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VAIVÉM
A prosa e o teatro de Luigi Pirandello (1867-1936) se alimentam mutuamente, como
mostram novelas e romance, lançados este mês no Brasil, e cartas inéditas, que ainda
estão sendo reunidas na Itália
Pirandello, famoso por inovações
teatrais, também escrevia prosa sobre busca da identidade
As livrarias brasileiras tornam-se, este mês, palco para Luigi
Pirandello (1867-1936). O que se apresenta, no entanto, não é nenhuma de
suas famosas peças, como "Seis Personagens à Procura de um Autor"
(1921).
A crise de identidade, a distinção entre sanidade e loucura
- questões fundamentais da obra do autor italiano- já estavam presentes na prosa de
Pirandello antes de sua estréia teatral, como mostra a reunião de novelas "O Velho
Deus", que a Berlendis & Vertecchia prevê lançar no dia 11.
O livro, que abre a coleção Letras Italianas, é o primeiro
tomo dos 16 de "Novelas para um Ano", o projeto mais extenso do autor. A editora
pretende, nos próximos cinco anos, verter para o português toda a obra.
A intenção do escritor era reunir, em um só volume, tantas
novelas -narrativas situadas entre o conto e o romance- quanto os dias do ano. Seu editor
propôs a divisão em 24 partes. Entre 1922 e 1936, o autor planejou 15 tomos. O 16º foi
lançado postumamente, a partir de textos que ele deixou.
"O Velho Deus" traz versões reescritas por
Pirandello de originais de 1894 a 1903. Grande parte das 240 narrativas -total que
Pirandello logrou alcançar-, porém, eram inéditas quando "Novelas para um
Ano" saiu na Itália.
Se Pirandello mudou os rumos do teatro, para Bruno Berlendis
de Carvalho, tradutor da obra, "as novelas tiveram um papel decisivo nos rumos do
teatro pirandelliano". "Ele usava a narrativa como laboratório", diz.
O contrário também é verdadeiro. É o que mostra "Um,
Nenhum e Cem Mil", último romance de Pirandello, que sai pela coleção Prosa do
Mundo, da Cosac & Naify, no dia 23. Levou cerca de 15 anos sendo escrito, e foi
mudando à medida que a experiência teatral do autor se intensificava.
Samuel Titan, organizador da coleção, vê em "Um,
Nenhum e Cem Mil" "o momento de máxima expansão dos temas" de Pirandello.
Ele o compara ao romance mais famoso do autor, "O Falecido Mattia Pascal", de
1904, "um livro ainda do século 19, cuja técnica não faz pensar em transformação
literária como este, que é um romance modernista".
A relação de Pirandello com o teatro também ganhará nova
luz em breve, na Itália. O jornalista Andrea Pirandello, 76, neto do autor, está
organizando a correspondência trocada entre seu avô e seu primogênito, Stefano, durante
a Primeira Guerra, quando o filho foi para o front. "No começo, a dramaturgia era
uma atividade lateral, da qual, nas primeiras cartas, ele quase se justifica. Sua primeira
peça foi uma comédia, encomendada pelo ator siciliano Angelo Musco", disse à
Folha.
Tão logo encontre editor italiano, a correspondência sairá aqui pela Berlendis &
Vertecchia. Leia ao lado trecho de carta inédita, cedida por Andrea Pirandello.
(Francesca Angiolillo, Folha de S. Paulo) |