|
Norberto Bobbio,
nascido em Turim, em 1909, é um dos pensadores e filósofos políticos mais importantes
da Europa. Em 1975, iniciou na Itália o debate sobre socialismo, democracia, marxismo e
comunismo que influenciou as novas gerações de todo o continente. Nesta entrevista,
Bobbio junta-se à discussão sobre o significado atual do iluminismo e fala também das
teses sobre a "utopia reacionária" do nazismo e comunismo.
Pergunta - Li numa enciclopédia: "Norberto Bobbio, expoente do
pensamento neo-ilustrado." Devo dar-lhe a palavra na discussão aberta em La
Reppublica por um artigo de Eugenio Scalfari, que apresenta várias questões,
principalmente essa: Isaiah Berlin intitulou de Contracorrente sua antologia de ensaios
sobre autores, mas hoje o que será mais contrário à corrente, estar com os ilustrados
ou com seus adversários?
Norberto Bobbio - A julgar pelas filosofias dominantes hoje, e
principalmente pelos dois grandes pontos de referência dos filósofos contemporâneos,
que são Nietzsche e Heidegger, devo dizer que Scalfari tem razão, que a ilustração vai
contra a corrente.
Pergunta - Comecemos por Berlin: Scalfari suspeita que seu coração está
do outro lado. O sr. também suspeitou em algum momento de algo parecido, num artigo de
1980 para a Revista Histórica Italiana, dedicado a esse mesmo livro, que acabava de sair
na Inglaterra.
Bobbio - Não resta dúvida de que lendo os livros de Berlin e
principalmente dos autores que contam com suas simpatias, pode parecer que ele está do
lado dos filósofos antiilustrados, tanto dos pré-ilustrados como Vico, Herder e um
completo reacionário como Hamann, como dos pós-ilustrados como Sorel, outro de seus
preferidos.
Pergunta - Vico é fundamental na história do pensamento, segundo Berlin.
O sr. concorda?
Bobbio - Claro, é um típico representante da antiilustração. Não é
por casualidade que Giambattista Vico tenha sido uma quase descoberta de Benedetto Croce,
que desenvolveu uma de suas grandes batalhas filosóficas contra a Ilustração,
considerando-a uma manifestação do que se costumava chamar "racionalismo
abstrato", a expressão de uma razão que não sabe reconhecer a pluralidade das
situações históricas. Para ele, a razão ilustrada era uma razão eminentemente
anti-histórica.
Pergunta - Se tanto Croce como Berlin, ambos liberais, sentem tanta
simpatia por Vico e por autores historicistas e antiilustrados, surge a pergunta: há
contas pendentes entre liberalismo e ilustração?
Bobbio - A antiilustração nos escritos de Berlin fez com que eu
apresentasse uma questão - sobre se seu pensamento é de fato liberal. Ele é considerado
sem dúvida um grande pensador liberal, mas todos os autores que ele propõe, revaloriza,
destaca, pertencem à tradição oposta, exceto um: John Stuart Mill. Pois bem, na
tradição liberal, além de Kant, são fundamentais John Locke e Benjamin Constant. A
liberdade liberal dos modernos é um desligar-se, que pretende ser definitivo, de qualquer
forma de organicismo.
Pois bem, caso se pegue essa liberdade à Constant e se vá buscá-la nos
autores de Berlin, ela não é encontrada, embora Berlin seja, como é sabido, o autor de
Quatro Ensaios sobre o Conceito de Liberdade e tenha ligado seu nome exatamente à
distinção entre "liberdade negativa" e "liberdade positiva".
Pergunta - A liberdade positiva (a liberdade "de", a capacidade
de serem donos de si mesmos, de fazer, de eliminar os obstáculos), à qual Berlin
preferia a negativa (a liberdade "desde que"), mais genuinamente liberal, já
que a primeira é parente do socialismo e do comunismo, nos leva aqui a medir as
relações entre a ilustração e o marxismo. Para Berlin, o marxismo representava o
"exagero" da parte oposta ao nacionalismo, o comunismo era um excesso do
universalismo e do racionalismo, igualmente perigoso.
Bobbio - Mas nem nisso Berlin me convence, pois respeito a liberdade da
democracia liberal e burguesa; nazismo e comunismo são irmãos: têm o mesmo inimigo.
Gostei muito do livro que acaba de sair, de Paolo Bellinazzi - L'utopia reazionaria (a
utopia reaccionaria) - que analisa os argumentos que nazismo e comunismo apresentam como
defesa de suas próprias teses e demonstra que o nazismo e o comunismo, contrariamente à
opinião geral de que são ideologias opostas, têm matrizes comuns: os dois combatem o
livre mundo burguês do mercado e dos Estados parlamentares, os dois casam com a
"Gemeinscraft" contra a "Gesellschaft", a comunidade arcaica (aquela
em que o indivíduo é só parte de um organismo) contra a sociedade moderna dos
indivíduos singulares (e, enquanto tais, em livre relação entre si), os dois opõem-se
ao individualismo e são partidários do organicismo social.
Pergunta - O sr. está dizendo que comunismo e nazismo se apresentam como
inimigos da modernidade?
Bobbio - Sim, e Bellinazzi defende muito bem esta tese. Quando, por
exemplo, examina as relações entre os dois antagonistas Carl Schmit e Geörgy Lukacs,
descobre que eles apóiam mais ou menos as mesmas idéias, porque têm o mesmo inimigo, a
burguesia e as filosofias do mercado; os dois opõem-se à mesma produção da riqueza,
ambos são reacionários.
Pergunta - O sr. concorda com a tese de Bellinazzi?
Bobbio - O livro está muito bem documentado do ponto de vista histórico
e filosófico, e chamou minha atenção também por causa de certa correspondência de
idéias. Sempre afirmei que a história do século 20 se caracteriza por três
protagonistas: fascismo, comunismo e democracia (e não só pelos dois primeiros). Também
tenho afirmado sempre que a vitória acabaria ficando para os dois dos três que se
tivessem aliado. A 2ª Guerra foi vencida pela aliança entre democracia e comunismo, que
foi fatal para o nazismo. Isto é indubitável, mas também é verdade que essa aliança
era uma aliança de guerra, que se realizou no momento em que a guerra estava estourando.
E de fato, quando se derrotou o nazismo, começou a guerra fria entre os dois vencedores,
durante 50 anos, uma guerra que acabou sem a necessidade de dar tiros, porque com Mikhail
Gorbachev os comunistas entregaram os pontos.
Pergunta - Portanto, essa aliança não tinha raízes numa maior afinidade
ou numa menor distância entre comunismo e democracia. Porque, veja o sr., estamos em
certo sentido acostumados a pensar no marxismo como um "exagero", mas da parte
oposta à do nazismo, como um excesso do "racionalismo abstrato", mais do que
como um excesso do "irracionalismo concreto". Em resumo, erro sim, mas da parte
dos ilustrados e muito além deles...
Bobbio - Esta é uma das idéias que os comunistas cultivam para
justificarem-se. Tem sido uma tentativa de autolegitimação.
Pergunta - Mas o nazismo declarava-se inimigo das luzes, ao passo que o
comunismo quis ser continuador e "superador".
Bobbio - Esta valoração está fadada a mudar. Nós, que combatemos o
nazismo como aliados dos comunistas (e felizmente houve essa aliança, que decidiu a
vitória da democracia), sempre tentamos legitimar e justificar de certo modo os
comunistas. Era compreensível que tentássemos representá-lo como um fenômeno
progressista e não retrógrado. Éramos aliados numa guerra mortal, entende? Nos
esforçamos em ver os aspectos positivos, que depois da queda do comunismo já não vemos.
Depois de sua derrota definitiva, vemo-nos obrigados a revisar a idéia que tínhamos
feito do comunismo.
Pergunta - Em 1989, o sr. falava de um célebre artigo aparecido em La
Stampa, de "utopia invertida"; agora esta transformou-se numa "utopia
retrógrada".
Bobbio - Aceito a expressão do título do livro de Bellinazzi: utopia
reacionária. Neste projeto utópico de transformação radical da sociedade está
implícita uma idéia antiliberal, pois o liberalismo acredita que a história da
liberdade é uma história de constantes passagens do bem para o mal, de tentativas
fracassadas e falidas. Não existe um fim obrigatório na sociedade perfeita. Liberalismo
é igual a antiperfeccionismo, ao passo que marxismo e nazismo foram utopias
perfeccionistas. (Gian Carlo Bossetti, La Reppublica. O Estado de São Paulo)
|