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A força de atração de Caravaggio continua intacta

16/02/2001

Amor Vencedor, de Caravaggio

 

   A força de atração do Amor Vencedor de Caravaggio permanece intacta. Ao se deparar diante da tela por alguns instantes, é preciso fazer uma pausa antes de passar aos outros quadros expostos na mesma sala. O marquês Vincenzo Giustiniani, que em 1602 encomendou o quadro ao artista lombardo estabelecido em Roma desde 1590, era consciente disso. Quando recebia hóspedes, para evitar que o cupido maliciosamente sensual e luminoso, que representa não se sabe bem se o amor divino ou o amor terreno, ofuscasse as outras pinturas de sua coleção cobria a grande tela (156x113 cm) com um pano verde, deixando-a para o final.

O belíssimo quadro e outras quatro pinturas de Michelangelo Merisi “da Caravaggio” foram reunidos, depois de 400 anos, no palácio Giustiniani com mais 65 peças da coleção – uma das primeiras na Europa, que contava com 600 obras de artistas como Lorenzo Lotto, Dosso Dossi, Carraci, Veronese, Nicolas Poussin, “caravaggistas” holandeses e outros. Vendidos entre 1700 e 1800, os quadros dispersaram-se por vários países: Rússia, Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha, Áustria, Espanha.

   Agora, pela primeira vez desde que saiu da Itália, o núcleo fundamental da coleção volta ao palácio que era sua sede original para a concorrida exposição Caravaggio e os Giustiniani, aberta até 15 de maio. Atual sede do senado italiano, que emprestou o espaço para a mostra abrindo pela primeira vez ao público, o palácio Giustiniani está a poucos metros da igreja São Luis dos Franceses – meta prioritária para os amantes de Caravaggio em Roma, onde o artista realizou algumas de suas obras mais conhecidas.

   Além do Amor Vencedor, considerada a obra de maior esplendor da coleção, estão expostos o Suonatore di Liuto, cujo protagonista é ambiguamente andrógino, Coroação de Espinhas, em que a intensidade da luz enfatiza a dramaticidade da cena, San Gerolamo e Tomé, o Incrédulo, que impressionam pelo aspecto nada convencional dos apóstolos, representados como simples trabalhadores de rostos enrugados, bem ao gosto do mestre dos claro-escuros. São Tomé, retratado enquanto enfia o dedo na ferida de Jesus, chegou a ser visto como irreverente e ultrajante pelos devotos da época, que não aceitavam a imagem dos apóstolos como pessoas comuns. Os quadros expostos de Caravaggio foram realizados entre 1596 e 1606 – a primeira fase do artista definido como agressivo, violento e até louco por seus biógrafos.

   Em 1606, acusado de ter assassinado Ranuccio Tomassoni, fugiu de Roma para onde nunca mais voltou. Quatro anos depois, foi encontrado morto numa praia em Porto Ercole, perto da capital. Sua morte continua um mistério: assassinado ou vítima de febre malárica? As cinco telas refletem a despreocupação e a ironia das primeiras encomendas privadas romanas, diferentes do período maduro, com tons do desespero, da tragédia de um condenado à morte, que tenta de todas as maneiras conquistar a absolvição divina.

   Caravaggio, gênio rebelde, anticonformista e marginalizado, era quase um personagem pasoliniano. Frequentava os salões intelectuais de seus mecenas, mas principalmente tavernas e bordéis onde encontrava modelos para seus quadros (principalmente prostitutas e homossexuais), trocava idéias com colegas pintores e quase sempre arranjava uma briga, nas quais usava espada ou punhal. Roma, naquele período, era um centro estimulante, onde se concentravam artistas de toda a Europa, para estudar os antigos mestres e voltar a seus países informados sobre os movimentos mais recentes. Os irmãos Benedetto e Vincenzo Giustiniani estavam entre os mais ativos, abertos e criativos protetores das artes, no ínicio de 1600, em Roma, ponto de referência no cenário artístico da capital.

   Criaram oportunidades de trabalho para muitos artistas, alimentando um nascente mercado de arte. Foram, com o cardeal Del Monte, os primeiros estimuladores e colecionadores de Caravaggio, de quem chegaram a possuir 15 telas. Garantiram-lhe tranqüilidade econômica e ambiente culturalmente rico, dando-lhe a possibilidade de se expressar livremente: mostrando a verdade como ele a via sem se importar se chocava ou não. Até a forma de tratar a sombra e a luz tinha como finalidade retratar os eventos como se estivessem acontecendo naquele instante. Apesar dos inimigos declarados, Michelangelo Merisi tornou-se um dos protagonistas da arte na capital pontíficia. Suas técnicas e estilo revolucionaram, fizeram escola. Precursor do realismo pictórico, fundou a corrente artística conhecida como “caravagismo”, influenciando pintores como Velazquez e Rembrandt. (Assimina Vahlou, O Estado de S. Paulo)

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