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A força de atração do Amor
Vencedor de Caravaggio permanece intacta. Ao se deparar diante da tela
por alguns instantes, é preciso fazer uma pausa antes de passar aos
outros quadros expostos na mesma sala. O marquês Vincenzo Giustiniani,
que em 1602 encomendou o quadro ao artista lombardo estabelecido em Roma
desde 1590, era consciente disso. Quando recebia hóspedes, para evitar
que o cupido maliciosamente sensual e luminoso, que representa não se
sabe bem se o amor divino ou o amor terreno, ofuscasse as outras
pinturas de sua coleção cobria a grande tela (156x113 cm) com um pano
verde, deixando-a para o final.
O
belíssimo quadro e outras quatro pinturas de Michelangelo Merisi da Caravaggio
foram reunidos, depois de 400 anos, no palácio Giustiniani com mais 65 peças da
coleção uma das primeiras na Europa, que contava com 600 obras de artistas como
Lorenzo Lotto, Dosso Dossi, Carraci, Veronese, Nicolas Poussin, caravaggistas
holandeses e outros. Vendidos entre 1700 e 1800, os quadros dispersaram-se por vários
países: Rússia, Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha, Áustria, Espanha.
Agora, pela primeira vez desde que saiu da Itália, o núcleo fundamental
da coleção volta ao palácio que era sua sede original para a concorrida exposição
Caravaggio e os Giustiniani, aberta até 15 de maio. Atual sede do senado italiano, que
emprestou o espaço para a mostra abrindo pela primeira vez ao público, o palácio
Giustiniani está a poucos metros da igreja São Luis dos Franceses meta
prioritária para os amantes de Caravaggio em Roma, onde o artista realizou algumas de
suas obras mais conhecidas.
Além do Amor Vencedor, considerada a obra de maior esplendor da
coleção, estão expostos o Suonatore di Liuto, cujo protagonista é ambiguamente
andrógino, Coroação de Espinhas, em que a intensidade da luz enfatiza a dramaticidade
da cena, San Gerolamo e Tomé, o Incrédulo, que impressionam pelo aspecto nada
convencional dos apóstolos, representados como simples trabalhadores de rostos enrugados,
bem ao gosto do mestre dos claro-escuros. São Tomé, retratado enquanto enfia o dedo na
ferida de Jesus, chegou a ser visto como irreverente e ultrajante pelos devotos da época,
que não aceitavam a imagem dos apóstolos como pessoas comuns. Os quadros expostos de
Caravaggio foram realizados entre 1596 e 1606 a primeira fase do artista definido
como agressivo, violento e até louco por seus biógrafos.
Em 1606, acusado de ter assassinado Ranuccio Tomassoni, fugiu de Roma para
onde nunca mais voltou. Quatro anos depois, foi encontrado morto numa praia em Porto
Ercole, perto da capital. Sua morte continua um mistério: assassinado ou vítima de febre
malárica? As cinco telas refletem a despreocupação e a ironia das primeiras encomendas
privadas romanas, diferentes do período maduro, com tons do desespero, da tragédia de um
condenado à morte, que tenta de todas as maneiras conquistar a absolvição divina.
Caravaggio, gênio rebelde, anticonformista e marginalizado, era quase um
personagem pasoliniano. Frequentava os salões intelectuais de seus mecenas, mas
principalmente tavernas e bordéis onde encontrava modelos para seus quadros
(principalmente prostitutas e homossexuais), trocava idéias com colegas pintores e quase
sempre arranjava uma briga, nas quais usava espada ou punhal. Roma, naquele período, era
um centro estimulante, onde se concentravam artistas de toda a Europa, para estudar os
antigos mestres e voltar a seus países informados sobre os movimentos mais recentes. Os
irmãos Benedetto e Vincenzo Giustiniani estavam entre os mais ativos, abertos e criativos
protetores das artes, no ínicio de 1600, em Roma, ponto de referência no cenário
artístico da capital.
Criaram oportunidades de trabalho para muitos artistas, alimentando um
nascente mercado de arte. Foram, com o cardeal Del Monte, os primeiros estimuladores e
colecionadores de Caravaggio, de quem chegaram a possuir 15 telas. Garantiram-lhe
tranqüilidade econômica e ambiente culturalmente rico, dando-lhe a possibilidade de se
expressar livremente: mostrando a verdade como ele a via sem se importar se chocava ou
não. Até a forma de tratar a sombra e a luz tinha como finalidade retratar os eventos
como se estivessem acontecendo naquele instante. Apesar dos inimigos declarados,
Michelangelo Merisi tornou-se um dos protagonistas da arte na capital pontíficia. Suas
técnicas e estilo revolucionaram, fizeram escola. Precursor do realismo pictórico,
fundou a corrente artística conhecida como caravagismo, influenciando
pintores como Velazquez e Rembrandt. (Assimina Vahlou, O Estado de S. Paulo) |