Assim, é quase inevitável começar
pela observação de que Eco está de volta à Idade Média, cenário de seu mais
estrondoso êxito literário: O Nome da Rosa, de 1980. Concentra-se, desta vez, no
período compreendido entre 1152 e 1204, que vai da coroação do imperador Federico I
Hohenstaufen, dito Barba Ruiva, à invasão de Constantinopla pelas forças da quarta
Cruzada, basicamente financiada pelos venezianos, como parte das operações que lhe
dariam o domínio sobre o Mediterrâneo.
Para fazer um resumo radical do enredo do romance, diria que se trata da
saga heróico-cômica de Baudolino, que, ao lado de 11 companheiros de nações e credos
distintos - há um franco-mourisco, um judeu, um alemão, vários italianos, um bizantino,
um armênio... -, parte em busca do suposto reino cristão do Preste João, que existiria
nos confins do Oriente, segundo notícias populares entre os viajantes da época. A saga
é contada como uma narrativa em flash-back feita de viva voz por Baudolino a Niceta
Coniate (1150?-1215), que foi verdadeiramente historiador, orador e logoteta da corte de
Constantinopla.
Sabe-se que Niceta conseguiu refugiar-se durante a conquista latina da
cidade e escreveu posteriormente uma Crônica do período, a partir de biografias dos seus
principais protagonistas. Percebe-se, então, que é no intervalo entre as duas crônicas
reais, a de Ottone e a de Niceta, que Eco embaralha os seus personagens inventados e
produz o mais recorrente efeito de seu texto: o de interferir em acontecimentos
históricos conhecidos por meio dos atos ou circunstâncias vividas pelos personagens
fictícios.
Apenas para dar um exemplo: no romance, Niceta apenas sobreviveu ao saque
da cidade graças à ação de Baudolino, que o salvou com o propósito determinado de
contar-lhe a longa e extraordinária história de sua vida, sabendo que aquele, como
cronista-mor do reino, poderia deixar registrada a sua gesta.
Outro exemplo: os historiadores estão de acordo a respeito de Federico
Barba Ruiva ter morrido afogado, mas Eco introduz várias tramas policialescas em torno do
caso que fazem do afogamento tão somente uma cena simulada por Baudolino para livrar-se
da acusação de envenenamento do Imperador.
Cronologia - Para entender a relação entre o herói e Barba
Ruiva, cabe repor os acontecimentos na ordem cronológica. Baudolino nasce de pais
camponeses da região da Frascheta Marincana, entre Gênova e Mediolano, um lugar frio e
constantemente tomado pela névoa. O menino revela uma extraordinária capacidade de
mentir e de aprender línguas, duas habilidades decisivas para o seu destino.
Num dia de 1154, encontra um viajante perdido na neblina, que logo percebe
tratar-se de um alemão; conseguindo comunicar-se com ele, leva-o até a casa de seus
pais, dá-lhe comida e pousada. O viajante, que aparentava ser um senhor muito rico,
impressionado com as invencionices de Baudolino, compra-o de seus pais, leva-o consigo e,
afeiçoando-se a ele, toma-o como filho adotivo.
O caso é que este senhor revela-se ser ninguém menos do que Federico
Barba Ruiva, que, na ocasião do encontro, perdera-se de sua tropa durante a campanha
militar que empreendia na Lombardia, decidido a restaurar as tradições do império
romano e carolíngio.
Em termos históricos, como se sabe, isto implicava na reivindicação de
direitos e privilégios fiscais sobre os regimes municipais, contra os quais abrira
guerra, derrotando vários deles até chegar às portas de Roma. A resistência
republicana ao imperador, entretanto, fez com que fosse obrigado a voltar à Alemanha,
para desencadear posteriormente outras campanhas contra as cidades italianas.
Não apenas bélicas: no campo do direito, utilizando-se sobretudo dos
juristas da Universidade de Bolonha, Federico exigia o retorno dos "regalia" ,
isto é, propriedade de todo o reino da Itália, suserania sobre os seus vassalos, taxas e
direitos de justiça, propriedade das vias terrestres e fluviais, direito de controle dos
castelos, fortalezas e, para o que mais interessa aqui, de criação de cidades. É que,
num dos muitos "plots" intermediários do romance, os conterrâneos de
Baudolino, subvencionados pelos comerciantes genoveses interessados em barrar o caminho de
Federico, constroem uma cidade sem a sua autorização, batizando-a, ademais, de
Alessandria, em homenagem ao papa Alexandre III, principal líder da resistência ao
Imperador. Ao mesmo tempo, o nome da cidade é também uma brincadeira auto-referencial de
Eco, que é natural justamente de Alessandria.
A provocação surte efeito e Federico decide atacar a cidade rebelde, o
que coloca Baudolino face ao dilema de escolher entre ficar ao lado de seu pai adotivo ou
de seus pais verdadeiros e amigos de infância. As histórias que inventa para controlar a
situação complicada, de modo a manter-se relativamente fiel a um lado e a outro,
produzem uma série de situações engraçadas, nas quais Eco demonstra sempre grande
habilidade narrativa e uma enorme capacidade de variar as situações da intriga, gerando
uma peripécia atrás da outra e invertendo, a cada página quase, as expectativas de
desenlace das ações. O problema é que, mesmo a variedade, quando é muita, cansa; e a
admiração pela habilidade vai aos poucos sendo anestesiada, até o ponto em que tudo
mais ou menos se equivale, pois tudo é possível e já não há regras para balizar as
expectativas.
Esta ação heróico-cômica de longa duração, que multiplica os feitos
espantosos a cada passo, tem ainda contra si o interesse mais do que relativo do gênero
no presente, pois as maravilhas narradas - por exemplo, as que dizem respeito aos bizarros
habitantes do reino do Preste João, aos efeitos milagrosos do Graal ou aos caminhos
obscuros tomados pelas tribos perdidas de Israel - já não suportam a carga de
encantamento sublime ou de gravidade inventiva que tomaram, sem esforço, há um milênio
atrás, num mundo ainda não devassado geograficamente, no qual as terras e os mares
ignotos, ainda desafiavam imaginações e forneciam hipóteses sérias e ousadas para
negociantes, aventureiros, intelectuais e homens de Corte, em seus planos de expansão
territorial, religiosa e comercial.
Anedotário - Seguramente, hoje, se resta algum maravilhoso a
explorar, em suas possibilidades verossímeis de ação econômica, militar, científica e
mesmo de vibração popular, ele reside em outros lugares de desconhecimento. Por mais
curioso, nostálgico ou desejoso de esoterismos que se possa ser, o Preste João
dificilmente deixaria de evocar, para os homens deste século 21, mais do que uma
manifesta fantasia ou uma peça reconhecidamente importante da cultura de um período já
muito distante no passado. Nossa curiosidade a respeito não alimenta nenhum efeito
sublime, pois não há terror crível, e nem mesmo efeito cômico, no sentido antigo e
moral do termo, pois não há imitação de um tipo vil e verossímil, a ser corrigido.
Trata-se, antes, de um anedotário arcaizante, erudito, cultural, nada mais. Ou seja, o
gênero já não dá ensejo à virtude heróica e ao ralho cômico, mas à encenação de
uma farsa erudita, em que gente bem informada sobre as curiosidades do passado, troca
anedotas requintadas a respeito de temas de relevância histórica e cultural. Isso não
é péssimo ou sem valor: é precisamente brincadeira de almanaque com a história
européia e seus mitos de formação nacional e expansão imperial.
É fácil entender isso passando dos exemplos das ações narradas aos dos
temas das discussões travadas entre as personagens. Assim, na sua andança em busca do
reino do Preste João, do Graal, das tribos perdidas, da cabeça do Batista ou do Santo
Sudário - todas essas histórias são anedoticamente embrulhadas por Eco no mesmo saco de
imaginação orientalizante - dois dos companheiros de Baudolino, Ardzrouni e Borone,
discutem alentadamente a respeito da existência ou não do vácuo na natureza. São
páginas levantando os vários argumentos que, em diferentes épocas, foram realmente
importantes para a determinação das mais avançadas posições científicas em física
natural. A graça eventual que há nesse acúmulo de argumentos relembrados por Eco é a
da erudição, nenhuma outra: ninguém mais imagina que a ordem cósmica dependa da teoria
do "horror ao vácuo". Os argumentos que, a seu tempo, foram absolutamente
sérios são agora apenas piada cultural ou, se quisermos, exemplos pitorescos de
"mentalidade".
Mercadoria - Como disse, o efeito não é necessariamente ruim, mas
é cansativo, ainda mais quando repetido: velhas discussões e engenhocas mirabolantes
reapresentadas à exaustão, com pouca função seja na amarração das ações, seja no
debate intelectual que se é capaz de levar a sério. Por isso mesmo, acaba tomando a
feição de lorota literária, mais ou menos agradável, mas que tem o limite estreito da
concepção de cultura como ornamento a ser exibido para confirmação aristotélica dos
pares ou admiração platônica dos parvos. Em termos contemporâneos, este tipo de texto
tem ainda uma outra eficácia, que explica parte do seu sucesso: ele agrega valor à
mercadoria ao associar índices ostensivos de erudição ao consumo do bem cultural.
Saramago, calha-me pensar, é outro que certamente compreendeu o sedutor desse jogo de
signos culturais agregados para o mercado.
Até o tamanho do livro de Eco, grosso como são espantosamente grossos
todos os best sellers do momento, parece acenar com uma dupla garantia do valor da compra:
de um lado, é suficientemente grande para pagar em tempo de diversão o preço do
produto; de outro, dura o bastante para que se deixe e retome várias vezes a sua leitura,
que acompanha a rotina diária do leitor por um ou dois meses, exatamente como fazem as
novelas, pegajosas e viciantes, de modo que os personagens vão se tornando familiares e
até ocorre de se desenvolverem amizades e ódios (sempre correspondidos) por elas. É
verdade que quase tudo aqui parece muito inteligente e exigir um talento real de
realização; mas, pelos motivos alegados, parece-me também que este tipo de
"romance cultural" ou "romance erudito de entretenimento" se presta a
uma atividade, no fundo, irrisória: a de vender antigualhas nobilitantes de ocasião para
quem deseja demonstrar gosto e cultivo por meio de alguns signos reconhecidos e
reconhecíveis que não possam ser contestados sem colocar em xeque o próprio cânone
cultural em vigência. Seja como for, por outro lado, o livro muitas vezes é engraçado,
exorbitantemente imaginativo, conta com uma galeria de personagens interessantes, uma ou
outra com notável brilho próprio (Abdul é o melhor exemplo, embora fique completamente
sem uso na maior parte do romance), e, naturalmente deixa verter à mancheia uma
erudição prodigiosa. Quem quiser, pode ainda enxergar nele a intenção alegórica de
renovação de uma utopia democrática, multiculturalista, pluriétnica. Ocorre que, para
uma utopia, ela é ilustrada demais e incômoda de menos. (Alcir Pécora. O Estado de São
Paulo)