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NOVA YORK - Malena, filme do
cineasta italiano Giuseppe Tornatore que estréia hoje na cidade, é a segunda produção
do ano a fazer parte da criticada tática do estúdio Miramax de chegar a extremos na hora
de promover seus longas para o Oscar. Como se tornou notório, uma milionária campanha
orquestrada pelo estúdio com sede no bairro nova-iorquino de TriBeca pode ter garantido
uma indicação para o Oscar de melhor filme a Chocolate, filme dirigido pelo sueco Lasse
Hallström e estrelado por Juliette Binoche, que acabou batendo o favorito - e tocante -
Billy Elliot, que também chega hoje aos cinemas de São Paulo.
Para promover Malena, seu produtor, Harvey Weinstein, um dos co-sócios da
Miramax, reuniu numa mesma sessão do filme, no mês de novembro, vários membros da
academia de Hollywood residentes em Nova York, jornalistas americanos e estrangeiros. Sem
pestanejar, Weinstein apresentou ao público daquele cinema Tornatore; a belíssima
estrela do filme, a italiana Monica Bellucci; e fez uma observação em tom de desagravo:
chegara a vez de Ennio Morricone, que nunca ganhou um Oscar, colocar finalmente a mão em
sua estatueta. Em fevereiro, quando foram anunciados todos os candidatos ao prêmio
máximo do cinema americano, Malena acabou conquistando duas indicações: nas categorias
de melhor trilha sonora e fotografia (o húngaro Lajos Koltai).
Críticas à parte, não fosse pela suplicante introdução de Weinstein,
Morricone, uma das grandes lendas vivas do cinema, jamais teria sido indicado para o Oscar
de trilha sonora, categoria que tende a privilegiar compositores anglo-saxões. Aos 72
anos e com mais de 400 filmes em seu currículo e que se consagrou ao trabalhar com Sergio
Leone em 1964, Morricone foi indicado em quatro outras ocasiões: por Bugsy, de Warren
Beatty (1992); Os Intocáveis, de Brian De Palma (88); A Missão (87), de Roland Joffé; e
Cinzas no Paraíso, de Terrence Malick (79).
Um de seus trabalhos contemporâneos mais memoráveis, a trilha do filme
Cinema Paradiso, sua primeira colaboração com Tornatore, nem foi lembrada pela academia.
"Com Morricone não é preciso dizer muita coisa", explica Tornatore em
entrevista ao Estado. "É só descrever um pouco a trama e esperar a chegada de um
magnífico score." Morricone disputa o Oscar com a inglesa Rachael Portman
(Chocolate); o alemão radicado em Hollywood Hans Zimmer (Gladiador); o americano John
Williams (O Patriota) e o chinês Tan Dun (O Tigre e o Dragão).
Da trilha sonora de Malena, uma das únicas idéias de Tornatore foi a
inclusão da canção Ma l'Amore no, que abre o filme. "Essa é uma canção muito
famosa de 1942, que ficou imensamente ligada às imagens de um filme de Alida Valli",
explica Tornatore. "Desde então, essa canção continuou a passar de geração em
geração, como símbolo da infabilidade do amor. Além de a canção ter inspirado a
história de Luciano Vincenzoni, da qual meu filme foi tirado, ela tem a função de
mostrar a concretização do amor do menino pela personagem de Monica."
Apesar das duas indicações para o Oscar, Malena não foi o filme a
representar oficialmente a Itália na categoria de melhor produção estrangeira. O drama
I Cento Passi, de Marco Tullio Giordana, é que acabou sendo oficializado por um conselho
cinematográfico italiano para a função.
No fim, acabou não fazendo parte dos cinco finalistas. "Eu acho que
Malena teria tido uma grande chance nessa categoria", explica Tornatore. "Mas o
pessoal da seleção italiana talvez tenha pensado que eu já tive sucesso suficiente e
quis dar chance a outra pessoa. Aceitei bem a decisão." (MARCELO BERNARDES, O Estado
de S. Paulo) |