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Frank Bruni
EM FLORENÇA
Todas as semanas, mulheres apavoradas visitam a clínica ginecológica
do Doutor Omar Abdulcadir e, embora cada uma sinta uma dor diferente,
a razão das consultas é uma só.
Elas são imigrantes africanas
que foram submetidas a um macabro ritual, comum em todo o continente,
que consiste na extirpação do clitóris.
Abdulcadir trata de suas inflamações ou infecções, mas, no início
deste mês, tomou uma decisão inusitada - cuja intenção, garante ele,
seria impedir que suas filhas passassem pelo mesmo sofrimento. Ele
propôs aos hospitais em que trabalha lhe permitissem realizar uma
versão bem menos danosa - ou, quem sabe, alternativa - da eliminação
do clitóris.
Seu objetivo, diz, é reduzir o
sofrimento imposto por uma tradição que não irá desaparecer.
"Minha proposta não é ideal",
diz ele. "Mas de que outra forma podemos salvar estas crianças?"
Autoridades médicas da Toscana
examinam com atenção o pedido, mas rejeitaram sua proposta, que, diz
ele, poderia impedir que imigrantes levassem meninas com idade
inferior a dez anos para a África ou centros ilícitos na própria
Itália que realizam operações muito mais violentas. Críticos
condenaram a proposta do médico, classificada como uma legitimação
implícita de uma prática inaceitável.
Mas o intenso debate que ocorre
na Itália parte de uma questão estritamente médica e atinge o mesmo
dilema enfrentado pela França, que proibiu os turbantes muçulmanos, e
outros países europeus: até que ponto podem ou devem os europeus
acomodar-se aos novos imigrantes e suas diversas tradições culturais?
As dificuldades enfrentadas na
Itália para solucionar o problema estão refletidas nas posições
defendidas por Cristiana Scoppa, representante da Associação Italiana
para Mulheres em Formação, um grupo educacional e advocatício.
Ela condena a proposta de
Abdulcadir. "A idéia deslegitimaria a luta de centenas de mulheres
africanas que desautorizam toda e qualquer forma de manipulação
genital e afirmam que ela simboliza uma cultura de submissão das
mulheres ao controle dos homens", diz ela.
Mas ela disse que também se
opunha ao projeto de lei do Parlamento italiano que criminaliza
explicitamente a extirpação de genitais. Ela afirma que outras leis
mais abrangentes poderiam ser aplicadas, e que uma lei específica
contra a extirpação genital representaria "um ataque específico conta
uma cultura".
Marzia Monciatti, representante
da prefeitura de Florença, afirmou que certas tradições culturais se
chocavam com os valores italianos de tal modo que seria simplesmente
impossível aceitá-las.
A extirpação de genitais seria
um exemplo, diz ela. Um outro seria o casamento de ciganos romenos
adolescentes, que também acontecem na Itália.
Mas ela diz ter simpatia pela
militância de imigrantes muçulmanos que defendem a exclusão de
crucifixos das salas de aula. Este também foi o tema de um intenso
debate na Itália, um país em que 85% da população é nominalmente
católica.
Prédios públicos, avalia
Monciatti, "são locais que abrigam pessoas de origens, culturas e
tradições diferentes". "Essa diversidade merece respeito", diz ela.
A extirpação de genitais
femininos é praticada em mais de vinte países africanos, e ainda em
outros países para os quais migram estas populações.
A questão preocupa a tal ponto
a Europa que países como Dinamarca, Inglaterra e Suécia, por exemplo,
promulgaram leis que criminalizam expressamente esta prática. Leis
mais abrangentes de outros países condenam este rito africano.
Imigrantes querem que suas
filhas sejam submetidas ao procedimento ou viajem novamente para a
África, ou então realizem uma operação em condições ilegais, afirmam
Abdulcadir e outras autoridades de saúde que examinaram o assunto.
Abdulcadir diz não saber qual o
número de extirpações realizadas na Itália, pois a maior parte de suas
500 novas pacientes são mulheres adultas cujos genitais foram
extirpados na África há pelo menos dez anos. Ele trata de seus
problemas menstruais, inchaços e infecções crônicas, entre outros
problemas.
No entanto ele diz ter sido
informado, em conversas com pacientes (sobretudo somalianas), que a
mudança de país não implica necessariamente em uma mudança de
mentalidade.
"Seja na Itália, na Inglaterra,
na França ou na Itália, eles não querem abrir mão de suas tradições",
disse ele em seu consultório na tarde de segunda-feira. "Por isso
tento oferecer-lhes uma alternativa para preservar esta tradição."
Ele formulou sua proposta após
consultas com imigrantes da Somália, país em que ele nasceu e cresceu.
Lá a extirpação de genitais é uma prática comum, e ele diz que suas
sete irmãs, que deixaram o país, foram submetidas ao procedimento.
A alternativa, conforme
descreve, seria um pequeno furo na ponta do clitóris que faria
derramar uma ou duas gotas de sangue, e seria apenas simbólico. Ele
diz que utilizaria um anestésico local.
No entanto, não se sabe ao
certo se as mulheres imigrantes realmente recorreriam à alternativa,
que provavelmente não violaria nenhuma lei.
Os adversários da idéia afirmam que os imigrantes mais apegados à
tradição provavelmente considerariam o procedimento insuficiente,
enquanto os imigrantes menos apegados não sentem a necessidade de um
procedimento que substitua a extirpação do clitóris.
Há ainda quem diga que a idéia
represente uma aprovação tácita da extirpação de genitais.
"Diremos a nossas filhas que
não se deve fazer isso e pronto", afirmou recentemente o imigrante
somali Ghanu Adam em entrevista coletiva concedida em Florença.
A proposta do médico foi
amplamente criticada, e sua força e alcance são, em grande parte, o
reflexo das velozes mudanças demográficas na Itália, um país cuja
população de 57 milhões abriga cerca de 1,5 milhão de imigrantes
legais e centenas de milhares de imigrantes ilegais.
Os italianos ainda não se
adaptaram a esta realidade e não sabem como posicionar-se diante dos
novos desafios, sejam eles de ordem prática ou filosófica.
Na primeira página do jornal
"La Stampa" de 23 de janeiro, foi publicado um artigo que perguntava
por que uma alternativa simbólica à extirpação de genitais validaria
esta prática mais do que a ingestão simbólica do corpo de Jesus na
missa católica validaria o canibalismo.
O jornal romano "Il Messaggero"
discutiu o processo de integração cultural em artigo que afirmava que
"julgar que as pessoas são prisioneiras eternas de seus costumes"
representava por si só uma ofensa.
"Tudo isso é delicado, muito
delicado", afirma Marisa Nicchi, representante do governo da Toscana,
em entrevista concedida na segunda-feira, em Florença. "A situação
condensa vários problemas, sendo o principal deles a possível
coexistência de duas culturas".(Tradução:
Manoel Fontoura)
(© UOL Mídia
Global/The New York Times)
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Un pezzo d'Africa in Italia |
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Un medico somalo lotta contro le infibulazioni
femminili e propone un rito alternativo Francesca Capelli
Immaginiamo un medico che
da sempre lotta contro le mutilazioni genitali femminili
(MGF). E’ somalo, ma da molti anni vive in Italia, a Firenze, dove
ha sposato una collega italiana. Omar Abdulcadir, questo il suo
nome, è talmente impegnato in questo campo da dirigere,
nell’Azienda Ospedaliera Careggi di Firenze (tel. 055/4277601), il
Centro di Riferimento Regionale
per la Prevenzione e la Cura delle Complicanze legate alle MGF.
Un centro pubblico, voluto dalla Regione Toscana, per
ufficializzare il lavoro che Omar e i suoi collaboratori facevano
da anni: fornire assistenza alle donne africane che hanno subito
questo tipo di mutilazioni, dall’escissione del clitoride e delle
piccole labbra all’infibulazione, ovvero
la chiusura quasi totale della
vagina.
Nella provincia di Firenze vivono
oltre 4.000 immigrati che provengono dai paesi africani dove si
praticano mutilazioni di vario livello e infibulazione.
Si tratta di ben 18 paesi, dalla
Somalia alla Nigeria, dal Mali al Kenia. L’età in cui
queste mutilazioni vengono effettuate varia a seconda dei paesi:
in molti casi quando la bambina
ha 6-7 anni, a volte entro il primo anno di vita, nella
Nigeria del Nord dopo la nascita del primo figlio.
L’infibulazione, ovvero la chiusura quasi totale della vagina, è
specifica di Somalia, Gibuti, Sudan, Etiopia, Mali, Eritrea e
altri paesi. E’ una pratica
tribale e tradizionale che non ha nulla a che vedere con
l’appartenenza alla religione islamica, diffusa in questi paesi.
Oltre a provocare infezioni locali e setticemia, a causa
delle precarie condizioni igieniche in cui sposso viene
effettuata, l’infibulazione può avere gravi complicanze durante la
vita riproduttiva della donna, come dolori insopportabili
durante i primi rapporti sessuali o con le mestruazioni, mentre il
parto richiede spesso un cesareo, anche a causa dell’inesperienza
– rispetto a queste realtà - degli operatori sanitari italiani.
Gli obiettivi del centro fiorentino, il più
importante in tutta Europa, sono la terapia delle complicanze
legate alle MGF, l’educazione e informazione sulle leggi italiane
contro le mutilazioni, la formazione del personale sanitario sulla
conoscenza del significato delle MGF e sul migliore approccio con
queste donne nel rispetto della loro cultura, la ricerca a tutti i
livelli, la deinfibulazione alle donne che ne fanno richiesta. “Possiamo
aprire la cicatrice dell’infibulazione e cercare di ricostruire
più possibile, con i tessuti residui, una parvenza di
labbra” dice il dottor Abdulcadir.
“Per queste donne è difficile
aprirsi con il medico: il fatto che io sia un connazionale le
aiuta molto. Ma non tutte accettano l’intervento, perché
questo significa sconvolgere
completamente la loro percezione del corpo, le relazioni
con gli altri, uomini e donne, il modo di vivere la sessualità”.
Ancora più importante, per
Omar e per i suoi collaboratori,
il lavoro di prevenzione (in collaborazione con le
associazioni di immigrati provenienti dai paesi dove le MGF sono
diffuse), rivolto alle madri di bambine piccole, affinché non
sottopongano le figlie a questa pratica, informandole delle
possibili gravi conseguenze e di nuovi modi di acquisire e
conservare la propria identità culturale e femminile. “Cerchiamo
di modificare l’atteggiamento verso la donna intervenendo dal
basso, con l’informazione e nel rispetto delle culture
tradizionali”, dice Abdulcadir. “Solo così si ottengono
risultati destinati a durare nel tempo”.
Eppure, dopo tanti anni di
lavoro, paziente e nell’ombra, Omar si rende conto che esiste una
quantità di famiglie immigrate che continuano a imporre alle
figlie le mutilazioni. Forte anche dell’esperienza della
moglie Lucrezia Catania (unica
ginecologa italiana ammessa dalla comunità somala a condurre una
ricerca sulla sessualità delle donne infibulate) ha
un’idea.
Nei casi
in cui ci si rende conto che ogni strategia di prevenzione è
inutile, perché non proporre alle famiglie un rito alternativo
all’infibiluazione? Attenzione, non
una mutilazione “minore”,
ma una puntura simbolica, che non avrà conseguenze sulla
fisiologia femminile. L’operazione avverrebbo sotto controllo
medico e consisterebbe, appunto, in una puntura con un ago sottile
sulla mucosa del clitoride, dopo anestesia locale con una pomata
specifica. In questo modo, ferma restando la totale condanna delle
mutilazioni di qualsiasi tipo, si darebbe alle bambine delle
famiglie più tradizionali (per capirci, quelle che porterebbero le
figlie nei paesi di origine per essere infibulate), la possibilità
di evitare un danno maggiore e di vivere protette e rispettate sia
nella famiglia e nella comunità di origine, sia nella società in
cui vivono. Spiega Omar: “Potrebbero
avere il loro rito, validato dal riconoscimento delle figure
importanti della comunità ma senza la sofferenza e la
mutilazione”. E qui
iniziano i problemi. Un medico che per anni aveva lavorato a
favore delle donne immigrate, nell’indifferenza della maggior
parte dei media, diventa – suo malgrado – una celebrità.
La sua proposta viene commentata prima ancora di essere letta con
attenzione. Le opinioni e le condanne in bianco si sprecano,
compresa quella di una ministra per le Pari opportunità che non ha
detto una parola, quando Parlamento italiano ha approvato una
legge sulla fecondazione assistita che umilia e invade in un modo
altrettanto odioso il corpo femminile.
Sembra inutile (ma forse
no) ripetere che le mutilazioni vanno condannate e rifiutate con
forza e non potranno mai essere legalizzate (e il piercing agli
organi genitali?). Ma nel frattempo, mentre si aspetta che la
cultura cambi (dal basso e non per legge), come ridurre i danni?
Omar Abdulcadir ha fatto la sua
proposta, esponendosi in prima persona, contro ipocrisie e omertà.
Ma non è tipo da innamorarsi in modo improduttivo delle proprie
idee. A lui – più che le questioni “di principio”, interessano la
salute e il benessere psicofisico delle donne. “Speriamo che,
sullo stimolo del dibattito che si è scatenato, qualcuno tiri
fuori un’idea migliore”, è il suo commento.
Rito alternativo alle MGF non dannoso e simbolico.
Centro di Riferimento Regionale per la Prevenzione
e la Cura delle Complicanze delle MGF
Abdulcadir Omar Hussen, Lucrezia Catania
Proposto alle famiglie di
bambine a rischio di MGF, quando appare evidente che ogni
strategia educativa e di informazione per prevenirla si è
dimostrata inutile.
Consiste in una puntura di
ago sottile (puntura di spillo) sulla mucosa che ricopre il
clitoride dopo anestesia locale con specifica crema anestetica.
Obiettivo è dare la
possibilità alle bambine delle famiglie più tradizionali
provenienti dai paesi a tradizione escissoria di evitare un danno
maggiore e di vivere protette e rispettate sia nella famiglia
d’origine che nella società in cui vivono. Hanno il loro rito
validato dal riconoscimento delle figure importanti della comunità
ma senza la sofferenza e la mutilazione.
Ribadiamo in modo deciso la
nostra condanna ad ogni forma di mutilazione, ricordando i
successi già conseguiti negli anni passati con la realizzazione
evidente di progetti per l’educazione, la prevenzione,
l’informazione e la formazione CONTRO le MGF.
Francesca Capelli, giornalista scientifica, dopo molti anni
in redazione ha deciso di buttarsi come freelance. Oggi collabora
con giornali e riviste nazionali ed estere ed è editore-direttore
del webmagazine per ragazzi wwv.ragazzinet.it, creato perché
cercava un pretesto per fare le cose più divertenti del mondo
facendole passare per duro lavoro. Il suo sogno è diventare
scrittrice, ma non ha il tempo per provarci. Da sempre interessata
ai diritti umani (soprattutto dell'infanzia) fa parte del
consiglio direttivo di una Ong francese ha scritto reportage da
paesi in guerra o in via di sviluppo (Uganda, Bangladesh, Brasile,
Cambogia, Saharawi, El Salvador, Kurdistan turco). Vive tra Milano
e Firenze (dove divide la casa con un fidanzato e una gatta di
nome Rosa Luxembourg). Il che significa che passa la maggior parte
del suo tempo in treno.
(© dols.net) | |