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ROMA - As questões políticas da máfia siciliana
continuam a ser resolvidas silenciosamente. Em silêncio, a velha Cosa Nostra escolheu o
sucessor dos desventurados Salvatore (Totò) Riina, há oito anos trancado num
cárcere de máxima segurança, e Bernardo Provenzano, há 38 anos procurado por todas as
polícias da Europa, nos últimos dois anos muito doente dos rins. A escolha recaiu sobre
um homem jovem e fascinante, de cara e roupas bonitas. Seu nome não poderia ser mais
adequado e sugestivo: Matteo Messina Denaro, a unidade monetária dos antigos romanos.
Tratado ainda por seus mais íntimos amigos como ''u siccu'', que em dialeto
siciliano significa o magro. No momento, o único dos grandes mafiosos que não o teme nem
lhe beija a mão é o velho Bernardo Provenzano - último dos grandes da famosa cidade de
Corleone, ao qual Matteo Denaro ouve com a reverência que se deve a um mestre quase
aposentado.
Na reportagem de capa em que o semanário romano LïEspresso apresentou-o neste fim
de semana, o currículo de Matteo Denaro facilita a compreensão de sua subida ao poder.
Siciliano de Castelveltrano, província de Trapani, nascido em 26 de abril de 1962, Matteo
Denaro foi incluído por Totò Riina no início dos anos 90 no grupo dos ''Supercosa''
da máfia siciliana, formado por ''homens de honra'' considerados especiais, quando ainda
não tinha 30 anos de idade. Até aquele dia, em Trapani era conhecido como um bem
sucedido playboy de província, que usava sempre um foulard de seda no pescoço, um
Rolex Daytona no pulso, óculos ray-ban com lentes fumê que disfarçam ainda mais o
discreto estrabismo com que nasceu e um Porsche conversível.
Menino - Ao contrário da
maioria dos chefes mafiosos das antigas gerações, Matteo Denaro não tem as mãos
calosas de quem trabalhou no campo. Nem por isso se pense que sua vida foi sempre uma
festa. Era um menino que usava suas primeiras calças compridas quando começou a combater
suas primeiras guerras de máfia. Aos 14 anos já atirava. Aos 18 matava. Aos 31 punha
bombas no Norte, primeiro em Roma, contra o jornalista Maurizio Costanzo, depois em
Florença e Milão, onde tentou destruir museus e monumentos artísticos. ''A frieza com
que executou todos esses atos criminosos'' - na opinião do magistrado Pierluigi Vigna, o
procurador que coordena toda ação judiciária e policial antimáfia na Itália -
''demonstra que Matteo Denaro tem capacidade para impor-se como líder de uma
organização criminosa como a Cosa Nostra''.
Há oito anos Denaro vem fugindo da
polícia, que tem a obrigação de conduzi-lo a um cárcere para cumprir sentença de
prisão perpétua pelos crimes monstruosos que cometeu em diversas cidades da Itália.
Como os que causaram 10 mortos, dezenas de feridos e danos enormes ao patrimônio
artístico em Roma, Florença e Milão. Ou o assassinato na Sicília de Vincenzo Milazzo,
chefe de outra família mafiosa, cuja mulher, Antonella Bonomo, grávida de três meses,
foi estrangulada.
Mulherengo - Vincenzo Sinacori,
ex-companheiro e cúmplice do novo chefe dos chefes, hoje um mafioso arrependido que
colabora com a Justiça, descreve Matteo Denaro como ''um femminaro [mulherengo]que
não esconde seu ponto fraco: o amor incontrolável que sente pelas mulheres e pelos
automóveis velozes''. A esperança dos agentes da anti-máfia italiana é vê-lo
cometendo um erro irreparável por culpa de um desses amores.
Além da ordem de prisão para cumprir a condenação à prisão perpétua, existem nove
outros mandados de captura expedidos contra Matteo Denaro, que os investigadores das
polícias sicilianas acreditam ser responsável - como executor ou mandante - por 50
assassinatos. (Araujo Netto, Jornal do Brasil) |