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Berlusconi diz preferir abandonar negócios à política 

26/03/2001

 

 

Líder da direita, empresário da mídia vinha combatendo aqueles que diziam que o poder lhe traria conflito de interesses

   Num encontro que manteve no último 25 de fevereiro com os jornalistas espanhóis que o seguiram até Bilbao, onde dividiu o palco com o premiê espanhol, José Maria Aznar, Silvio Berlusconi pela primeira vez se declarou disposto a vender suas propriedades antes de renunciar à política. Até essa data, o multimilionário milanês vinha combatendo aqueles que o advertiam que, se chegasse ao poder, iria incorrer num colossal conflito de interesses.

   A mudança substancial entre as duas atitudes ilustra bem a metamorfose pela qual passa Berlusconi, empresário ambicioso que aterrissou no palco da política em 1993 e se convenceu de que sua missão no mundo é deixar uma marca na história de seu país, porque seu objetivo é salvar a Itália.

   "As eleições gerais de 13 de maio próximo serão cruciais para os italianos." A frase é do próprio Berlusconi, mas certamente tem a concordância dos 47 milhões de eleitores convocados às urnas.

   Desde que, em maio passado, o Pólo (hoje, depois de unir-se à coalizão da Liga Norte, rebatizado de Casa das Liberdades) conquistou os governos regionais de toda a parte norte do país (além de algumas regiões do sul profundo), a ascensão política de Berlusconi tem sido avassaladora.

   A oposição de direita, de Berlusconi, encabeça as intenções de voto para as eleições, segundo pesquisas recentes. A coalizão estava com 53% das intenções de voto, em pesquisa Datamedia publicada no semanário "Panorama", contra 38,4% para a coalizão governista (centro-esquerda) Oliveira e os comunistas. Datamedia e "Panorama" fazem parte o império de Berlusconi.
Outra pesquisa, do instituto Cirm, para o "L'Espresso", de centro-esquerda, dá 52,5% dos votos à Casa das Liberdades no pleito proporcional e 51% no majoritário. A Oliveira e os comunistas obteriam 38% dos votos no primeiro e 44% no segundo.

   A diferença entre as duas coalizões diminui na pesquisa do instituto SWG para o semanário de esquerda "Diario", que dá ao bloco de Berlusconi 48% das intenções de voto, contra 42% da centro-esquerda e comunistas. Hoje são poucos os que ainda enxergam a possibilidade de uma nova vitória da Oliveira em 13 de maio.

   O que aconteceu para que o homem mais odiado por parte substancial do establishment italiano recebesse a luz verde para retornar à liderança do governo? "Na realidade, o que Berlusconi recebeu foi uma luz amarela", diz um alto funcionário de uma grande empresa privada do norte do país.

   Conscientes de que a centro-esquerda não foi capaz de transmitir uma imagem de estabilidade política, essencial nos tempos de hoje, os poderosos começaram a dar as costas à Oliveira.
Os processos judiciais que perseguiram Berlusconi até o ano passado foram se desvanecendo um a um ou foram adiados.

   No momento, permanece ativo contra Berlusconi apenas o juiz espanhol Baltasar Garzón -o mesmo que tentou levar o ex-ditador chileno Augusto Pinochet para ser julgado na Espanha-, que solicitou ao Parlamento europeu permissão para processá-lo pelo suposto caso de corrupção da Tele 5. Mas Garzón está longe de Roma, e, na "cidade eterna", Berlusconi recebeu uma bênção decisiva: a do Vaticano.

   Tudo indica que apenas um imprevisto grave poderá atrapalhar esse líder populista que se autoproclamou "o melhor estadista da Europa e do mundo".

   Em 1977, quando a carreira empresarial de Berlusconi alçou vôo -primeiro como construtor de prédios de apartamentos e de supermercados-, ninguém imaginava que a verdadeira ambição desse homem de negócios de 64 anos fosse a política.

   Quando, em 1993, Berlusconi decidiu que tinha que participar da batalha eleitoral, fundando um partido -o Força Itália-, analistas políticos interpretaram a decisão como uma tentativa desesperada de salvar seu império da mídia, erguido à sombra do líder socialista já morto Bettino Craxi.

   Mas o sucesso avassalador que o levou ao governo no ano seguinte deixou claro que sua fórmula pragmática funcionou numa paisagem política desacreditada por escândalos de corrupção e fraude.

   A primeira experiência de Berlusconi no governo durou sete meses e foi um desastre. Berlusconi analisou os erros e voltou com um partido mais estruturado -se bem que, como explica um de seus colaboradores, o professor Giuliano Urbani, "ele ainda tem uma estrutura muito pequena -não é preciso muito partido quando se tem a televisão".

   Berlusconi percorre praças públicas e lota auditórios com um livro na mão, "L'Italia chi ho in mente" (A Itália que tenho em mente), a síntese do pensamento político desse empresário para quem a Coca-Cola é o maior símbolo de liberdade que existe.

   Porta-voz de um liberalismo que, segundo Urbani, a Itália nunca antes teve, o "Cavaleiro" se propõe a simplificar ao máximo a complexa trama de leis civis e penais italianas. No ano passado, num debate sobre segurança dos cidadãos, Berlusconi teceu duras críticas aos juízes que têm ambições políticas e propôs reduzir os delitos pela metade para resolver os problemas da Justiça italiana.

   No plano fiscal, a fórmula é a mesma. Em seu programa, Berlusconi propõe reduzir impostos em até 10% no prazo de dez anos.

   É um programa populista demais, na opinião do comissário europeu da Concorrência, Mario Monti, que se viu obrigado a pedir, diplomaticamente, um pouco de realismo -mesmo porque, se adotasse medida, a Itália se arriscaria a sair da zona do euro. (LOLA GALAN, DO "EL PAÍS", EM ROMA. Tradução de Clara Allain - Folha de S.Paulo)

UE não deve impor sanções à Itália

   O presidente da Comissão Européia, Romano Prodi, afirmou, no início deste mês, que a União Européia (UE) não deve impor sanções à Itália se partidos de extrema direita fizerem parte de seu próximo governo e que qualquer administração européia deve ser julgada por seus atos, não por sua orientação política.

   As últimas pesquisas de intenção de voto apontam a coalizão de centro-direita, liderada pelo megaempresário Silvio Berlusconi, como favorita na eleição legislativa de 13 de maio. Fazem parte dessa coalizão o partido pós-fascista Aliança Nacional e a Liga Norte, do controverso líder de extrema direita Umberto Bossi.

   Há pouco mais de duas semanas, o ministro das Relações Exteriores da Bélgica, Louis Michel, atraiu a ira de conservadores e radicais italianos ao sugerir que a UE possa tomar medidas contra Roma caso a coalizão de Berlusconi conquiste a vitória eleitoral.

   "A declaração do chanceler belga foi, no mínimo, precipitada. Estamos a pouco menos de um mês do pleito, mas a campanha nem bem começou. Quanto a Prodi, não creio que o fato de que ele seja italiano o tenha influenciado. O ponto central da questão é o exemplo austríaco", explicou à Folha Anne-Marie Le Gloannec, especialista em UE e diretora do Centro Marc Bloch, um instituto franco-alemão situado na Universidade Humboldt, em Berlim.

   A UE aprendeu uma importante lição no ano passado, quando impôs sanções à Áustria em razão da entrada do Partido da Liberdade, do líder de extrema direita Joerg Haider, na coalizão governamental. À época, Bruxelas argumentou que alguns comentários de Haider sobre minorias raciais eram contrários aos princípios fundamentais da UE.

   As sanções duraram poucos meses e foram suspensas depois que o parecer de uma comissão de "sábios", que havia visitado a Áustria para observar como se comportava o governo liderado por Wolfgang Schuessel (do conservador Partido do Povo), deu conta de um crescente sentimento antieuropeu no país.

   Além disso, Bruxelas sabia que Viena poderia bloquear o funcionamento das instituições européias ao impor vetos retaliatórios consecutivos em várias delas.

Reuniões em Verona

   Bossi e Haider tiveram encontros políticos em Verona, no norte da Itália, em outubro de 1999. Contudo o italiano tem tentado manter distância de certas declarações feitas pelo austríaco.

   Haider, que já fez comentários simpáticos ao nazismo e campanha contra estrangeiros e contra a expansão da UE, anunciou, há duas semanas, a formação de uma coalizão de partidos conservadores (que, provavelmente, atrairá apenas os mais radicais) para concorrer a cadeiras no Parlamento Europeu, em 2004.

   Bossi colocou seus aliados da direita italiana numa situação delicada recentemente, quando propôs a construção de um muro de 260 km de comprimento entre a fronteira nordeste da Itália e a Eslovênia, numa medida para combater a entrada de imigrantes ilegais vindos dos Bálcãs. Essa região enfrenta uma nova onda de violência entre comunidades albanesas e eslavas.

   "Bossi não é tão radical quanto Haider, porém também é perigoso, pois defende algumas idéias contrárias aos princípios básicos da UE, que, aliás, também são válidos para qualquer país democrático", afirmou Le Gloannec.

   Michel reiterou, em entrevista à revista austríaca "Profil", publicada há duas semanas, sua posição em favor de sanções contra a Itália em caso de vitória da coalizão de Berlusconi. Ele chegou a declarar que Bossi é um extremista que defende idéias fascistas e "estimula o ódio contra minorias".

   No entanto Prodi, que foi premiê da Itália de abril de 1996 a outubro de 1998, mantém-se em compasso de espera. "Baseamos nosso julgamento em atos, não na configuração política de quem ganha as eleições", afirmou ao jornal milanês "Corriere della Sera".
"As tarefas da UE são a de observar o comportamento dos governos e a de julgar seus atos. Devemos garantir o respeito aos princípios fundamentais contidos na Carta Européia de Direitos", acrescentou Prodi.

   Bossi participou do governo de Berlusconi em 1994, porém provocou sua queda sete meses depois ao deixar a coalizão em razão de disputas sobre a reforma do sistema previdenciário. Ora, esse é um dos problemas mais urgentes que o próximo governo italiano terá de enfrentar. (MÁRCIO SENNE DE MORAES, FSP)

Esquerdas não chegam a acordo para apoio mútuo

   Em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto, o candidato da coalizão governista de centro-esquerda a premiê da Itália, Francesco Rutelli, falhou em sua primeira tentativa de formar uma "frente antifascista" para derrotar o empresário e ex-premiê Silvio Berlusconi nas eleições de 13 de maio.

   O líder comunista radical Fausto Bertinotti afirmou que seu partido não formaria um pacto com a centro-esquerda. Rutelli, ex-prefeito de Roma, havia se encontrado com líderes dos partidos de seu bloco no início da semana passada para analisar um possível pacto com o Partido da Refundação Comunista, de Bertinotti.

   A centro-esquerda havia proposto retirar suas candidaturas em locais onde a Refundação tivesse mais chances de vitória, em troca do mesmo procedimento onde os candidatos do bloco governista estivessem melhor.

   Para Bertinotti, porém, as ofertas de Rutelli não atendiam suas demandas. "Aceitar agora seria desestabilizador. As pessoas não acreditariam mais em nós." (FSP)

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