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Centenários da Sardenha intrigam cientistas 

18/04/2001

 

 

   A busca pela receita para uma vida longa é tão antiga quanta a própria Humanidade. Inspirados pela longevidade dos habitantes de vilarejos isolados da ilha da Sardenha, na Itália, uma equipe internacional de demógrafos e geneticistas começa a apostar que entre os ingredientes para viver mais de 100 anos podem estar vinho, espaguete e uma peculiar seleção de genes.

   A inspiração para a suposição tem nome. Chama-se Antonio Todde, que em 22 de janeiro completou 112 anos, tornando-se, segundo o "Guinness Book of Records", o homem mais velho do mundo. Mas Todde sozinho não motivou a atenção da ciência. O fato é que a Sardenha abriga o maior número comprovado de homens centenários.

   Segundo o Instituto Nacional de Pesquisa do Envelhecimento dos Estados Unidos, a proporção de mulheres para homens centenários é de cinco para um. Mulheres vivem mais supostamente por fatores que variam de redução de nível de estresse, menor exposição a atividades perigosas, além de certa proteção natural.

   Todavia, na Sardenha, a realidade é outra. Lá as mulheres vivem bastante, cerca de 80 anos. Mas os homens centenários são mais freqüentes do que em qualquer outra parte do mundo. A proporção mulheres-homens de centenários é de dois para um.

   Exemplo disso são os irmãos Brundu, da vila de Erula, não muito longe da terra natal de Todde, o vilarejo de Tiana, escondido no meio das montanhas sardas. Pietro e Antonio Brundu têm, respectivamente, 103 e 101 anos.

   O que mais intriga especialistas em centenários como o demógrafo Claudio Franceschi, da Universidade de Bolonha (curiosamente a mais antiga universidade do mundo), é o fato de Todde, os Brundu e todos os demais anciãos da Sardenha estarem longe do perfil de vida saudável esperado em gente tão velha.

   Os Brundu, por exemplo, são fumantes inveterados. Vinho e generosas refeições a base de massa são comuns à mesa de todos os centenários da Sardenha. Suas vilazinhas montanhosas são pacatas, mas a história de suas vidas inclui a participação na juventude em uma ou duas guerras mundiais.

   Antonio Brundu gosta de lembrar as aventuras do tempo em que era policial, há 50 anos. Tanto ele quanto Todde, lúcidos e com saúde razoável para a idade, costumam atribuir a longevidade à dieta de massa regada a vinho e ao otimismo. Os cientistas lembram, todavia, que só uma ínfima parcela da Humanidade, incluídos aí os otimistas, vive o suficiente para soprar as velas do bolo de aniversário de 100 anos.

   Por conta disso, Franceschi e James Vaupel, diretor do Instituto para Pesquisa Demográfica do Instituto Max Planck, em Rostock, na Alemanha, acreditam que um certo perfil genético pode estar por trás dos matusaléns da Sardenha. Vaupel imagina que ao estudar o que fez Todde e seus compatriotas viverem tanto pode ajudar mais gente a viver mais.

   "Centenários são pioneiros das fronteiras da sobrevivência. Estudando esses pioneiros podemos descobrir como chegaram à idade tão extrema, talvez ajudando outras pessoas a viver mais também", disse Vaupel à revista americana "Science".

   Outros lugares, como cidadezinhas dos Andes e a ilha de Okinawa, no Japão, são conhecidos por terem razoável número de centenários. Todavia, os registros oficiais são falhos e é impossível ter certeza sobre os dados. Na ilha mediterrânea, há registros confiáveis desde o século XVII.

   Embora acredite que exista um forte componente ambiental, isto é, a vida na bonita e tranqüila Sardenha, Vaupel aposta que certas variações genéticas podem ter contribuído para a longevidade dos homens sardos.

   Opinião semelhante têm Gianni Pes e Ciriaco Carru, da Universidade de Sassari, que fizeram um levantamento do estilo de vida de cem centenários da Sardenha.

   Um dos primeiros a estudar os matusaléns da Sardenha foi Mario Pirastu, diretor do Instituto de Genética Molecular, em Algero, Itália, observa:

   - Não sabemos se a mesma variante genética que teoricamente ajudou Todde e seus vizinhos a viver mais também será útil para outras pessoas. Possivelmente não. De qualquer forma, o estudo da população da Sardenha nos ensinará muito sobre o envelhecimento - diz Pirastu, por e-mail.

   O cientista centra seus estudos na cidade sarda de Talana, cujos 1.200 habitantes, entre eles grande número de idosos, terão seu perfil genético estabelecido. (Ana Lucia Azevedo, O Globo)

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