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A busca pela receita para uma
vida longa é tão antiga quanta a própria Humanidade. Inspirados pela
longevidade dos habitantes de vilarejos isolados da ilha da Sardenha, na
Itália, uma equipe internacional de demógrafos e geneticistas começa a
apostar que entre os ingredientes para viver mais de 100 anos podem
estar vinho, espaguete e uma peculiar seleção de genes.
A inspiração para a suposição tem nome. Chama-se Antonio Todde, que em
22 de janeiro completou 112 anos, tornando-se, segundo o "Guinness Book of
Records", o homem mais velho do mundo. Mas Todde sozinho não motivou a atenção da
ciência. O fato é que a Sardenha abriga o maior número comprovado de homens
centenários.
Segundo o Instituto Nacional de Pesquisa do Envelhecimento dos Estados
Unidos, a proporção de mulheres para homens centenários é de cinco para um. Mulheres
vivem mais supostamente por fatores que variam de redução de nível de estresse, menor
exposição a atividades perigosas, além de certa proteção natural.
Todavia, na Sardenha, a realidade é outra. Lá as mulheres vivem
bastante, cerca de 80 anos. Mas os homens centenários são mais freqüentes do que em
qualquer outra parte do mundo. A proporção mulheres-homens de centenários é de dois
para um.
Exemplo disso são os irmãos Brundu, da vila de Erula, não muito longe
da terra natal de Todde, o vilarejo de Tiana, escondido no meio das montanhas sardas.
Pietro e Antonio Brundu têm, respectivamente, 103 e 101 anos.
O que mais intriga especialistas em centenários como o demógrafo Claudio
Franceschi, da Universidade de Bolonha (curiosamente a mais antiga universidade do mundo),
é o fato de Todde, os Brundu e todos os demais anciãos da Sardenha estarem longe do
perfil de vida saudável esperado em gente tão velha.
Os Brundu, por exemplo, são fumantes inveterados. Vinho e generosas
refeições a base de massa são comuns à mesa de todos os centenários da Sardenha. Suas
vilazinhas montanhosas são pacatas, mas a história de suas vidas inclui a participação
na juventude em uma ou duas guerras mundiais.
Antonio Brundu gosta de lembrar as aventuras do tempo em que era policial,
há 50 anos. Tanto ele quanto Todde, lúcidos e com saúde razoável para a idade,
costumam atribuir a longevidade à dieta de massa regada a vinho e ao otimismo. Os
cientistas lembram, todavia, que só uma ínfima parcela da Humanidade, incluídos aí os
otimistas, vive o suficiente para soprar as velas do bolo de aniversário de 100 anos.
Por conta disso, Franceschi e James Vaupel, diretor do Instituto para
Pesquisa Demográfica do Instituto Max Planck, em Rostock, na Alemanha, acreditam que um
certo perfil genético pode estar por trás dos matusaléns da Sardenha. Vaupel imagina
que ao estudar o que fez Todde e seus compatriotas viverem tanto pode ajudar mais gente a
viver mais.
"Centenários são pioneiros das fronteiras da sobrevivência.
Estudando esses pioneiros podemos descobrir como chegaram à idade tão extrema, talvez
ajudando outras pessoas a viver mais também", disse Vaupel à revista americana
"Science".
Outros lugares, como cidadezinhas dos Andes e a ilha de Okinawa, no
Japão, são conhecidos por terem razoável número de centenários. Todavia, os registros
oficiais são falhos e é impossível ter certeza sobre os dados. Na ilha mediterrânea,
há registros confiáveis desde o século XVII.
Embora acredite que exista um forte componente ambiental, isto é, a vida
na bonita e tranqüila Sardenha, Vaupel aposta que certas variações genéticas podem ter
contribuído para a longevidade dos homens sardos.
Opinião semelhante têm Gianni Pes e Ciriaco Carru, da Universidade de
Sassari, que fizeram um levantamento do estilo de vida de cem centenários da Sardenha.
Um dos primeiros a estudar os matusaléns da Sardenha foi Mario Pirastu,
diretor do Instituto de Genética Molecular, em Algero, Itália, observa:
- Não sabemos se a mesma variante genética que teoricamente ajudou Todde
e seus vizinhos a viver mais também será útil para outras pessoas. Possivelmente não.
De qualquer forma, o estudo da população da Sardenha nos ensinará muito sobre o
envelhecimento - diz Pirastu, por e-mail.
O cientista centra seus estudos na cidade sarda de Talana, cujos 1.200
habitantes, entre eles grande número de idosos, terão seu perfil genético estabelecido.
(Ana Lucia Azevedo, O Globo) |