Retornar ao índice ItaliaOggi

   

Notizie d'Italia

   

 

Itália: entre os ritos africanos e os valores europeus

02/02/2004

 

Frank Bruni
EM FLORENÇA

   Todas as semanas, mulheres apavoradas visitam a clínica ginecológica do Doutor Omar Abdulcadir e, embora cada uma sinta uma dor diferente, a razão das consultas é uma só.

   Elas são imigrantes africanas que foram submetidas a um macabro ritual, comum em todo o continente, que consiste na extirpação do clitóris.

   Abdulcadir trata de suas inflamações ou infecções, mas, no início deste mês, tomou uma decisão inusitada - cuja intenção, garante ele, seria impedir que suas filhas passassem pelo mesmo sofrimento. Ele propôs aos hospitais em que trabalha lhe permitissem realizar uma versão bem menos danosa - ou, quem sabe, alternativa - da eliminação do clitóris.

   Seu objetivo, diz, é reduzir o sofrimento imposto por uma tradição que não irá desaparecer.

   "Minha proposta não é ideal", diz ele. "Mas de que outra forma podemos salvar estas crianças?"

   Autoridades médicas da Toscana examinam com atenção o pedido, mas rejeitaram sua proposta, que, diz ele, poderia impedir que imigrantes levassem meninas com idade inferior a dez anos para a África ou centros ilícitos na própria Itália que realizam operações muito mais violentas. Críticos condenaram a proposta do médico, classificada como uma legitimação implícita de uma prática inaceitável.

   Mas o intenso debate que ocorre na Itália parte de uma questão estritamente médica e atinge o mesmo dilema enfrentado pela França, que proibiu os turbantes muçulmanos, e outros países europeus: até que ponto podem ou devem os europeus acomodar-se aos novos imigrantes e suas diversas tradições culturais?

   As dificuldades enfrentadas na Itália para solucionar o problema estão refletidas nas posições defendidas por Cristiana Scoppa, representante da Associação Italiana para Mulheres em Formação, um grupo educacional e advocatício.

   Ela condena a proposta de Abdulcadir. "A idéia deslegitimaria a luta de centenas de mulheres africanas que desautorizam toda e qualquer forma de manipulação genital e afirmam que ela simboliza uma cultura de submissão das mulheres ao controle dos homens", diz ela.

   Mas ela disse que também se opunha ao projeto de lei do Parlamento italiano que criminaliza explicitamente a extirpação de genitais. Ela afirma que outras leis mais abrangentes poderiam ser aplicadas, e que uma lei específica contra a extirpação genital representaria "um ataque específico conta uma cultura".

   Marzia Monciatti, representante da prefeitura de Florença, afirmou que certas tradições culturais se chocavam com os valores italianos de tal modo que seria simplesmente impossível aceitá-las.

   A extirpação de genitais seria um exemplo, diz ela. Um outro seria o casamento de ciganos romenos adolescentes, que também acontecem na Itália.

   Mas ela diz ter simpatia pela militância de imigrantes muçulmanos que defendem a exclusão de crucifixos das salas de aula. Este também foi o tema de um intenso debate na Itália, um país em que 85% da população é nominalmente católica.

   Prédios públicos, avalia Monciatti, "são locais que abrigam pessoas de origens, culturas e tradições diferentes". "Essa diversidade merece respeito", diz ela.

   A extirpação de genitais femininos é praticada em mais de vinte países africanos, e ainda em outros países para os quais migram estas populações.

   A questão preocupa a tal ponto a Europa que países como Dinamarca, Inglaterra e Suécia, por exemplo, promulgaram leis que criminalizam expressamente esta prática. Leis mais abrangentes de outros países condenam este rito africano.

   Imigrantes querem que suas filhas sejam submetidas ao procedimento ou viajem novamente para a África, ou então realizem uma operação em condições ilegais, afirmam Abdulcadir e outras autoridades de saúde que examinaram o assunto.

   Abdulcadir diz não saber qual o número de extirpações realizadas na Itália, pois a maior parte de suas 500 novas pacientes são mulheres adultas cujos genitais foram extirpados na África há pelo menos dez anos. Ele trata de seus problemas menstruais, inchaços e infecções crônicas, entre outros problemas.

   No entanto ele diz ter sido informado, em conversas com pacientes (sobretudo somalianas), que a mudança de país não implica necessariamente em uma mudança de mentalidade.

   "Seja na Itália, na Inglaterra, na França ou na Itália, eles não querem abrir mão de suas tradições", disse ele em seu consultório na tarde de segunda-feira. "Por isso tento oferecer-lhes uma alternativa para preservar esta tradição."

   Ele formulou sua proposta após consultas com imigrantes da Somália, país em que ele nasceu e cresceu. Lá a extirpação de genitais é uma prática comum, e ele diz que suas sete irmãs, que deixaram o país, foram submetidas ao procedimento.

   A alternativa, conforme descreve, seria um pequeno furo na ponta do clitóris que faria derramar uma ou duas gotas de sangue, e seria apenas simbólico. Ele diz que utilizaria um anestésico local.

   No entanto, não se sabe ao certo se as mulheres imigrantes realmente recorreriam à alternativa, que provavelmente não violaria nenhuma lei.

   Os adversários da idéia afirmam que os imigrantes mais apegados à tradição provavelmente considerariam o procedimento insuficiente, enquanto os imigrantes menos apegados não sentem a necessidade de um procedimento que substitua a extirpação do clitóris.

   Há ainda quem diga que a idéia represente uma aprovação tácita da extirpação de genitais.

   "Diremos a nossas filhas que não se deve fazer isso e pronto", afirmou recentemente o imigrante somali Ghanu Adam em entrevista coletiva concedida em Florença.

   A proposta do médico foi amplamente criticada, e sua força e alcance são, em grande parte, o reflexo das velozes mudanças demográficas na Itália, um país cuja população de 57 milhões abriga cerca de 1,5 milhão de imigrantes legais e centenas de milhares de imigrantes ilegais.

   Os italianos ainda não se adaptaram a esta realidade e não sabem como posicionar-se diante dos novos desafios, sejam eles de ordem prática ou filosófica.

   Na primeira página do jornal "La Stampa" de 23 de janeiro, foi publicado um artigo que perguntava por que uma alternativa simbólica à extirpação de genitais validaria esta prática mais do que a ingestão simbólica do corpo de Jesus na missa católica validaria o canibalismo.

   O jornal romano "Il Messaggero" discutiu o processo de integração cultural em artigo que afirmava que "julgar que as pessoas são prisioneiras eternas de seus costumes" representava por si só uma ofensa.

   "Tudo isso é delicado, muito delicado", afirma Marisa Nicchi, representante do governo da Toscana, em entrevista concedida na segunda-feira, em Florença. "A situação condensa vários problemas, sendo o principal deles a possível coexistência de duas culturas".(Tradução: Manoel Fontoura)

(© UOL Mídia Global/The New York Times) 

Un pezzo d'Africa in Italia
 

Un medico somalo lotta contro le infibulazioni femminili e propone un rito alternativo

Francesca Capelli

   Immaginiamo un medico che da sempre lotta contro le mutilazioni genitali femminili (MGF). E’ somalo, ma da molti anni vive in Italia, a Firenze, dove ha sposato una collega italiana. Omar Abdulcadir, questo il suo nome, è talmente impegnato in questo campo da dirigere, nell’Azienda Ospedaliera Careggi di Firenze (tel. 055/4277601), il Centro di Riferimento Regionale per la Prevenzione e la Cura delle Complicanze legate alle MGF. Un centro pubblico, voluto dalla Regione Toscana, per ufficializzare il lavoro che Omar e i suoi collaboratori facevano da anni: fornire assistenza alle donne africane che hanno subito questo tipo di mutilazioni, dall’escissione del clitoride e delle piccole labbra all’infibulazione, ovvero la chiusura quasi totale della vagina.

   Nella provincia di Firenze vivono oltre 4.000 immigrati che provengono dai paesi africani dove si praticano mutilazioni di vario livello e infibulazione. Si tratta di ben 18 paesi, dalla Somalia alla Nigeria, dal Mali al Kenia. L’età in cui queste mutilazioni vengono effettuate varia a seconda dei paesi: in molti casi quando la bambina ha 6-7 anni, a volte entro il primo anno di vita, nella Nigeria del Nord dopo la nascita del primo figlio. L’infibulazione, ovvero la chiusura quasi totale della vagina, è specifica di Somalia, Gibuti, Sudan, Etiopia, Mali, Eritrea e altri paesi. E’ una pratica tribale e tradizionale che non ha nulla a che vedere con l’appartenenza alla religione islamica, diffusa in questi paesi.

   Oltre a provocare infezioni locali e setticemia, a causa delle precarie condizioni igieniche in cui sposso viene effettuata, l’infibulazione può avere gravi complicanze durante la vita riproduttiva della donna, come dolori insopportabili durante i primi rapporti sessuali o con le mestruazioni, mentre il parto richiede spesso un cesareo, anche a causa dell’inesperienza – rispetto a queste realtà - degli operatori sanitari italiani.

   Gli obiettivi del centro fiorentino, il più importante in tutta Europa, sono la terapia delle complicanze legate alle MGF, l’educazione e informazione sulle leggi italiane contro le mutilazioni, la formazione del personale sanitario sulla conoscenza del significato delle MGF e sul migliore approccio con queste donne nel rispetto della loro cultura, la ricerca a tutti i livelli, la deinfibulazione alle donne che ne fanno richiesta. “Possiamo aprire la cicatrice dell’infibulazione e cercare di ricostruire più possibile, con i tessuti residui, una parvenza di labbra” dice il dottor Abdulcadir. “Per queste donne è difficile aprirsi con il medico: il fatto che io sia un connazionale le aiuta molto. Ma non tutte accettano l’intervento, perché questo significa sconvolgere completamente la loro percezione del corpo, le relazioni con gli altri, uomini e donne, il modo di vivere la sessualità”.

   Ancora più importante, per Omar e per i suoi collaboratori, il lavoro di prevenzione (in collaborazione con le associazioni di immigrati provenienti dai paesi dove le MGF sono diffuse), rivolto alle madri di bambine piccole, affinché non sottopongano le figlie a questa pratica, informandole delle possibili gravi conseguenze e di nuovi modi di acquisire e conservare la propria identità culturale e femminile. “Cerchiamo di modificare l’atteggiamento verso la donna intervenendo dal basso, con l’informazione e nel rispetto delle culture tradizionali”, dice Abdulcadir. “Solo così si ottengono risultati destinati a durare nel tempo”.

   Eppure, dopo tanti anni di lavoro, paziente e nell’ombra, Omar si rende conto che esiste una quantità di famiglie immigrate che continuano a imporre alle figlie le mutilazioni. Forte anche dell’esperienza della moglie Lucrezia Catania (unica ginecologa italiana ammessa dalla comunità somala a condurre una ricerca sulla sessualità delle donne infibulate) ha un’idea.

   Nei casi in cui ci si rende conto che ogni strategia di prevenzione è inutile, perché non proporre alle famiglie un rito alternativo all’infibiluazione? Attenzione, non una mutilazione “minore”, ma una puntura simbolica, che non avrà conseguenze sulla fisiologia femminile. L’operazione avverrebbo sotto controllo medico e consisterebbe, appunto, in una puntura con un ago sottile sulla mucosa del clitoride, dopo anestesia locale con una pomata specifica. In questo modo, ferma restando la totale condanna delle mutilazioni di qualsiasi tipo, si darebbe alle bambine delle famiglie più tradizionali (per capirci, quelle che porterebbero le figlie nei paesi di origine per essere infibulate), la possibilità di evitare un danno maggiore e di vivere protette e rispettate sia nella famiglia e nella comunità di origine, sia nella società in cui vivono. Spiega Omar: “Potrebbero avere il loro rito, validato dal riconoscimento delle figure importanti della comunità ma senza la sofferenza e la mutilazione”.

   E qui iniziano i problemi. Un medico che per anni aveva lavorato a favore delle donne immigrate, nell’indifferenza della maggior parte dei media, diventa – suo malgrado – una celebrità.
La sua proposta viene commentata prima ancora di essere letta con attenzione. Le opinioni e le condanne in bianco si sprecano, compresa quella di una ministra per le Pari opportunità che non ha detto una parola, quando Parlamento italiano ha approvato una legge sulla fecondazione assistita che umilia e invade in un modo altrettanto odioso il corpo femminile.

   Sembra inutile (ma forse no) ripetere che  le mutilazioni vanno condannate e rifiutate con forza e non potranno mai essere legalizzate (e il piercing agli organi genitali?). Ma nel frattempo, mentre si aspetta che la cultura cambi (dal basso e non per legge), come ridurre i danni? Omar Abdulcadir ha fatto la sua proposta, esponendosi in prima persona, contro ipocrisie e omertà. Ma non è tipo da innamorarsi in modo improduttivo delle proprie idee. A lui – più che le questioni “di principio”, interessano la salute e il benessere psicofisico delle donne. “Speriamo che, sullo stimolo del dibattito che si è scatenato, qualcuno tiri fuori un’idea migliore”, è il suo commento.


Rito alternativo alle MGF non dannoso e simbolico.

 

Centro di Riferimento Regionale per la Prevenzione e la Cura delle Complicanze delle MGF

 

Abdulcadir Omar Hussen, Lucrezia Catania

 

   Proposto alle famiglie di bambine a rischio di MGF, quando appare evidente che ogni strategia educativa e di informazione per prevenirla si è dimostrata inutile.

 

   Consiste in una puntura di ago sottile (puntura di spillo) sulla mucosa che ricopre il clitoride dopo anestesia locale con specifica crema anestetica.

 

   Obiettivo è dare la possibilità alle bambine delle famiglie più tradizionali provenienti dai paesi a tradizione escissoria di evitare un danno maggiore e di vivere protette e rispettate sia nella famiglia d’origine che nella società in cui vivono. Hanno il loro rito validato dal riconoscimento delle figure importanti della comunità ma senza la sofferenza e la mutilazione.

 

   Ribadiamo in modo deciso la nostra condanna ad ogni forma di mutilazione, ricordando i successi già conseguiti negli anni passati con la realizzazione evidente di progetti per l’educazione, la prevenzione, l’informazione e la formazione CONTRO le MGF.


 

Francesca Capelli, giornalista scientifica, dopo molti anni in redazione ha deciso di buttarsi come freelance. Oggi collabora con giornali e riviste nazionali ed estere ed è editore-direttore del webmagazine per ragazzi wwv.ragazzinet.it, creato perché cercava un pretesto per fare le cose più divertenti del mondo facendole passare per duro lavoro. Il suo sogno è diventare scrittrice, ma non ha il tempo per provarci. Da sempre interessata ai diritti umani (soprattutto dell'infanzia) fa parte del consiglio direttivo di una Ong francese ha scritto reportage da paesi in guerra o in via di sviluppo (Uganda, Bangladesh, Brasile, Cambogia, Saharawi, El Salvador, Kurdistan turco). Vive tra Milano e Firenze (dove divide la casa con un fidanzato e una gatta di nome Rosa Luxembourg). Il che significa che passa la maggior parte del suo tempo in treno.

 

(© dols.net) 

Publicidade

Pesquise no Site ou Web

Google
Web ItaliaOggi

Notizie d'Italia | Gastronomia | Migrazioni | Cidadania | Home ItaliaOggi