O Nobel italiano Dario Fo, 77, um dos maiores críticos do governo de
Silvio Berlusconi, promove sátira ao comportamento do primeiro-ministro em
nova peça. Na montagem "A Anomalia de Duas
Cabeças", ao lado de sua mulher, Fo ataca o líder italiano e sua posição
de apoio ao colega russo Vladimir Putin
JASON HOROWITZ
DO "NEW YORK TIMES", DE ROMA
As cortantes sátiras de Dario
Fo sobre as autoridades e os poderosos o conduziram ao topo das letras
italianas, um pináculo decorado com um prêmio Nobel. Em sua nova peça,
no entanto, o autor escolheu para usar como alvo aquele que é seu alvo
favorito, o primeiro-ministro Silvio Berlusconi (que na semana passada
perdeu sua imunidade, em decisão da Corte Constitucional da Itália, e
agora pode ser julgado em processo no qual é acusado de corrupção), de
uma altura consideravelmente mais modesta. Aproximadamente 75
centímetros, para ser exato.
"No começo da tirada esquerdista ["A Anomalia de Duas Cabeças']
explica-se que Berlusconi passou por uma cirurgia de emergência na qual
foi transplantada parte do cérebro do presidente russo Vladimir Putin
para a cabeça dele. (...) Isso foi inspirado pela amizade entre os
líderes, que tendem a usar roupas combinadas durante suas conferências
de cúpula"
"Membros do partido político de Berlusconi tentaram obter uma cópia do
texto de "A Anomalia de Duas Cabeças" antes mesmo de saberem que era
sobre o primeiro-ministro"
Fo passou mais de metade de uma
encenação lotada de sua peça "A Anomalia de Duas Cabeças" retratando
Silvio Berlusconi como uma espécie de anão tirânico.
"Não somos tão cruéis com
relação a ele", disse Fo, que trabalha na peça e continua ágil mesmo aos
77 anos de idade. "Dizemos somente que ele é uma espécie de anão, como
se fosse uma marionete."
Para criar o efeito, Fo fica
em pé em um fosso por trás do palco principal, com os seus braços
escondidos por pequenas calças listradas e as suas mãos manipulando
pequenos sapatos lustrosos.
E como se o sapateado dele
pelo palco na forma de uma espécie de boneco de ventríloquo libertado
não fosse absurdo o bastante, a premissa da peça envolve uma reviravolta
que acaba conseguindo ser ainda mais surreal.
No começo da tirada
esquerdista em larga medida improvisada e de estrutura muito livre
contra o primeiro-ministro conservador, explica-se que Berlusconi passou
por uma cirurgia de emergência, na qual parte do cérebro do presidente
russo Vladimir V. Putin foi transplantada para a cabeça dele. Isso
acontece depois que terroristas tchetchenos atacam os dois líderes a
tiros enquanto eles se preparam para dormir praticando caratê em
quimonos que são combinados.
Laços russo-italianos
A sátira foi inspirada
pela amizade entre os líderes, que tendem a usar roupas combinadas
durante suas conferências de cúpula (chapéus de pele em dachas russas e
calças de linho em vilas da Sardenha).
Berlusconi enfureceu muitos
políticos europeus em uma entrevista coletiva no mês passado ao defender
as ações de Putin contra os separatistas da Tchetchênia.
Além daquilo que Fo menciona
no palco como o número do "Dr. Jekyll e Mr. Hyde", com referências ao
gosto que Berlusconi veio a adquirir pela vodca e memórias dos tempos da
KGB, a peça coloca em destaque uma preocupação muito real na vida
cultural contemporânea da Itália.
Críticos como Fo sentem que o
poder político e a imensa influência cultural de Berlusconi -o
primeiro-ministro é um magnata da mídia e a pessoa mais rica de seu
país- criam um conflito de interesse que acaba servindo de ponto de
origem à censura.
"É um momento difícil para a
sátira", disse ele no camarim, antes do espetáculo. "Berlusconi tem suas
mãos em toda parte. A sátira precisa ter a tragédia como base. Bem, a
Itália agora é verdadeiramente trágica. Nunca estivemos tão por baixo."
E o mesmo se aplica a
Berlusconi, na peça, o que o teria deixado muito insatisfeito com a
forma pela qual é retratado.
"Há um comediante italiano que
trabalha dentro de um buraco", declarou o primeiro-ministro durante uma
entrevista, "para criar a impressão de um anão demoníaco".
"Não acredito que eu seja um
anão", afirmou.
"A nova geração come melhor e
pratica mais esportes que eu, mas sou um italiano médio."
Berlusconi também argumentou
que a esquerda "ataca o governo e especialmente o primeiro-ministro da
Itália continuamente".
Fo rebateu dizendo que ele e
outros satiristas são as verdadeiras vítimas. Disse que membros do
partido político de Berlusconi haviam tentado obter uma cópia do texto
de "A Anomalia de Duas Cabeças" -que ele interpreta ao lado de Franca
Rame, sua mulher e constante colaboradora. "Antes mesmo que soubessem
que se tratava de Berlusconi", afirma Fo.
Fo disse ter recusado entregar
o texto a uma reunião de diretores de teatro que ele classifica como
"politicamente motivada", em Milão, embora afirme que a produção da peça
não foi atrapalhada de maneira alguma.
Sátiras
Funcionários próximos a
Berlusconi dizem que até mesmo a acusação de que o primeiro-ministro
interfere é absurda, apontando que há muita sátira sobre ele na Itália.
As primeiras páginas dos jornais italianos rotineiramente exibem
caricaturas do primeiro-ministro e charges nas quais ele é satirizado.
Os programas de humor e sátira da TV italiana dão grande destaque a
Berlusconi com regularidade.
Mas os críticos geralmente
alegam que há muitos outros lugares em que a sátira não encontra lugar.
Nas últimas semanas, o presidente italiano se recusou a assinar uma lei
aprovada pelos aliados de Berlusconi no Parlamento Italiano que
possibilitaria uma futura expansão das propriedades do primeiro-ministro
no setor de mídia, enquanto as emissoras estatais de televisão
suspenderam os programas de alguns humoristas depois que o grupo
midiático controlado por Silvio Berlusconi os classificou como
"propaganda política" e ameaçou realizar abertura de processos.
"Eles não os censuraram,
simplesmente; os enxotaram", afirmou Fo.
A família de Silvio Berlusconi
controla grandes editoras e empresas de distribuição de filmes, jornais
e três dos sete canais nacionais de televisão italianos. Três dos demais
canais são controlados pelo governo.
O espetáculo
Apesar de todas as suas
graves acusações, "A Anomalia de Duas Cabeças" tem uma levada quase de
vaudeville. O espetáculo consiste em larga medida de piadas de gordo,
baixinho e careca sobre o primeiro-ministro e seus assessores. Há também
ataques praticamente escatológicos não somente à política de Silvio
Berlusconi mas também à sua vida pessoal e à sua ética.
E é exatamente por isso o que
os fãs de Fo esperam; é isso o que desejam.
Em uma das noites do
espetáculo, os compradores no saguão do teatro arremataram cerca de
5.000 (por volta de R$ 17.700) em produtos relacionados a Dario Fo, como
seus livros, suas pinturas e seus vídeos.
"O Papa e a Bruxa", uma sátira
a outro dos alvos prediletos de Fo, vendeu bastante. Os produtos de
maior sucesso, no entanto, são mesmo aqueles que atacam Berlusconi.
No começo do espetáculo, Rame
disse à platéia que o casal planejara descansar e se recuperar
pacificamente de algumas doenças, mas que as novas leis adiando o
julgamento de Berlusconi por corrupção e expandindo seus interesses de
negócios os haviam trazido de volta.
"Não tínhamos escolha a não
ser voltar ao palco", afirmou.
Retorno
Os 1.400 espectadores
que lotaram o teatro para aquela apresentação pareciam gratos por isso.
O espetáculo de três horas de duração vendeu todos os ingressos para sua
temporada de uma semana na capital italiana, e o casal saiu em turnê
pela Itália para mais outras 50 apresentações.
No entanto, dentre os espectadores havia quem considerasse que a peça
sequer fosse necessária.
"A essa altura, a realidade
tornou-se sátira", disse Augusto Derrone, 59.
"A Itália é sempre mais
surrealista, e a sátira não tem espaço para fazer seu trabalho."
Tradução Paulo Migliacci
(© Folha de S.
Paulo)
Fo é processado por sátira a Berlusconi
DA REDAÇÃO
O senador Marcello Dell'Utri,
do mesmo partido do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, Forza
Italia, está processando Dario Fo por difamação na peça "A Anomalia de
Duas Cabeças", informou o jornal britânico "The Guardian" na
quarta-feira passada.
A indenização pedida é de 1
milhão pelos danos causados por "ataques infundados e pessoais".
Segundo o advogado do senador, Pietro Federico, "Dario Fo sempre foi um
grande artista. Ninguém questiona isso. Mas isso não é sátira. É
perseguição. A sátira deve fazer as pessoas rirem de fatos reais. Mas Fo
está oferecendo informações falsas. Ele é negligente. Isso causa danos à
honra de meu cliente". Ao que Dario Fo respondeu: "Faço sátira há 40
anos. Isto é um paradoxo. É grotesco".
Prêmio Nobel de Literatura em
1997, o diretor, dramaturgo e ator Dario Fo ganhou fama internacional
com suas sátiras e farsas políticas. Os principais alvos de seus textos
são o capitalismo, o imperialismo e a corrupção no governo italiano.
Nascido em Sangiano, perto de
Milão, Fo enfrentou momentos de repressão durante a carreira. Censurado,
exilado da TV por 15 anos e proibido de entrar nos EUA, foi processado
pelo menos 47 vezes e preso, acusado de subversão, em 1974. A cada
provocação, rebatia com críticas aos adversários.
Entre as peças representadas
no Brasil estão "Morte Acidental de um Anarquista" e "Não Roubarás". Seu
"Manual Mínimo do Ator" foi publicado em 1998.
(© Folha de S.
Paulo)