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O
falatório sobre a possibilidade de renuncia do Papa João Paulo II obrigou a Cúria, ou
seja, o aparelho burocrático do Vaticano a mudar de postura. A Cúria usa agora uma
técnica mais positiva: agenda compromissos do Papa para o corrente ano, visitas à
Síria, à Ucrania e pela nona vez à Polonia, terra natal do pontífice. Mas, a cada dia,
atestam visitantes ilustres, Joâo Paulo se mostra mais debilitado. Exausto, de voz quase
inaudível e atormentado pelo mal de Parkinson, o chefe da Igreja vai perdendo sua forte
liderança. O vazio de poder no Vaticano é o que permite as especulações.
E João Paulo II não é um pontífice como
muitos outros, é uma figura singular, que alcançou a chefia da Igreja aos 58 anos, o
mais jovem Papa deste século, é o primeiro não italiano desde Adriano VI (1522-23) e
já dirige os católicos por 22 anos, o mais longo pontificado dos últimos cem anos. Para
além dessas singularidades, o ex-arcebispo de Cracóvia mudou o mundo com sua forte
participação na derrubada do comunismo, não apenas soviético, mas de toda a Europa do
Leste. É o líder carismático, o Papa Peregrino, o guardião da tradição conservadora
da Igreja, o pontífice que deteve o que chamaram de desvio à esquerda, ao
desmontar, sobretudo na América Latina, os núcleos de prelados que professavam a
Teologia da Libertação. Mas, a par disso, é preciso não esquecer que João Paulo é o
Papa que vem fazendo a revisão dos erros da Igreja, desde a Idade Média, o pastor que
lamentou em lágrimas as torturas e os assassinatos físicos e culturais da Inquisição.
CÚRIA X PASTORES É de um Papa
assim que estamos falando. Portanto, é mais importante saber qual é amplitude das
manipulações pré-eleitorais do que precisar o momento da abertura da sucessão. E as
manobras já começaram, pois é comum se ouvir de alguns prelados que é o momento de
pensar na nova liderança. Um deles chegou a dizer que elegemos um santo padre e
não um padre eterno!. Há mais de cinco anos que veladamente se fala de renuncia.
Só que esse desejo esbarrou na determinação de João Paulo II em fazer cumprir a
profecia do cardeal Primaz da Polônia e seu grande amigo,Stefan Wyzynski: Wojtyla,
tu serás o Papa que conduzirá a Igreja ao terceiro milênio . Cumpriu-se a
profecia, resta saber quem conduzirá a Igreja, na plenitude da autoridade e da lucidez,
ao longo do terceiro milênio.
E volta-se ao enfrentamento de sempre,
discreto, mas vigoroso, entre a Cúria e os chamados bispos pastores. Ocorre que a Cúria
perdeu todos os conclaves a partir de 1958. Mas o crepúsculo deste papado permite que os
burocratas reforcem suas posições e afastem candidatos que não agradem à cúpula do
Vaticano, como o cardeal Carlo Maria Martini, que era o mais papável de todos os nomes
especulados. No seio da própria Cúria o nome forte ainda é o do cardeal Angelo Sodano,
secretário de Estado, a mais política das candidaturas. No entanto, Sodano cometeu erros
graves que podem custar a possibilidade de sua escolha: A tentativa de evitar o julgamento
de Pinochet pelas autoridades espanholas, sua oposição às criticas do Papa à Guerra do
Golfo Pérsico e à intervenção da Otan nos Bálcãs e, finalmente, sua tentativa de
manipular o terceiro segredo de Fátima, além de abrir as portas do Vaticano aos líderes
da direita Gianfranco Fini e Joerg Haider.
Como já ocorreu antes a Cúria pode mudar de
rumo e deixar ir os anéis para manter os dedos, e assim, conseguir um acordo com um nome
que seja palatável a conservadores e reformistas. O cardeal Martini é pouco provável,
menos mal para a Cúria, e nesse caso não seria demais, dizem os especialistas, que todos
aceitassem o arcebispo de Gênova, cardeal Dionigi Tettmanzi. Mas, é bom não esquecer,
tudo isso é só especulação, uma eleição papal faz-se por inspiração do Espírito
Santo! E isso comporta uma escolha absolutamente fora do que parece ser a realidade
eleitoral do Vaticano. (Fernando Menezes, Jornal do Commércio)
Nomes
italianos são mais fortes
Para alguns observadores a Igreja
não está preocupada com a nacionalidade do futuro Papa, o que importa é sua capacidade
de enfrentar as mudanças ainda mais radicais que certamente as próximas décadas vão
impor ao mundo. Mas isso não quer dizer que a Igreja vai eleger um pontífice reformista,
e por esse motivo são poucas as chances do cardeal Martini, até mesmo porque
eleitoralmente não há espaço para guinadas muito significativas, pois cerca de 90% do
Colégio Eleitoral foram nomeados por João Paulo II. Como sabemos ele fez escolhas com
fortes conotações pastorais, espiritualismo acentuado e de um centralismo associado à
prudência. Um reformista só mesmo se for um outsider, mas isso exige uma figura
imponente e de enorme repercussão, o que não parece existir entre os eleitores.
A VOLTA DE UM ITALIANO Não é possível falar em blocos
fortes, eleitoralmente, porque a dispersão é muito grande. Claro que a Cúria prefere a
volta de um italiano, e parece ser um desejo muito plausível, porque entre os italianos
estão os nomes de maior repercussão, de mais tutano e, afinal, os italianos
contam com 24 cardeais, o maior contingente, mas precisa formar alianças. Um nome
italiano forte obterá, muito provavelmente, o apoio de outros europeus e até de
eleitores dos países pobres. Muitos dizem que o futuro Papa só não será um italiano se
eles não se entenderem, aí, então, uma figura palatável de qualquer outro país pode
alcançar o trono de São Pedro.
Mas quem seria esse italiano? É difícil acertar, uma eleição papal
nunca é óbvia, mas é possível apontar nomes que circulam nos salões do Vaticano e nas
reuniões diplomáticas. O cardeal Sodano, secretário de Estado, é sem dúvida um nome
levado a sério, apesar das restrições já apontadas. O atual prefeito da Congregação
dos Bispos, homem de confiança do Papa, cardeal Giovanni Battista Re, a quem João Paulo
queria como subsecretário de Estado, mas a Cúria descartou, é um nome de grande
prestígio. Battista Re é amigo, colega de escola do cardeal arcebispo de Gênova,
Dionigio Tettamanzi, um milanês de 66 anos, a quem muitos apontam como uma solução para
qualquer impasse no conclave. Se os dois se entenderem, o que é provável, Tettamanzi tem
muita possibilidade.
COLÉGIO ELEITORAL O Colégio Eleitoral que escolhe o Papa
tem 120 cardeais. No momento o total de cardeais é 185, mas só 137 têm hoje condições
de voto, ou seja, são prelados com menos de 80 anos. Dentro de pouco menos de dois anos,
o número se reduzirá aos tradicionais 120 eleitores. Eles estão assim
distribuídos:Itália- 24; USA- 11; Alemanha - 7; Brasil- 7; Espanha, França e Polônia-
5; Colombia, Índia e México- 3; Argentina, Austrália, Bélgica, Canadá, Chile, Suiça,
Portugal, Ucrania, Filipinas, Eslováquia, Inglaterra e Venezuela- 2; Os demais países de
um total de 66 contam com apenas 1 cardeal eleitor. Os brasileiros eleitores são os
seguintes; Lucas Moreira Neves( vive em Roma), Aloisio Lorscheider, José Freire
Falcão,Serafim Fernandes,Geraldo Majella e Cláudio Humes. (JC) |
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