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A primeira santa do Brasil

14/02/2002

 

 

Prefeito da Congregação das Causas dos Santos diz que está "tudo pronto" para canonizar madre Paulina

PAULO DANIEL FARAH
ENVIADO ESPECIAL A ROMA

   Uma das principais expectativas dos católicos brasileiros deve se tornar realidade nos próximos meses: o país vai ganhar em breve -possivelmente neste semestre- seu primeiro santo.

   "Está tudo absolutamente pronto para a canonização" de madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus, afirma o cardeal português d. José Saraiva Martins, 70, prefeito da Congregação das Causas dos Santos desde 1998.

   O reconhecimento do segundo milagre necessário para a canonização aconteceu em 2000, abrindo o caminho para que qualquer igreja possa abrigar uma imagem de madre Paulina e para que ela integre o cânon católico.

   De acordo com a igreja, Eluísa Rosa de Souza e Iza Bruna Vieira de Souza foram curadas quando já estavam desenganadas pelos médicos (leia texto abaixo).

   Leia a seguir trechos da entrevista que Saraiva Martins, professor de teologia em diversas universidades italianas e autor de mais de 20 obras, concedeu à Folha em seu escritório, em Roma, em frente à basílica de São Pedro.

Folha - João Paulo 2º foi o papa que mais nomeou santos em toda a história da igreja. Por quê?
José Saraiva Martins -
João Paulo 2º foi, sem dúvida, o papa que elevou aos altares o maior número de santos e beatos. É mais um recorde do atual sumo pontífice. O seu objetivo é profundamente pastoral. Com as numerosas beatificações e canonizações, ele quer valorizar a santidade como elemento essencial da igreja. Essa foi sempre uma das linhas fundamentais de seu pontificado. O papa quer propor aos fiéis e a todo o povo de Deus modelos autênticos de santidade, modelos de valores humanos e cristãos. O homem sempre precisa de modelos. Sobretudo hoje, quando se nota, por vezes, uma grande falta de valores, com todas as nefastas consequências na sociedade.

Folha - O que falta para o Brasil vir a ter um santo nativo?
Saraiva Martins -
Apraz-me dizer que também o Brasil é terra de santos. Atualmente, há na Congregação das Causas dos Santos 31 causas de beatificação e de canonização. Ainda há pouco foram beatificados o frei Galvão e os protomártires do Nordeste.

Folha - Quando madre Paulina deve ser canonizada?
Saraiva Martins -
Provavelmente ainda este ano, pois está tudo absolutamente pronto para a canonização dela.

Folha - Quando exatamente?
Saraiva Martins -
Não está completamente definido.

Folha - Há mais alguém com o processo adiantado?
Saraiva Martins -
Sim, Dulce [morta em 1992, irmã Dulce desenvolveu diversas obras assistenciais".

Folha - Quantas causas estão em andamento atualmente?
Saraiva Martins -
São mais de 3.000 processos.

Folha - Os casos mais antigos na congregação têm prioridade?
Saraiva Martins -
Sim, consideramos sempre por ordem cronológica de entrada. É justo que seja assim, não?

Folha - De onde vêm os candidatos? Ainda há muitos europeus?
Saraiva Martins -
Eles vêm dos lugares mais diversos, até mesmo da Itália. Os santos feitos por João Paulo 2º pertencem a todas as áreas geográficas e culturais. Com este papa, mudou muitíssimo a geografia da santidade canonizada. Os candidatos à beatificação e à canonização pertencem a todos os continentes. Isso retrata de forma mais fiel a realidade atual da igreja, não? A santidade floresce em todo o mundo.
Outra vantagem é que este papa beatificou e canonizou muitíssimos leigos, várias centenas deles. Portanto, ele aplica aquilo que o concílio determinou: todos os cristãos são chamados à santidade. De fato, a santidade floresce em todos os estados de vida dos cristãos. Não é um privilégio ou um luxo de alguns, é uma obrigação de todos. Porque é uma obrigação que deriva do batismo.
O papa disse que perguntar a um catecúmeno [aquele que se prepara para receber o batismo" "Tu queres ser batizado?" é o mesmo que perguntar "Tu queres ser santo?". Ou seja, a obrigação da santidade deriva do batismo.
Recentemente, no dia 21 de outubro do ano passado, pela primeira vez na história da igreja, um casal foi beatificado como casal. O milagre para a beatificação foi atribuído aos dois.
O papa tem um princípio pastoral fundamental. A santidade é a coisa mais importante da igreja. Toda a ação pastoral deve resumir-se ao convite à santidade. Todos devem buscar a santidade. Ele [o papa" não faz isso por acaso. Tem um princípio: a importância pastoral das beatificações e das canonizações. Com o sentido de propor um modelo para incentivar os fiéis à santidade.

Folha - O processo de madre Paulina foi iniciado em 1965. Outros duram séculos. Por que há uma variação tão grande?
Saraiva Martins -
O tempo varia segundo o tipo de processo. Há casos mais e menos complicados.

Folha - Quando se alega um milagre, como a igreja procede?
Saraiva Martins -
Os casos envolvem o conhecimento das virtudes, a vistoria dos teólogos, depois dos cardeais. Só depois vão para o papa. Em relação ao milagre, deve passar primeiro por historiadores, depois por médicos. Temos 60 médicos especializados nos vários setores da medicina. Segundo a natureza da cura. Se é a cura de um câncer, chamamos o médico responsável pelo setor. É um processo extremamente sério. Os meios de comunicação não imaginam o trabalho que há por trás de uma cerimônia de beatificação. Anos e anos de trabalho.

Folha - O sr. foi ao Brasil no ano passado como representante do papa no Congresso Eucarístico. Qual sua impressão da igreja local?
Saraiva Martins -
A impressão de sempre, ou seja, a de que o Brasil é um país extraordinário. Com muitos recursos naturais e um enorme potencial humano. Um país multirracial que constituiu e continua a constituir um magnífico exemplo de convivência entre as várias etnias. Também essa é uma invejável riqueza. O Brasil é, além disso, um país em franco progresso econômico e social.
A igreja do Brasil é, a meu ver, jovem, cheia de vida, muito empenhada na nova evangelização à luz das novas realidades socioculturais do país. Uma igreja que, fiel à sua rica e longa história, olha confiante para o presente e para o futuro, preocupada unicamente com a total libertação ou com a promoção integral do homem.
(© Folha de S. Paulo)


Para cardeal, papa é "apóstolo da reconciliação"

DO ENVIADO ESPECIAL

O cardeal português d. José Saraiva Martins, 70, prefeito da Congregação das Causas dos Santos desde 1998, diz que sempre pede "ao Senhor que nos conserve ainda por muito tempo o "João de Deus'", em referência ao papa João Paulo 2º, 81, cujo estado de saúde é cada vez mais frágil.
Sobre o líder católico, Saraiva Martins afirma que "não é fácil definir uma figura tão rica e poliédrica como a de João Paulo 2º. O atual sumo pontífice é, em primeiro lugar, uma pessoa de uma espiritualidade muito profunda. É um homem de uma grande fé e de uma imensa confiança em Deus".
"É um grande apóstolo da reconciliação e da paz num mundo tão agitado pelos conflitos que infelizmente ensanguentam muitos pontos do globo", argumenta. "Nós, cristãos, procuramos imitar Cristo, o príncipe da paz. Um cristão que não se empenha pela paz não merece o nome de cristão. É mil vezes absurdo matar em nome de Deus." (PDF) 
(© Folha de S. Paulo)



"Madre Paulina me devolveu a vida"

DO ENVIADO ESPECIAL

"O médico disse que meu marido podia ir para casa e comprar o caixão. No dia seguinte, eu estava bem", disse à Folha, por telefone, de Imbituba (Santa Catarina), Eluísa Rosa de Souza, 59, que afirma ter sido salva depois de rezar para madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus.
"Ela merece ser santa. Foi humilde e gostava de ajudar os pobres. Ela me devolveu a vida."
Em 1989, a Santa Sé reconheceu como milagre a cura "instantânea, perfeita e duradoura" de Eluísa. Na sétima gravidez (aos 24 anos), ocorreu a morte intra-uterina do feto, retido por alguns meses no útero. A retirada causou fortes hemorragias.
Para se tornar santo, um segundo milagre deve ser reconhecido. Isso aconteceu no final de 2000, quando consideraram a cura da acreana Iza Bruna Vieira de Souza, nascida em 5 de junho de 1992.
"Iza nasceu com uma bolha do tamanho de uma laranja, saindo do pescoço. Não podíamos ter contato com ela. À medida que os dias iam passando, a bolha aumentava. Teve morte cerebral", diz a mãe, Francisca Mabel, 27.
A criança foi operada quatro dias depois e teve uma convulsão pós-operatória. Foi batizada no hospital pelo padre Azevedo, que costumava rezar numa igreja ligada a madre Paulina.
"Iza ficou sempre com a foto de madre Paulina no berçário. Foi operada com a foto de madre Paulina. Minha mãe havia feito uma promessa de que, se a criança se salvasse, ela seria devota para sempre de madre Paulina. Hoje, com nove anos, Iza é uma criança normal graças à madre Paulina", afirmou à Folha, por telefone. "Queremos vê-la no altar, reconhecida como santa."
A irmã Célia Cadorin, postuladora ("advogada") desde 1994 do processo de canonização de madre Paulina, vai comparecer a um consistório no Vaticano no próximo dia 28. Segundo ela, o papa deve anunciar na ocasião a data da canonização. "Pedi que fosse ainda no primeiro semestre", diz.
Cadorin conta que conheceu a madre Paulina em 1941. "Tive a graça de receber ao menos três bênçãos. Em 1942, sofri uma queda e fiz uma cirurgia. O braço começou a ficar paralisado. Minha tia teve a inspiração de colocar um cravo que tirou do caixão [de madre Paulina" em meu braço. Fiquei bem", relata.
Com mais de 6.500 páginas, os processos foram custeados sobretudo pelo monsenhor Guido Bortolameoti, 97. "Ela nasceu na Itália e tem devotos lá, mas morou a vida toda no Brasil." Os gastos giram em torno de US$ 100 mil.
Amabile Lucia Visintainer (nome de batismo) nasceu na Itália, em 1865. Era a segunda entre 14 irmãos -nove deles brasileiros. Aos nove anos, emigrou para Santa Catarina. Morreu em 9 de julho de 1942. (PDF) 
(© Folha de S. Paulo)

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