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Parmalat do Brasil pede concordata

28/01/2004

 

Empresa busca refúgio na Justiça contra pedidos de falência apresentados por credores. Dívidas podem passar de R$ 1 bilhão

   SÃO PAULO e BRASÍLIA - Pouco mais de um mês depois de a matriz pedir falência na Itália, em meio a um escândalo financeiro que passa de 14 bilhões de euros (cerca de R$ 50 bilhões), a filial brasileira da Parmalat ingressou ontem com pedido de concordata preventiva na Justiça paulista. Na solicitação entregue à 29ª Vara Cível de São Paulo, a empresa informou que o objetivo é ''assegurar a sobrevivência e a continuidade da implementação do programa de reestruturação'' da Parmalat no país. - A decisão, embora difícil, tornou-se inevitável - admitiu o presidente da Parmalat, Ricardo Gonçalves, chamado em 2001 para reestruturar as operações da companhia no país.

   Caso a Justiça atenda o pedido da Parmalat, a empresa ganhará tempo, e fôlego, para pagar suas dívidas no país, estimadas em mais de R$ 1 bilhão. Pela legislação, uma empresa concordatária pode ter até dois anos para honrar seus débitos. A concordata também servirá como refúgio da companhia aos seguidos pedidos de falência apresentados por credores. Ao menos cinco deles - Orlândia, Itauplast, Moinho Pacífico, Tesla e Banco Fibra - solicitaram sua falência nas últimas semanas. Há ainda mais de 90 títulos protestados contra a empresa.

   Em comunicado, Gonçalves admitiu que também foi pego de surpresa pela dimensão da crise internacional da companhia: - Os reflexos da crise internacional, na qual o grupo controlador italiano está envolvido, acabaram contaminando gravemente as operações da Parmalat Brasil. Segundo a companhia, a situação financeira no Brasil foi agravada pelo corte das linhas de crédito pelas instituições financeiras, ''algumas das quais inflexíveis''.

   Este seria o caso do Banco do Brasil, que bloqueou os depósitos da conta da Parmalat, além de obter liminar na Justiça determinando o arresto de bens e estoques. Na tentativa de contornar as dificuldades, a companhia criou ainda uma ''unidade de gerenciamento de crise'', para a qual foi contratada esta semana a Aggrego, consultoria do ex-ministro do Desenvolvimento Alcides Tápias.

   A Parmalat tem cerca de 6 mil funcionários no Brasil, distribuídos em fábricas em diversas regiões. Na semana passada, a 42ª Vara Cível de São Paulo nomeou um comitê de fiscalização para acompanhar a administração da filial brasileira e evitar fraudes e remessas de divisas para o exterior. Os fiscais - os advogados Carlos Casseb e Mauro Delphin de Moraes, mais o administrador Alpoim da Silva Botelho - foram designados para atender medida cautelar obtida pelo Banco Sumitomo Mitsui do Brasil para garantir pagamento de dívida de US$ 2,1 milhões que venceu no dia 12 e outros dois débitos no valor total de US$ 7,9 milhões vencidos na segunda-feira. A ação também impede a venda de bens.

   Enquanto isso, cresce a pressão para que o governo intervenha na crise da Parmalat. O presidente da Comissão de Agricultura da Câmara, deputado Valdemir Moka (PMDB-RS), reuniu-se com o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, para cobrar o pagamento das dívidas da empresa italiana com os produtores de leite brasileiros; a investigação das denúncias de irregularidades nas filiais nacionais; e a realização de levantamento da estrutura e do patrimônio da Parmalat no Brasil.

   Antes de se encontrar com Rodrigues, Moka participou de audiência pública da comissão que ouviu representantes do setor leiteiro. Nela, o representante da Confederação Nacional da Agricultura, Rodrigo Sant'anna Alvim, alertou que os 20 mil produtores prejudicados pela crise na empresa estão preocupados com o silêncio do governo diante da situação.

(© JB Online) 


Filial brasileira da Parmalat captou US$ 700 mi em 2002

SANDRA BALBI
da Folha de S.Paulo

   A Parmalat Participações, uma das holdings que controlam as operações do grupo italiano no país, captou cerca de US$ 700 milhões em 2002, por meio da emissão de títulos conversíveis em ações, no mercado internacional.

   A informação foi obtida na Junta Comercial de São Paulo pelo comitê de fiscalização da Parmalat, nomeado no último dia 16 pelo juiz Carlos Henrique Abrão, da 42ª Vara Cível de São Paulo. A holding e sua controlada, a Parmalat Brasil S.A. Indústria de Alimentos, pediram concordata preventiva anteontem.

   O comitê, entretanto, ainda não conseguiu descobrir o destino dado ao dinheiro captado. Não se sabe nem se os recursos chegaram a entrar nos cofres da empresa.

   Segundo um dos integrantes do comitê, na Junta Comercial consta apenas a autorização do Conselho de Administração para a holding fazer a captação.
Nos documentos levantados até ontem pelo comitê, foi constatado que a Parmalat Participações registrou uma subscrição de R$ 3 bilhões em seu capital. Esse pode ter sido o destino do dinheiro, porém o comitê ainda não localizou documento que comprove a integralização (aporte na forma de bens e imóveis) do capital.

   O que o comitê desconfia é que o dinheiro não chegou a entrar na empresa. "Há movimentações muito estranhas, a empresa capta recursos lá fora, registra no seu capital, mas não tem o capital", diz o juiz Abrão.

   A holding Parmalat Participações, na verdade, resume-se à figura de Andrea Ventura, representante dos controladores italianos -a Parmalat SpA e a Parmalat Food Holdings (UK) Ltd.

   É ele quem assina a ata da reunião dos sócios cotistas que decidiu, no dia 27, pedir concordata preventiva. Ventura é, também, diretor financeiro da Parmalat Brasil S.A. Indústria de Alimentos, a empresa operacional do grupo. Nas últimas semanas, ele esteve na Itália negociando os destinos da operação brasileira.

Intimação

   O presidente da Parmalat Alimentos, Ricardo Gonçalves, recusou-se anteontem a receber a intimação de Abrão para prestar informações. O oficial de Justiça esteve em sua casa no final do dia, mas não foi recebido. "A reunião está mantida para amanhã [hoje] à tarde, vamos ver se ele desobedecerá à convocação", disse o juiz.

   Abrão afirmou que "é grande a possibilidade de solvência [recuperação] da Parmalat Alimentos, desde que ela não esteja muito envolvida nos problemas da sua holding local". Segundo Abrão, parte do endividamento da holding, estimado em US$ 1,4 bilhão, tem o aval da Parmalat Alimentos.

   A extensão dessas relações ainda será apurada pelo comitê fiscalizador, para definir até que ponto o lado operacional foi contaminado pelas dívidas da controladora. Para isso, já se cogita ampliar o raio de ação do comitê cujas investigações limitam-se às operações dos últimos 90 dias da Parmalat Alimentos.

(© Folha Online) 

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