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Irmãos Taviani ainda sabem contar história 

 

Impregnada de sentido político e conotações míticas, La Masseria delle Allodole marca volta dos irmãos à produção de qualidade

Luiz Carlos Merten, ENVIADO ESPECIAL, BERLIM

Guerra e violência deram o tom na Berlinale, com um filme em competição e outro fora de concurso. O concorrente ao Urso de Ouro é o israelense Beaufort, de Joseph Cedar, cineasta conhecido do público da Mostra. O que está sendo exibido numa sessão especial é o italiano La Masseria delle Allodole (The Lark Farm), dos irmãos Taviani. Após um longo e um tanto tenebroso inverno, Paolo e Vittorio estão ressurgindo. Grandes nomes do cinema italiano dos anos 70, com obras como Pai Patrão, que ganhou a Palma de Ouro, eles realizaram nos 80 A Noite de São Lourenço e Caos. Depois disso, os Taviani passaram a ser considerados cartas fora do baralho. Eles estão de volta.

Não pessoalmente. Um inesperado problema em Roma impediu os irmãos de voarem para Berlim, onde deveriam ter participado de um Q&A (Question & Answer, pergunta e resposta), após a exibição de seu filme. La Masseria delle Allodole mostra que Paolo e Vittorio ainda sabem contar belas histórias impregnadas de sentido político. La Masseria trata do extermínio dos armênios pelos turcos, no começo do século passado. Há um mundo em colapso para que outro possa emergir. Os turcos têm seu projeto de criar a grande Turquia. Consideram os armênios, porque são ricos, inimigos. Acham que eles só estão esperando os russos invadirem a Turquia para se unir aos vencedores. Para impedir o que parece inevitável, ocorre o massacre.

Paolo e Vittorio sabem, como poucos, usar imagem e música para criar uma estrutura audiovisual intensa, muitas vezes (ou quase sempre) carregada de conotações míticas. Basta lembrar-se das referências à Ilíada (e a Heitor) em São Lourenço. Há agora essa família rica que vai ser sacrificada no jogo de interesses da guerra.

Como todos os homens da comunidade armênia, o patriarca é morto e as mulheres iniciam um longo caminho rumo à escravidão ou ao extermínio. Paz Vega faz a filha. Ama um oficial turco, mas a relação não evolui e, num determinado momento, ele a sacrifica pela carreira. Durante o êxodo, acompanhando as demais mulheres, ela conhece esse outro soldado que a ama sinceramente. É uma linda história de amor, morte e ressurgimento.

O que La Masseria delle Allodole tem de belo - mas como e por que, como diante dos girassóis de Van Gogh, a beleza tem de ser tão convulsiva, tão dolorosa? -, Beaufort tem de terrível. Aqui não entram mulheres. Joseph Cedar filma um universo de homens. São soldados na guerra sangrenta do Oriente Médio. Beaufort é uma fortaleza da época dos Cruzados que foi ocupada por Israel em 1982. Desde então, a bandeira israelense havia tremulado no topo da mais alta torre. Em 2000, a fortaleza foi destruída para não ser entregue às forças do Hezbollah, que avançavam. Joseph Cedar filmou no ano passado e a ironia foi que, no momento em que ele destruía a fortaleza na ficção, as forças israelenses voltavam ao Líbano, para mais um capítulo da guerra de nervos da região.

Os personagens são soldados encarregados de defender este lugar que vive sob bombardeio. Vidas humanas são continuamente sacrificadas, e por quê? Para manter aberta uma estrada que ninguém usa. Para prestar vigilância à bandeira. Para destruir uma fortaleza que, para lá do valor estratégico, tem valor histórico, sentimental e, por que não?, turístico. O protagonista é esse oficial de patente reduzida que, num momento-chave, fica paralisado pelo medo. Mas ele não é um covarde. Como um guerreiro-Hamlet, tem seu momento de dúvida existencial, Ser ou não ser? - ou Por que estou aqui, no meio deste fogo cruzado? O subalterno, num momento de crise, lhe diz que merecia um comandante melhor e ele também diz que merecia comandantes melhores, um mundo melhor. Talvez pela importância que a guerra tem em sua formação, é importante como os cineastas israelenses conseguem captar todo o horror dos combates, das explosões, dos corpos dilacerados. Beaufort segue a geografia do terror de Kippur - A Guerra do Perdão, de Amos Gitai, só que em outro cenário.

O festival segue seu curso. A exemplo de Robert De Niro (O Bom Pastor) e Clint Eastwood (mas ele não atua em Cartas de Iwo Jima, que estréia amanhã nos cinemas brasileiros), outros atores vieram mostrar seus trabalhos como diretor. Antonio Banderas trouxe um filme interessante, mas esquisito, O Caminho dos Ingleses. Deu uma coletiva que fez sensação. Estava inspirado. Cantou e dançou flamenco para fotógrafos de todo o mundo, antes de entrar na sala. Steve Buscemi é outro que reincide na direção, com Interview. O filme tem a cara dele, seu humor sardônico. Na terça à noite, houve a sessão de imprensa de 300. O épico de Zack Snyder com Rodrigo Santoro no papel de Sercsis (Xerxes) baseia-se na graphic novel de Frank Miller. Você pode ficar em dúvida sobre a utilidade de se lembrar o exemplo dos 300 de Esparta. Quem são hoje os 300? Quem é o imperialista Xerxes? George W. Bush. Independentemente das respostas que o diretor de Madrugada dos Mortos poderá dar, seu filme é uma impressionante experiência visual.

(© Agência Estado)


Taviani: shock a Berlino

La masseria delle allodole scuote coscienze, provoca reazioni, sconvolge il pubblico

Cinema e storia - "Quasi ogni nazione deve fare i conti con l'orrore e il sangue delle pagine buie della sua storia. Accadde in Italia, in Germania, in Francia, ciò vale anche per la Turchia. Per il nostro passato italiano, crediamo di avere le carte in regola. Basta guardare all'ultimo film di Mario Monicelli per vedere che sappiamo  riconoscere le parti meno nobili della nostra storia. Ciascuno poi le tratta con il suo stile e il suo approccio, proprio  perché non facciamo gli storici ma facciamo del cinema". Chiarissimo il discorso dei due registi toscani sul senso e la prospettiva de La masseria delle allodole, il film che racconta il genocidio della popolazione armena. A Berlino la proiezione - considerata a rischio dagli organizzatori per la forte presenza della comunità turca nella capitale tedesca - ha creato non pochi trambusti. Ad esempio Ahmet Boyacioglu, rappresentate turco presso Eurimages, il fondo europeo che ha cofinanziato il film, l'ha definito razzista, pericoloso e storicamente sbagliato.

Punti di vista e violenza - Impassibili e quieti, Paolo e Vittorio Taviani hanno ben spiegato le loro ragioni ricorrendo anche all'ironia: "faremo allora come Eastwood. Dopo questo film, ne gireremo un altro che racconterà il genocidio armeno dalla parte dei turchi". Oltre alle questioni di carattere storico, La masseria delle allodole ha avuto un impatto decisamente forte sul pubblico anche per la massiccia dose di violenza: un neonato soffocato dalla madre perché non siano i turchi a ucciderlo, fuggiaschi crocifissi, ragazzine violentate, donne che si prostituiscono per fame, e ancora decapitazioni, mutilazioni.

Eterogeneo è bello - Come spesso accade nei film dei Taviani il cast comprende attori dalle più disparate provenienze. La protagonista è Arsinée Khanjian, sangue armeno nelle vene, compagna di Atom Egoyan, che ha già trattato il tema del genocidio nel film Ararat - Il monte dell'arca, in altri ruoli recitano Tchéky Karyo, Paz Vega, André Dussolier, il lanciatissimo Cristo Jivkov (Il mestiere delle armi di Olmi) e anche i nostri Alessandro Preziosi e Yvonne Sciò. La Masseria delle allodole uscirà il 23 marzo.  

(© Sky Life)

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