía dinheiro tinha condições para pagar.

   Na primeira dupla, o fundo é negro e tem um fino contorno em vermelho.

   — As figuras representam seres mitológicos, como tritões e golfinhos — explica o restaurador, enquanto mostra um livro sobre os murais de Pompéia onde há uma reconstituição de mural exatamente no mesmo estilo. — Os especialistas que vão chegar aqui para a exposição vão poder fazer uma avaliação mais precisa, mas me arrisco a dizer que estas são pinturas feitas no máximo cem anos antes da erupção do Vesúvio.

   A outra dupla de afrescos tem fundo branco e as cores típicas da pintura antiga italiana: vermelho, verde e mostarda. Além de pavões e passarinhos, elas têm pequenas “janelas” com paisagens da época.

   — É uma preciosidade — diz Tranchina.

   A exposição “Amor e morte” vai ser montada primeiro no Masp, em São Paulo, como parte das comemorações pelos 450 anos da cidade, e reúne 300 peças. A idéia da mostra é estabelecer um contraste entre o luxo do poder imperial, em Roma, e a vida cotidiana em Pompéia.

(© O Globo Online)

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