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Umberto Eco e a sedução do "romance cultural"

10/02/2001

 

 

   O novo romance de Umberto Eco, Baudolino, acabou de sair na Itália, pela Editora Bompiani, de Milão. Certamente o tradutor não terá grandes problemas com o texto, cujo italiano é fluente e escorreito, a não ser, talvez, pelas dez primeiras páginas, que são também, a meu ver, as melhores do livro. Nelas, o herói do livro, Budolino Aulario, então com 13 anos, ensaia redigir a sua história num italiano, digamos, "intuitivo", num "proto-italiano", a partir da tentativa de transcrição direta dos sons do discurso oral de sua região, do alemão e do latim. São estes os escritos iniciais de sua Gesta Baudolini, lançados pelo espevitado garoto sobre os manuscritos rasurados da Historia de Duabus Civitatibus, obra máxima de Ottone di Frisinga (1114?-1158), tio e conselheiro verdadeiro de Federico Barba Ruiva, que a compôs segundo uma concepção agostiniana da história como contínua degeneração.

   Assim, é quase inevitável começar pela observação de que Eco está de volta à Idade Média, cenário de seu mais estrondoso êxito literário: O Nome da Rosa, de 1980. Concentra-se, desta vez, no período compreendido entre 1152 e 1204, que vai da coroação do imperador Federico I Hohenstaufen, dito Barba Ruiva, à invasão de Constantinopla pelas forças da quarta Cruzada, basicamente financiada pelos venezianos, como parte das operações que lhe dariam o domínio sobre o Mediterrâneo.

   Para fazer um resumo radical do enredo do romance, diria que se trata da saga heróico-cômica de Baudolino, que, ao lado de 11 companheiros de nações e credos distintos - há um franco-mourisco, um judeu, um alemão, vários italianos, um bizantino, um armênio... -, parte em busca do suposto reino cristão do Preste João, que existiria nos confins do Oriente, segundo notícias populares entre os viajantes da época. A saga é contada como uma narrativa em flash-back feita de viva voz por Baudolino a Niceta Coniate (1150?-1215), que foi verdadeiramente historiador, orador e logoteta da corte de Constantinopla.

   Sabe-se que Niceta conseguiu refugiar-se durante a conquista latina da cidade e escreveu posteriormente uma Crônica do período, a partir de biografias dos seus principais protagonistas. Percebe-se, então, que é no intervalo entre as duas crônicas reais, a de Ottone e a de Niceta, que Eco embaralha os seus personagens inventados e produz o mais recorrente efeito de seu texto: o de interferir em acontecimentos históricos conhecidos por meio dos atos ou circunstâncias vividas pelos personagens fictícios.

   Apenas para dar um exemplo: no romance, Niceta apenas sobreviveu ao saque da cidade graças à ação de Baudolino, que o salvou com o propósito determinado de contar-lhe a longa e extraordinária história de sua vida, sabendo que aquele, como cronista-mor do reino, poderia deixar registrada a sua gesta.

   Outro exemplo: os historiadores estão de acordo a respeito de Federico Barba Ruiva ter morrido afogado, mas Eco introduz várias tramas policialescas em torno do caso que fazem do afogamento tão somente uma cena simulada por Baudolino para livrar-se da acusação de envenenamento do Imperador.

   Cronologia - Para entender a relação entre o herói e Barba Ruiva, cabe repor os acontecimentos na ordem cronológica. Baudolino nasce de pais camponeses da região da Frascheta Marincana, entre Gênova e Mediolano, um lugar frio e constantemente tomado pela névoa. O menino revela uma extraordinária capacidade de mentir e de aprender línguas, duas habilidades decisivas para o seu destino.

   Num dia de 1154, encontra um viajante perdido na neblina, que logo percebe tratar-se de um alemão; conseguindo comunicar-se com ele, leva-o até a casa de seus pais, dá-lhe comida e pousada. O viajante, que aparentava ser um senhor muito rico, impressionado com as invencionices de Baudolino, compra-o de seus pais, leva-o consigo e, afeiçoando-se a ele, toma-o como filho adotivo.

   O caso é que este senhor revela-se ser ninguém menos do que Federico Barba Ruiva, que, na ocasião do encontro, perdera-se de sua tropa durante a campanha militar que empreendia na Lombardia, decidido a restaurar as tradições do império romano e carolíngio.

   Em termos históricos, como se sabe, isto implicava na reivindicação de direitos e privilégios fiscais sobre os regimes municipais, contra os quais abrira guerra, derrotando vários deles até chegar às portas de Roma. A resistência republicana ao imperador, entretanto, fez com que fosse obrigado a voltar à Alemanha, para desencadear posteriormente outras campanhas contra as cidades italianas.

   Não apenas bélicas: no campo do direito, utilizando-se sobretudo dos juristas da Universidade de Bolonha, Federico exigia o retorno dos "regalia" , isto é, propriedade de todo o reino da Itália, suserania sobre os seus vassalos, taxas e direitos de justiça, propriedade das vias terrestres e fluviais, direito de controle dos castelos, fortalezas e, para o que mais interessa aqui, de criação de cidades. É que, num dos muitos "plots" intermediários do romance, os conterrâneos de Baudolino, subvencionados pelos comerciantes genoveses interessados em barrar o caminho de Federico, constroem uma cidade sem a sua autorização, batizando-a, ademais, de Alessandria, em homenagem ao papa Alexandre III, principal líder da resistência ao Imperador. Ao mesmo tempo, o nome da cidade é também uma brincadeira auto-referencial de Eco, que é natural justamente de Alessandria.

   A provocação surte efeito e Federico decide atacar a cidade rebelde, o que coloca Baudolino face ao dilema de escolher entre ficar ao lado de seu pai adotivo ou de seus pais verdadeiros e amigos de infância. As histórias que inventa para controlar a situação complicada, de modo a manter-se relativamente fiel a um lado e a outro, produzem uma série de situações engraçadas, nas quais Eco demonstra sempre grande habilidade narrativa e uma enorme capacidade de variar as situações da intriga, gerando uma peripécia atrás da outra e invertendo, a cada página quase, as expectativas de desenlace das ações. O problema é que, mesmo a variedade, quando é muita, cansa; e a admiração pela habilidade vai aos poucos sendo anestesiada, até o ponto em que tudo mais ou menos se equivale, pois tudo é possível e já não há regras para balizar as expectativas.

   Esta ação heróico-cômica de longa duração, que multiplica os feitos espantosos a cada passo, tem ainda contra si o interesse mais do que relativo do gênero no presente, pois as maravilhas narradas - por exemplo, as que dizem respeito aos bizarros habitantes do reino do Preste João, aos efeitos milagrosos do Graal ou aos caminhos obscuros tomados pelas tribos perdidas de Israel - já não suportam a carga de encantamento sublime ou de gravidade inventiva que tomaram, sem esforço, há um milênio atrás, num mundo ainda não devassado geograficamente, no qual as terras e os mares ignotos, ainda desafiavam imaginações e forneciam hipóteses sérias e ousadas para negociantes, aventureiros, intelectuais e homens de Corte, em seus planos de expansão territorial, religiosa e comercial.

   Anedotário - Seguramente, hoje, se resta algum maravilhoso a explorar, em suas possibilidades verossímeis de ação econômica, militar, científica e mesmo de vibração popular, ele reside em outros lugares de desconhecimento. Por mais curioso, nostálgico ou desejoso de esoterismos que se possa ser, o Preste João dificilmente deixaria de evocar, para os homens deste século 21, mais do que uma manifesta fantasia ou uma peça reconhecidamente importante da cultura de um período já muito distante no passado. Nossa curiosidade a respeito não alimenta nenhum efeito sublime, pois não há terror crível, e nem mesmo efeito cômico, no sentido antigo e moral do termo, pois não há imitação de um tipo vil e verossímil, a ser corrigido. Trata-se, antes, de um anedotário arcaizante, erudito, cultural, nada mais. Ou seja, o gênero já não dá ensejo à virtude heróica e ao ralho cômico, mas à encenação de uma farsa erudita, em que gente bem informada sobre as curiosidades do passado, troca anedotas requintadas a respeito de temas de relevância histórica e cultural. Isso não é péssimo ou sem valor: é precisamente brincadeira de almanaque com a história européia e seus mitos de formação nacional e expansão imperial.

   É fácil entender isso passando dos exemplos das ações narradas aos dos temas das discussões travadas entre as personagens. Assim, na sua andança em busca do reino do Preste João, do Graal, das tribos perdidas, da cabeça do Batista ou do Santo Sudário - todas essas histórias são anedoticamente embrulhadas por Eco no mesmo saco de imaginação orientalizante - dois dos companheiros de Baudolino, Ardzrouni e Borone, discutem alentadamente a respeito da existência ou não do vácuo na natureza. São páginas levantando os vários argumentos que, em diferentes épocas, foram realmente importantes para a determinação das mais avançadas posições científicas em física natural. A graça eventual que há nesse acúmulo de argumentos relembrados por Eco é a da erudição, nenhuma outra: ninguém mais imagina que a ordem cósmica dependa da teoria do "horror ao vácuo". Os argumentos que, a seu tempo, foram absolutamente sérios são agora apenas piada cultural ou, se quisermos, exemplos pitorescos de "mentalidade".

   Mercadoria - Como disse, o efeito não é necessariamente ruim, mas é cansativo, ainda mais quando repetido: velhas discussões e engenhocas mirabolantes reapresentadas à exaustão, com pouca função seja na amarração das ações, seja no debate intelectual que se é capaz de levar a sério. Por isso mesmo, acaba tomando a feição de lorota literária, mais ou menos agradável, mas que tem o limite estreito da concepção de cultura como ornamento a ser exibido para confirmação aristotélica dos pares ou admiração platônica dos parvos. Em termos contemporâneos, este tipo de texto tem ainda uma outra eficácia, que explica parte do seu sucesso: ele agrega valor à mercadoria ao associar índices ostensivos de erudição ao consumo do bem cultural. Saramago, calha-me pensar, é outro que certamente compreendeu o sedutor desse jogo de signos culturais agregados para o mercado.

   Até o tamanho do livro de Eco, grosso como são espantosamente grossos todos os best sellers do momento, parece acenar com uma dupla garantia do valor da compra: de um lado, é suficientemente grande para pagar em tempo de diversão o preço do produto; de outro, dura o bastante para que se deixe e retome várias vezes a sua leitura, que acompanha a rotina diária do leitor por um ou dois meses, exatamente como fazem as novelas, pegajosas e viciantes, de modo que os personagens vão se tornando familiares e até ocorre de se desenvolverem amizades e ódios (sempre correspondidos) por elas. É verdade que quase tudo aqui parece muito inteligente e exigir um talento real de realização; mas, pelos motivos alegados, parece-me também que este tipo de "romance cultural" ou "romance erudito de entretenimento" se presta a uma atividade, no fundo, irrisória: a de vender antigualhas nobilitantes de ocasião para quem deseja demonstrar gosto e cultivo por meio de alguns signos reconhecidos e reconhecíveis que não possam ser contestados sem colocar em xeque o próprio cânone cultural em vigência. Seja como for, por outro lado, o livro muitas vezes é engraçado, exorbitantemente imaginativo, conta com uma galeria de personagens interessantes, uma ou outra com notável brilho próprio (Abdul é o melhor exemplo, embora fique completamente sem uso na maior parte do romance), e, naturalmente deixa verter à mancheia uma erudição prodigiosa. Quem quiser, pode ainda enxergar nele a intenção alegórica de renovação de uma utopia democrática, multiculturalista, pluriétnica. Ocorre que, para uma utopia, ela é ilustrada demais e incômoda de menos. (Alcir Pécora. O Estado de São Paulo)

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