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A voz portuguesa e a melodia italiana

20/01/2004

O compositor Ennio Morricone

João Máximo

   Quando a voz da portuguesa Dulce Pontes entoou os primeiros versos de “A brisa no coração”, no filme luso-italiano “Afirma Pereira”, de 1996, o italiano Ennio Morricone, autor da melodia, deve ter começado a pensar no disco que os dois gravaram em 2003, em Lisboa, “Focus”, agora lançado no Brasil (Universal). É bem possível que o cancionista que o grande compositor de música incidental de cinema esconde tenha se visto, na voz de Dulce, mais uma vez redescoberto.

Selo alemão lançou CD com 80 canções de Morricone

   Mais uma vez porque, não faz muito tempo, o selo alemão Bear Family pôs no mercado europeu uma surpreendente caixa com quatro CDs contendo não uma seleção das mais de 400 trilhas de Morricone, mas perto de 80 canções que ele escreveu, para o cinema ou não, desde a juventude. Morricone já fez de tudo: de bossa nova a ambiciosas obras corais, de experiências jazzísticas a mergulhos no folclore de seu país, de peças de concerto a arranjos de música popular (inclusive para disco de Chico Buarque gravado na Itália). Mas toda a sua fama deve-se ao que compôs para o cinema, sobretudo as trilhas sinfônicas, das quais é dos mais fervorosos defensores. É dos poucos compositores de cinema que orquestram sua própria música.

   Mas o cancionista, produtivo que seja, vive em permanente estágio de redescoberta. Dulce Pontes é sua voz do momento. “A brisa no coração” não está no novo disco, que tem cinco canções inéditas (“Antiga palavra”, “I girassoli”, “Vôo”, “House of no regrets” e “Amália por amor”, esta uma homenagem a Amália Rodrigues, ídolo de Dulce); duas que já nasceram canções (“Balada de Sacco e Vanzetti”, letra de Joan Baez, e “Luz prodigiosa”, sobre versos de García Lorca); e oito são temas incidentais de filmes que o próprio Morricone transformou em canções. Em pelo menos dois casos, com resultados inesperados. Quem conseguiria antever no religioso motivo de “A missão” um esboço de canção, agora intitulada “A rose among thorns”? Quem imaginaria na peça coral da minissérie “Moisés” a grave e bela balada “Renascer”, letra de Dulce? Inesperadas e de alto nível, ambas no mesmo tom solene, sério, clássico e sinfônico de quase todo o CD.

   Nas outras seis faixas, melodiosos comentários de Morricone a filmes os mais diversos, já se podia prever uma canção. O de “Cinema Paradiso” (não o tema de amor, do filho Andrea, mas o recorrente, de Ennio) é delicado e triste ao mesmo tempo. O de “Madalena” converteu-se em “No ano que vem”, letra em português de José Mário Branco. O de “Era uma vez no Oeste”, que com letra em inglês virou “Your love”, já se antecipava no filme pelo vocalise de Edda Dell’Orso. “Someone you once knew” e “Barco abandonado” são duas leituras, em idiomas distintos, de temas de “O segredo das velhas escadas”.

   Por fim, um dos momentos mais atraentes do CD, sobretudo para os brasileiros que adoram ser acarinhados com música: um dos esquecidos temas de Morricone para o também esquecido filme “Uma noite, um jantar” é agora uma homenagem ao Brasil de Jobim, Vinicius, Elis, samba e tamborim, na ritmada canção “Nosso mar”, letra de Dulce e Carlos Vargas. É uma pausa no tom solene do repertório e, ao mesmo tempo, prova da habilidade do cancionista Morricone. Só ela vale o CD, mesmo que o leitor tenha, como tantos, dificuldade para entender o português cantado de Portugal. Pode-se apostar que “Nosso mar” ainda vai fazer parte do repertório de uma de nossas cantoras sintonizadas com a bossa nova.

Focus
Ennio Morricone & Dulce Pontes

(© O Globo)

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