BORIS FAUSTO
Como entender o fenômeno
Berlusconi, por duas vezes à frente do governo italiano, não obstante a
descarada confusão que faz entre seus interesses privados e a esfera
pública, em benefício dos primeiros?
Uma explicação simples
consistiria em dizer que o primeiro-ministro italiano magnetiza uma
grande parte da sociedade, graças ao poder que detém nos meios de
comunicação. De fato, "IL Cavalieri" é o homem mais rico da Itália,
controlando um vasto império financeiro, imobiliário e, especialmente,
três canais de televisão. A explicação faz sentido sob muitos aspectos,
pois, como ninguém ignora, o poder da mídia, em particular da televisão,
é um dado integrante da sociedade contemporânea, a tal ponto que a
construção de imagens, o recorte das notícias, a ênfase nesta ou naquela
figura têm um impacto enorme nas mentes e nos corações, para usar uma
expressão que se tornou banal, mas nem por isso menos verdadeira.
Usando sobretudo seus canais
de televisão, Berlusconi contribuiu poderosamente para despolitizar o
debate na mídia italiana e modelou os gostos e inclinações de um
eleitorado fiel, com uma forte concentração entre mulheres que assistem
à televisão por longas horas. Mas esse é o lado "soft" do fenômeno
Berlusconi, que se associa também ao clientelismo sob formas extremas, à
corrupção de membros do poder público, no Parlamento e no Judiciário, à
intimidação de opositores na mídia, a acusações de entendimento com a
máfia.
Berlusconi voltou com muito mais força,
garantindo seu poderio pela via de uma legislação que lhe concede
privilégios
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Não é o caso de multiplicar os
exemplos. Mais importante é tentar entender como um homem com essas
características, à frente de um partido personalista (Forza Italia), por
ele talhado sob medida, exerce tanto poder na história recente da
Itália. Mesmo porque, por maiores que sejam os trunfos de quem controla
a mídia, há algo mais na sociedade do que um poder avassalador
fabricante de imagens, de um lado, e mentes em branco, prontas a receber
mensagens sedutoras, de outro.
Um livro escrito por Paul
Ginsborg, historiador inglês e professor na Universidade de Florença
-"Italy and Its Discontents"-, resenhado por Alexander Stille, em "The
New York Review of Books" (outubro de 2003), explora aspectos
importantes das razões da ascensão de Berlusconi.
Ginsborg conta a história de
uma televisão italiana fortemente monopolista e politizada até meados
dos anos 70. Na década de 50, havia uma única emissora, a RAI 1,
dominada pela Democracia Cristã, a que se seguiram outras, influenciadas
por socialistas e comunistas. A televisão privada foi autorizada somente
em 1976, com uma base local. Por aí penetrou a empresa de Berlusconi,
gozando de poderosos apoios políticos, saltando leis e etapas, até
chegar ao império constituído pela hoje denominada Mediaset. Com o faro
da modernidade, por mais discutível que seja, ele atraiu cada vez mais
espectadores, com programas de prêmios, filmes americanos, novelas e,
principalmente, shows de uma gritante vulgaridade.
Um aspecto importante das
observações de Ginsborg diz respeito aos setores sociais em que o
primeiro-ministro tem particular influência. A análise vai no sentido de
assinalar a existência na Itália de um amplo estrato social de pequenos
empresários, comerciantes e industriais. Esse setor, assim como o
composto pelos profissionais, sistematicamente encontra formas de
sonegar impostos, disso resultando que os assalariados pagam uma das
mais altas taxas impositivas de todo o mundo. De passagem, isso não nos
soa familiar?
Tais setores de classe média
encantam-se com a capacidade de manipulação de Berlusconi, com o mito do
vencedor e, em sua maioria, tendem a perdoar os imensos "pecados" do
líder, pois não estão isentos de culpa eles próprios, ainda que em
escala infinitamente menor. A observação, guardadas as muitas
diferenças, não nos soa também familiar, se pensarmos nos líderes
populistas da nossa direita?
Um último aspecto a ser
apontado refere-se às alternativas ao poder de Berlusconi, para que não
se pense em uma "inata fascinação italiana" por figuras de seu talhe.
Sua primeira vitória, em 1994, acabou em um estrepitoso fracasso, e ele
foi obrigado a renunciar, em apenas oito meses, diante de denúncias de
corrupção de funcionários, políticos e juízes. Mas a coalizão de
centro-esquerda que o sucedeu acabou não se sustentando, enquanto ele
reconstruiu sua imagem, apoiando-se na rede dos aderentes próximos, de
jornalistas a membros do Parlamento.
A coalização durou mais de
seis anos, mas não conseguiu manter-se no poder, em parte como resultado
de seus próprios erros. Berlusconi voltou com muito mais força,
garantindo seu poderio pela via de uma legislação que lhe concede
privilégios e lhe dá base legal para eternizar seus oligopólios.
Por ora, parecem frágeis as
possibilidades de alteração desse quadro, não obstante alguns resultados
de eleições locais, a recente anulação judicial da lei que lhe garantia
imunidade e sintomas de insatisfação entre outras forças componentes do
governo, como é o caso da ex-fascista Aliança Nacional, liderada por
Gianfranco Fini.
Mas tudo indica que é cedo
para falar de uma reviravolta.
Boris Fausto, historiador, é presidente do
Conselho Acadêmico do Gacint (Grupo de Conjuntura Internacional), da
USP, e docente no programa de doutorado do Instituto Universitário
Ortega y Gasset, de Madri. É autor de, entre outras obras, "História do
Brasil" (Edusp).
(© Folha de S.
Paulo)
| Berlusconi al sugo
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O primeiro-ministro
italiano perde a imunidade e
poderá ser processado por
corromper juízes
Mario Sabino
Em junho do ano passado, o primeiro-ministro da
Itália, Silvio Berlusconi, conseguiu a façanha de
ressuscitar uma monstruosidade: uma lei de imunidade,
extinta em 1993, que impedia o seu julgamento num processo
em que é acusado de corromper juízes antes de assumir o
poder. Tratava-se, evidentemente, de uma subversão de um dos
princípios republicanos mais elementares – o de que todos os
cidadãos são iguais perante a Justiça. Pois bem, depois de
uma refrega político-jurídica, a Corte Constitucional
italiana, que equivale ao Supremo Tribunal Federal
brasileiro, anulou a imunidade de Berlusconi, bem como a de
todos os outros políticos do país. Com isso, poderá ser
reaberto o processo no qual o primeiro-ministro é réu. Resta
saber se o processo será retomado a partir de sua
interrupção ou terá de começar do zero. A chicana já está
nos jornais.
Horas depois de receber a notícia de que a lei de
imunidade fora anulada, Berlusconi voou para sua magnífica
vila na Sardenha. Ao que parece, para recuperar-se de uma
pequena cirurgia plástica nos olhos. Berlusconi, de 67 anos,
também passou a fazer dieta e a cumprir uma rotina de
exercícios físicos. Quer chegar bonito e em forma às
eleições européias previstas para junho. Não há como negar
que, em matéria de cuidado com a aparência, Berlusconi é
imbatível, apesar das gafes que comete. Ele se coloca o
tempo inteiro como vítima dos partidos de esquerda, que
estariam dispostos a tudo para evitar que sejam
implementadas as reformas que tirariam a Itália do atoleiro
econômico. Isso é meia verdade. Berlusconi corre o risco de
passar à história apenas como um bufão, porque, ao contrário
do que propala, está longe de realizar essas mudanças de
maneira integral. Seu ramo parece ser mesmo a cosmética.
Fala muito e faz pouco, uma especialidade peninsular como
ossobuco.
A Itália é uma das economias mais fortes do mundo,
com um produto interno bruto da ordem de 1,6 trilhão de
dólares, mais do que o triplo do brasileiro. Desde o início
da década de 90, no entanto, o país vem patinando num
lamaçal que combina estagnação, déficits públicos
incanceláveis, escândalos de toda ordem (o da Parmalat é o
mais vistoso no momento) e perda de competitividade
tecnológica. Berlusconi prometia recolocar a Itália nos
trilhos, por meio não só de reformas, como de uma mudança de
mentalidade. Uma de suas plataformas, aliás, era a dos "três
is" – "internet, inglese e impresa". Os italianos permanecem
analfabetos digitais se comparados aos seus vizinhos
europeus, a imensa maioria continua a ser monoglota e novos
empreendimentos são tão raros quanto neve em Roma.
Berlusconi não deu aos italianos os três "is" que prometeu e
teve de pagar um preço: tiraram o seu "i" particular.
(©
VEJA) |