Uma
certa canção napolitana anda sendo ouvida à exaustão no sítio de Benedito Ruy Barbosa
em Sorocaba. Foi lá, a 100 km de São Paulo, que o autor da Globo finalizou a sinopse da
próxima novela das oito, Uê, Paesano. O título - que pode ser traduzido como Olá,
Conterrâneo - faz referência à tal canção, de autor desconhecido e muito famosa
no pós-guerra.
Por recomendação da Globo, Benedito faz mistério em
torno da trama que vai substituir O Clone, mas adianta que a idéia de fazer uma
continuação de Terra Nostra não vingou. Segundo ele, a dificuldade na
escalação do elenco desencorajou a Globo a levar a idéia adiante. "Esse negócio
de fases gera uma insegurança muito grande. Quando a novela começa bem, não dá mais
para mudar. Desta vez, ela vai transcorrer de forma mais gradual", assegura.
Embora Uê, Paesano não seja a tão esperada
continuação de Terra Nostra, Benedito pretende fazer referência a alguns dos
personagens da novela exibida em 99.
O banqueiro Francesco Magliano, vivido por Raul Cortez,
é um deles. Ao contrário do que estava previsto inicialmente, Uê, Paesano não
vai mais começar em 1947, logo após o fim da Segunda Guerra. Benedito decidiu transferir
a narrativa para 1929, em pleno caos econômico e social com a quebra da bolsa de Nova
Iorque e o fim da política café-com-leite no Brasil, com o movimento tenentista. Os
atores Raul Cortez, Antônio Fagundes, Maria Fernanda Cândido, Ana Paula Arósio e Thiago
Lacerda, todos oriundos de Terra Nostra, já foram sondados para Uê, Paesano.
"Vou emendar uma novela na outra, mas não me incomodo. O sucesso de 'Terra Nostra'
foi fabuloso. Até hoje, recebo cartas do mundo inteiro", festeja Raul Cortez.
O sucesso de Terra Nostra pode ser medido em
números. Em pouco mais de dois anos, a saga de Matteo e Giuliana foi vendida para 40
países. Até o momento, a novela recordista em vendas continua sendo "Escrava
Isaura". Em 17 anos de carreira internacional, a trama de Gilberto Braga já foi
vista em 78 países. Aqui no Brasil, "Terra Nostra" também não fez feio. A
novela chegou a dar picos de 58 de audiência. "Quando um espetáculo dá muito
certo, torna-se difícil controlá-lo", confessa o autor.
Apesar de todo o sucesso, a direção de Uê,
Paesano vai ficar a cargo de Luiz Fernando Carvalho e não mais de Jayme Monjardim.
"Não estaria voltando a fazer novela se não tivesse o estímulo do Benedito. Não
me imagino mais dirigindo outros autores", assegura Luiz Fernando, que dirigiu Renascer
e O Rei do Gado, ambas de Benedito. Reservado, o autor não menciona os motivos que
o levaram a romper com Monjardim, mas deixa transparecer que guarda mágoas do diretor.
Uma delas parece ter sido causada por "Aquarela do Brasil", dirigida por Jayme
há dois anos. "Ele não foi justo comigo porque usou idéias minhas na minissérie.
Com ele não trabalho mais", garante Benedito.
No momento, Luiz Fernando está na Itália, mais
precisamente na região da Lucca, à procura de locações e atores para a novela. Segundo
Benedito, a Itália vai continuar sendo a terra natal do protagonista de Uê, Paesano.
Tal e qual um Matteo ou uma Giuliana, o protagonista vai partir para o Brasil em busca de
uma vida melhor. Mas a novela não vai ficar restrita à saga de imigrantes italianos.
Bem-humorado, Benedito confessa que não quer se tornar refém de uma história que ele
mesmo criou. "Desta vez, vou falar de alemães, espanhóis, judeus e portugueses.
Acho importante falar de povos que tanto fizeram pelo Brasil", destaca.