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Notizie d'Italia

 

O fenômeno Berlusconi

17/01/2004

Berlusca: verde de raiva, branco de medo ou vermelho de vergonha?

BORIS FAUSTO

   Como entender o fenômeno Berlusconi, por duas vezes à frente do governo italiano, não obstante a descarada confusão que faz entre seus interesses privados e a esfera pública, em benefício dos primeiros?

   Uma explicação simples consistiria em dizer que o primeiro-ministro italiano magnetiza uma grande parte da sociedade, graças ao poder que detém nos meios de comunicação. De fato, "IL Cavalieri" é o homem mais rico da Itália, controlando um vasto império financeiro, imobiliário e, especialmente, três canais de televisão. A explicação faz sentido sob muitos aspectos, pois, como ninguém ignora, o poder da mídia, em particular da televisão, é um dado integrante da sociedade contemporânea, a tal ponto que a construção de imagens, o recorte das notícias, a ênfase nesta ou naquela figura têm um impacto enorme nas mentes e nos corações, para usar uma expressão que se tornou banal, mas nem por isso menos verdadeira.

   Usando sobretudo seus canais de televisão, Berlusconi contribuiu poderosamente para despolitizar o debate na mídia italiana e modelou os gostos e inclinações de um eleitorado fiel, com uma forte concentração entre mulheres que assistem à televisão por longas horas. Mas esse é o lado "soft" do fenômeno Berlusconi, que se associa também ao clientelismo sob formas extremas, à corrupção de membros do poder público, no Parlamento e no Judiciário, à intimidação de opositores na mídia, a acusações de entendimento com a máfia.


Berlusconi voltou com muito mais força, garantindo seu poderio pela via de uma legislação que lhe concede privilégios


   Não é o caso de multiplicar os exemplos. Mais importante é tentar entender como um homem com essas características, à frente de um partido personalista (Forza Italia), por ele talhado sob medida, exerce tanto poder na história recente da Itália. Mesmo porque, por maiores que sejam os trunfos de quem controla a mídia, há algo mais na sociedade do que um poder avassalador fabricante de imagens, de um lado, e mentes em branco, prontas a receber mensagens sedutoras, de outro.

   Um livro escrito por Paul Ginsborg, historiador inglês e professor na Universidade de Florença -"Italy and Its Discontents"-, resenhado por Alexander Stille, em "The New York Review of Books" (outubro de 2003), explora aspectos importantes das razões da ascensão de Berlusconi.

   Ginsborg conta a história de uma televisão italiana fortemente monopolista e politizada até meados dos anos 70. Na década de 50, havia uma única emissora, a RAI 1, dominada pela Democracia Cristã, a que se seguiram outras, influenciadas por socialistas e comunistas. A televisão privada foi autorizada somente em 1976, com uma base local. Por aí penetrou a empresa de Berlusconi, gozando de poderosos apoios políticos, saltando leis e etapas, até chegar ao império constituído pela hoje denominada Mediaset. Com o faro da modernidade, por mais discutível que seja, ele atraiu cada vez mais espectadores, com programas de prêmios, filmes americanos, novelas e, principalmente, shows de uma gritante vulgaridade.

   Um aspecto importante das observações de Ginsborg diz respeito aos setores sociais em que o primeiro-ministro tem particular influência. A análise vai no sentido de assinalar a existência na Itália de um amplo estrato social de pequenos empresários, comerciantes e industriais. Esse setor, assim como o composto pelos profissionais, sistematicamente encontra formas de sonegar impostos, disso resultando que os assalariados pagam uma das mais altas taxas impositivas de todo o mundo. De passagem, isso não nos soa familiar?

   Tais setores de classe média encantam-se com a capacidade de manipulação de Berlusconi, com o mito do vencedor e, em sua maioria, tendem a perdoar os imensos "pecados" do líder, pois não estão isentos de culpa eles próprios, ainda que em escala infinitamente menor. A observação, guardadas as muitas diferenças, não nos soa também familiar, se pensarmos nos líderes populistas da nossa direita?

   Um último aspecto a ser apontado refere-se às alternativas ao poder de Berlusconi, para que não se pense em uma "inata fascinação italiana" por figuras de seu talhe. Sua primeira vitória, em 1994, acabou em um estrepitoso fracasso, e ele foi obrigado a renunciar, em apenas oito meses, diante de denúncias de corrupção de funcionários, políticos e juízes. Mas a coalizão de centro-esquerda que o sucedeu acabou não se sustentando, enquanto ele reconstruiu sua imagem, apoiando-se na rede dos aderentes próximos, de jornalistas a membros do Parlamento.

   A coalização durou mais de seis anos, mas não conseguiu manter-se no poder, em parte como resultado de seus próprios erros. Berlusconi voltou com muito mais força, garantindo seu poderio pela via de uma legislação que lhe concede privilégios e lhe dá base legal para eternizar seus oligopólios.

   Por ora, parecem frágeis as possibilidades de alteração desse quadro, não obstante alguns resultados de eleições locais, a recente anulação judicial da lei que lhe garantia imunidade e sintomas de insatisfação entre outras forças componentes do governo, como é o caso da ex-fascista Aliança Nacional, liderada por Gianfranco Fini.

   Mas tudo indica que é cedo para falar de uma reviravolta.


Boris Fausto, historiador, é presidente do Conselho Acadêmico do Gacint (Grupo de Conjuntura Internacional), da USP, e docente no programa de doutorado do Instituto Universitário Ortega y Gasset, de Madri. É autor de, entre outras obras, "História do Brasil" (Edusp).
 

(© Folha de S. Paulo)

Berlusconi al sugo
 

O primeiro-ministro italiano perde a imunidade e poderá ser processado por corromper juízes

Mario Sabino

   Em junho do ano passado, o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, conseguiu a façanha de ressuscitar uma monstruosidade: uma lei de imunidade, extinta em 1993, que impedia o seu julgamento num processo em que é acusado de corromper juízes antes de assumir o poder. Tratava-se, evidentemente, de uma subversão de um dos princípios republicanos mais elementares – o de que todos os cidadãos são iguais perante a Justiça. Pois bem, depois de uma refrega político-jurídica, a Corte Constitucional italiana, que equivale ao Supremo Tribunal Federal brasileiro, anulou a imunidade de Berlusconi, bem como a de todos os outros políticos do país. Com isso, poderá ser reaberto o processo no qual o primeiro-ministro é réu. Resta saber se o processo será retomado a partir de sua interrupção ou terá de começar do zero. A chicana já está nos jornais.

   Horas depois de receber a notícia de que a lei de imunidade fora anulada, Berlusconi voou para sua magnífica vila na Sardenha. Ao que parece, para recuperar-se de uma pequena cirurgia plástica nos olhos. Berlusconi, de 67 anos, também passou a fazer dieta e a cumprir uma rotina de exercícios físicos. Quer chegar bonito e em forma às eleições européias previstas para junho. Não há como negar que, em matéria de cuidado com a aparência, Berlusconi é imbatível, apesar das gafes que comete. Ele se coloca o tempo inteiro como vítima dos partidos de esquerda, que estariam dispostos a tudo para evitar que sejam implementadas as reformas que tirariam a Itália do atoleiro econômico. Isso é meia verdade. Berlusconi corre o risco de passar à história apenas como um bufão, porque, ao contrário do que propala, está longe de realizar essas mudanças de maneira integral. Seu ramo parece ser mesmo a cosmética. Fala muito e faz pouco, uma especialidade peninsular como ossobuco.

   A Itália é uma das economias mais fortes do mundo, com um produto interno bruto da ordem de 1,6 trilhão de dólares, mais do que o triplo do brasileiro. Desde o início da década de 90, no entanto, o país vem patinando num lamaçal que combina estagnação, déficits públicos incanceláveis, escândalos de toda ordem (o da Parmalat é o mais vistoso no momento) e perda de competitividade tecnológica. Berlusconi prometia recolocar a Itália nos trilhos, por meio não só de reformas, como de uma mudança de mentalidade. Uma de suas plataformas, aliás, era a dos "três is" – "internet, inglese e impresa". Os italianos permanecem analfabetos digitais se comparados aos seus vizinhos europeus, a imensa maioria continua a ser monoglota e novos empreendimentos são tão raros quanto neve em Roma. Berlusconi não deu aos italianos os três "is" que prometeu e teve de pagar um preço: tiraram o seu "i" particular.

(© VEJA)

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