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A sucessão do Papa

19/03/2001

 

 

   O falatório sobre a possibilidade de renuncia do Papa João Paulo II obrigou a Cúria, ou seja, o aparelho burocrático do Vaticano a mudar de postura. A Cúria usa agora uma técnica mais positiva: agenda compromissos do Papa para o corrente ano, visitas à Síria, à Ucrania e pela nona vez à Polonia, terra natal do pontífice. Mas, a cada dia, atestam visitantes ilustres, Joâo Paulo se mostra mais debilitado. Exausto, de voz quase inaudível e atormentado pelo mal de Parkinson, o chefe da Igreja vai perdendo sua forte liderança. O vazio de poder no Vaticano é o que permite as especulações.

   E João Paulo II não é um pontífice como muitos outros, é uma figura singular, que alcançou a chefia da Igreja aos 58 anos, o mais jovem Papa deste século, é o primeiro não italiano desde Adriano VI (1522-23) e já dirige os católicos por 22 anos, o mais longo pontificado dos últimos cem anos. Para além dessas singularidades, o ex-arcebispo de Cracóvia mudou o mundo com sua forte participação na derrubada do comunismo, não apenas soviético, mas de toda a Europa do Leste. É o líder carismático, o Papa Peregrino, o guardião da tradição conservadora da Igreja, o pontífice que deteve o que chamaram de “desvio à esquerda”, ao desmontar, sobretudo na América Latina, os núcleos de prelados que professavam a Teologia da Libertação. Mas, a par disso, é preciso não esquecer que João Paulo é o Papa que vem fazendo a revisão dos erros da Igreja, desde a Idade Média, o pastor que lamentou em lágrimas as torturas e os assassinatos físicos e culturais da Inquisição.

   CÚRIA X PASTORES – É de um Papa assim que estamos falando. Portanto, é mais importante saber qual é amplitude das manipulações pré-eleitorais do que precisar o momento da abertura da sucessão. E as manobras já começaram, pois é comum se ouvir de alguns prelados que é o momento de pensar na nova liderança. Um deles chegou a dizer que “elegemos um santo padre e não um padre eterno!”. Há mais de cinco anos que veladamente se fala de renuncia. Só que esse desejo esbarrou na determinação de João Paulo II em fazer cumprir a profecia do cardeal Primaz da Polônia e seu grande amigo,Stefan Wyzynski: ” Wojtyla, tu serás o Papa que conduzirá a Igreja ao terceiro milênio “. Cumpriu-se a profecia, resta saber quem conduzirá a Igreja, na plenitude da autoridade e da lucidez, ao longo do terceiro milênio.

   E volta-se ao enfrentamento de sempre, discreto, mas vigoroso, entre a Cúria e os chamados bispos pastores. Ocorre que a Cúria perdeu todos os conclaves a partir de 1958. Mas o crepúsculo deste papado permite que os burocratas reforcem suas posições e afastem candidatos que não agradem à cúpula do Vaticano, como o cardeal Carlo Maria Martini, que era o mais papável de todos os nomes especulados. No seio da própria Cúria o nome forte ainda é o do cardeal Angelo Sodano, secretário de Estado, a mais política das candidaturas. No entanto, Sodano cometeu erros graves que podem custar a possibilidade de sua escolha: A tentativa de evitar o julgamento de Pinochet pelas autoridades espanholas, sua oposição às criticas do Papa à Guerra do Golfo Pérsico e à intervenção da Otan nos Bálcãs e, finalmente, sua tentativa de manipular o terceiro segredo de Fátima, além de abrir as portas do Vaticano aos líderes da direita Gianfranco Fini e Joerg Haider.

   Como já ocorreu antes a Cúria pode mudar de rumo e deixar ir os anéis para manter os dedos, e assim, conseguir um acordo com um nome que seja palatável a conservadores e reformistas. O cardeal Martini é pouco provável, menos mal para a Cúria, e nesse caso não seria demais, dizem os especialistas, que todos aceitassem o arcebispo de Gênova, cardeal Dionigi Tettmanzi. Mas, é bom não esquecer, tudo isso é só especulação, uma eleição papal faz-se por inspiração do Espírito Santo! E isso comporta uma escolha absolutamente fora do que parece ser a “realidade eleitoral do Vaticano”. (Fernando Menezes, Jornal do Commércio)

Nomes italianos são mais fortes

   Para alguns observadores a Igreja não está preocupada com a nacionalidade do futuro Papa, o que importa é sua capacidade de enfrentar as mudanças ainda mais radicais que certamente as próximas décadas vão impor ao mundo. Mas isso não quer dizer que a Igreja vai eleger um pontífice reformista, e por esse motivo são poucas as chances do cardeal Martini, até mesmo porque eleitoralmente não há espaço para guinadas muito significativas, pois cerca de 90% do Colégio Eleitoral foram nomeados por João Paulo II. Como sabemos ele fez escolhas com fortes conotações pastorais, espiritualismo acentuado e de um centralismo associado à prudência. Um reformista só mesmo se for um outsider, mas isso exige uma figura imponente e de enorme repercussão, o que não parece existir entre os eleitores.

   A VOLTA DE UM ITALIANO – Não é possível falar em blocos fortes, eleitoralmente, porque a dispersão é muito grande. Claro que a Cúria prefere a volta de um italiano, e parece ser um desejo muito plausível, porque entre os italianos estão os nomes de maior repercussão, de mais “tutano” e, afinal, os italianos contam com 24 cardeais, o maior contingente, mas precisa formar alianças. Um nome italiano forte obterá, muito provavelmente, o apoio de outros europeus e até de eleitores dos países pobres. Muitos dizem que o futuro Papa só não será um italiano se eles não se entenderem, aí, então, uma figura palatável de qualquer outro país pode alcançar o trono de São Pedro.

   Mas quem seria esse italiano? É difícil acertar, uma eleição papal nunca é óbvia, mas é possível apontar nomes que circulam nos salões do Vaticano e nas reuniões diplomáticas. O cardeal Sodano, secretário de Estado, é sem dúvida um nome levado a sério, apesar das restrições já apontadas. O atual prefeito da Congregação dos Bispos, homem de confiança do Papa, cardeal Giovanni Battista Re, a quem João Paulo queria como subsecretário de Estado, mas a Cúria descartou, é um nome de grande prestígio. Battista Re é amigo, colega de escola do cardeal arcebispo de Gênova, Dionigio Tettamanzi, um milanês de 66 anos, a quem muitos apontam como uma solução para qualquer impasse no conclave. Se os dois se entenderem, o que é provável, Tettamanzi tem muita possibilidade.

   COLÉGIO ELEITORAL – O Colégio Eleitoral que escolhe o Papa tem 120 cardeais. No momento o total de cardeais é 185, mas só 137 têm hoje condições de voto, ou seja, são prelados com menos de 80 anos. Dentro de pouco menos de dois anos, o número se reduzirá aos tradicionais 120 eleitores. Eles estão assim distribuídos:Itália- 24; USA- 11; Alemanha - 7; Brasil- 7; Espanha, França e Polônia- 5; Colombia, Índia e México- 3; Argentina, Austrália, Bélgica, Canadá, Chile, Suiça, Portugal, Ucrania, Filipinas, Eslováquia, Inglaterra e Venezuela- 2; Os demais países de um total de 66 contam com apenas 1 cardeal eleitor. Os brasileiros eleitores são os seguintes; Lucas Moreira Neves( vive em Roma), Aloisio Lorscheider, José Freire Falcão,Serafim Fernandes,Geraldo Majella e Cláudio Humes. (JC)

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