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Benedito Ruy Barbosa faz mistério em torno de Uê, Paisano

14/02/2002

 

 

Uma certa canção napolitana anda sendo ouvida à exaustão no sítio de Benedito Ruy Barbosa em Sorocaba. Foi lá, a 100 km de São Paulo, que o autor da Globo finalizou a sinopse da próxima novela das oito, Uê, Paesano. O título - que pode ser traduzido como Olá, Conterrâneo - faz referência à tal canção, de autor desconhecido e muito famosa no pós-guerra.

   Por recomendação da Globo, Benedito faz mistério em torno da trama que vai substituir O Clone, mas adianta que a idéia de fazer uma continuação de Terra Nostra não vingou. Segundo ele, a dificuldade na escalação do elenco desencorajou a Globo a levar a idéia adiante. "Esse negócio de fases gera uma insegurança muito grande. Quando a novela começa bem, não dá mais para mudar. Desta vez, ela vai transcorrer de forma mais gradual", assegura.

   Embora Uê, Paesano não seja a tão esperada continuação de Terra Nostra, Benedito pretende fazer referência a alguns dos personagens da novela exibida em 99.

   O banqueiro Francesco Magliano, vivido por Raul Cortez, é um deles. Ao contrário do que estava previsto inicialmente, Uê, Paesano não vai mais começar em 1947, logo após o fim da Segunda Guerra. Benedito decidiu transferir a narrativa para 1929, em pleno caos econômico e social com a quebra da bolsa de Nova Iorque e o fim da política café-com-leite no Brasil, com o movimento tenentista. Os atores Raul Cortez, Antônio Fagundes, Maria Fernanda Cândido, Ana Paula Arósio e Thiago Lacerda, todos oriundos de Terra Nostra, já foram sondados para Uê, Paesano. "Vou emendar uma novela na outra, mas não me incomodo. O sucesso de 'Terra Nostra' foi fabuloso. Até hoje, recebo cartas do mundo inteiro", festeja Raul Cortez.

   O sucesso de Terra Nostra pode ser medido em números. Em pouco mais de dois anos, a saga de Matteo e Giuliana foi vendida para 40 países. Até o momento, a novela recordista em vendas continua sendo "Escrava Isaura". Em 17 anos de carreira internacional, a trama de Gilberto Braga já foi vista em 78 países. Aqui no Brasil, "Terra Nostra" também não fez feio. A novela chegou a dar picos de 58 de audiência. "Quando um espetáculo dá muito certo, torna-se difícil controlá-lo", confessa o autor.

   Apesar de todo o sucesso, a direção de Uê, Paesano vai ficar a cargo de Luiz Fernando Carvalho e não mais de Jayme Monjardim. "Não estaria voltando a fazer novela se não tivesse o estímulo do Benedito. Não me imagino mais dirigindo outros autores", assegura Luiz Fernando, que dirigiu Renascer e O Rei do Gado, ambas de Benedito. Reservado, o autor não menciona os motivos que o levaram a romper com Monjardim, mas deixa transparecer que guarda mágoas do diretor. Uma delas parece ter sido causada por "Aquarela do Brasil", dirigida por Jayme há dois anos. "Ele não foi justo comigo porque usou idéias minhas na minissérie. Com ele não trabalho mais", garante Benedito.

   No momento, Luiz Fernando está na Itália, mais precisamente na região da Lucca, à procura de locações e atores para a novela. Segundo Benedito, a Itália vai continuar sendo a terra natal do protagonista de Uê, Paesano. Tal e qual um Matteo ou uma Giuliana, o protagonista vai partir para o Brasil em busca de uma vida melhor. Mas a novela não vai ficar restrita à saga de imigrantes italianos. Bem-humorado, Benedito confessa que não quer se tornar refém de uma história que ele mesmo criou. "Desta vez, vou falar de alemães, espanhóis, judeus e portugueses. Acho importante falar de povos que tanto fizeram pelo Brasil", destaca.

   O tema da imigração é um dos mais recorrentes na carreira de Benedito Ruy Barbosa. Muito antes de escrever Terra Nostra, ele já havia enfocado o assunto em Os Imigrantes, Vida Nova" e O Rei do Gado. De sua experiência pessoal, pretende aproveitar um episódio. Nos anos 50, ele namorou uma garota de origem judaica. O romance, porém, não foi adiante por interferência dos pais da moça. "Naquela época, várias etnias começaram a se misturar no Brasil. Certamente, houve muitas outras paixões proibidas entre jovens de diferentes origens", acredita o autor. Roberta Brasil / TV Press (© Terra Gente & TV)

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