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A catástrofe natural mais
ilustre da história da vida na Terra foi também a mais rápida. Pesquisadores dos EUA e
da Itália afirmam que o cataclismo que atingiu o planeta há 65 milhões de anos levou
apenas dez milênios para extinguir os dinossauros. Um piscar de olhos, geologicamente
falando.
A hecatombe marcou o final do período geológico conhecido como Cretáceo,
iniciado 144 milhões de anos atrás. Cerca de 70% de todas as formas de vida, incluindo
os répteis gigantes, foram eliminadas do planeta.
Sua causa foi durante décadas o maior mistério da paleontologia. O
quebra-cabeças havia sido parcialmente resolvido em 1980, quando os físicos Luís e
Walter Alvarez propuseram que a megaextinção tivesse sido provocada pela colisão de um
asteróide com a Terra. Além da tragédia imediata, a pancada teria mudado tanto o clima
no planeta que só seres vivos pequenos e oportunistas, como os mamíferos (que comiam as
carcaças dos dinossauros) conseguiram sobreviver.
Apesar de a teoria do impacto ser aceita pela maioria dos pesquisadores, seus
detalhes ainda suscitam pedradas na academia.
Não se sabe, por exemplo, se o pedregulho assassino foi um asteróide, um
cometa ou um membro de uma chuva de cometas. Também se discute o intervalo de tempo em
que a tragédia aconteceu -uma extinção dessa magnitude deveria levar centenas de
milhares de anos. Finalmente, especula-se que a matança foi tão grande que não poderia
ter sido causada só por um meteorito. O bólido, propunham alguns, desencadeou uma série
de erupções vulcânicas que acabaram consumando a catástrofe ambiental.
O estudo da equipe ítalo-americana, publicado na última edição da revista
"Science" (www. sciencemag.org), começa a responder essas perguntas. Datando
sedimentos em lagos da Itália e da Tunísia, os pesquisadores descobriram que a
extinção do Cretáceo foi causada por um único objeto, que agiu de forma rápida e
devastadora. E sem comparsas.
Pista extraterrestre
Datar o intervalo em que a megaextinção aconteceu sempre
foi um problema para os geólogos. Tudo o que sobrou de testemunha daquele período
turbulento foi uma camada de argila de uns poucos centímetros de espessura entre as
rochas do Cretáceo e as do período seguinte, o Terciário.
"As técnicas tradicionais não têm resolução suficiente para
intervalos pequenos", disse à Folha o geólogo indiano Sujoy Mukhopadhyay, do
Caltech (Instituto de Tecnologia da Califórnia), nos EUA, principal autor do trabalho.
Para descobrir esse intervalo, Mukhopadhyay, ainda estudante de
pós-graduação, apelou para um método "não-tradicional": eles resolveram
medir as concentrações de um tipo raro de átomo de hélio, o He3, nos sedimentos.
Esse tipo de hélio é raro na Terra, mas abundante no espaço. Cerca de 86%
dele vem de pequenas partículas de poeira cósmica que caem sobre o planeta.
Corpos maiores, como asteróides, também têm grandes concentrações de
He3. Só que, ao entrar na atmosfera, eles acabam pegando fogo e o hélio se dissipa.
Os cientistas raciocinaram que, se o fim dos dinossauros tivesse sido
provocado por uma chuva de pequenos cometas, a quantidade de poeira cósmica -e do hélio
extraterrestre- nos sedimentos aumentaria. Se o carrasco tivesse sido um corpo maior, ela
permaneceria mais ou menos constante.
A medição das quantidades de He3 na argila da transição
Cretáceo-Terciário nos dois pontos pesquisados mostrou que a taxa de deposição do
elemento não mudou durante a tragédia. A chuva de cometas estava descartada.
Conhecendo o ritmo normal de acumulação do hélio espacial no planeta, os
geólogos conseguiram calcular em 10 mil anos o tempo de duração do cataclismo.
Com a data em mãos, a hipótese de erupções vulcânicas agravando a
extinção também foi descartada. "O vulcanismo não teve um papel importante,
porque durou 500 mil anos. Tudo indica que o principal responsável foi o impacto",
disse Mukhopadhyay.
Segundo Kenneth Farley, co-autor do estudo, o mais impressionante é que 10
mil anos foram o tempo necessário para que a extinção acontecesse e a fauna se
recuperasse. "Isso mostra que o ecossistema é frágil, mas que a vida pode
recomeçar rápido." (CLAUDIO ANGELO, Folha de S.Paulo) |