O 3.º Festival Internacional de
Cinema (FIC) vai transformar Brasília, de hoje até o dia 6, em vistosa vitrine do cinema
italiano. Além de exibir meia centena de títulos peninsulares, o festival brasiliense
escolheu o ator Vittorio Gassman (1922-2000) como seu grande homenageado.
Gassman, que formou com Ugo Tognazzi e Marcello Mastroianni a
"santíssima trindade" do cinema italiano, será lembrado com a exibição de
oito de seus mais festejados filmes e com o média-metragem La Voce a te Dovuta, dirigido
por seu filho Jacobo. O jovem Gassman, de 20 anos, estará em Brasília para acompanhar a
retrospectiva e conversar com o público sobre a trajetória artística do pai.
O rapaz deve reconhecer, com fez no Festival de Havana, o empenho dos
latino-americanos em preservar a memória do eterno Brancaleone. E, por contraste,
reafirmar protesto que ecoou na Itália, no ano passado. Durante o Festival de Veneza, a
família Gassman mostrou sua indignação diante do pouco-caso com a memória do grande
ator.
Todas as honras do festival veneziano foram canalizadas para a figura de
Clint Eastwood (mostra retrospectiva e Leão de Ouro especial). Para Vittorio Gassman,
morto dois meses antes (no dia 28 de junho, aos 77 anos), o espaço foi reduzido e
modestíssimo. Exibiu-se o média-metragem de Jacobo em ignorada sessão vespertina, para
a qual não foram convidados familiares, nem amigos. A grita ecoou na imprensa italiana e
muitos cineastas, entre eles Ettore Scola, engrossaram o coro dos descontentes.
Em dezembro, o Festival de Havana dedicou espaço nobre à memória de
Gassman.
Jacobo, em nome da família e in loco, agradeceu o carinho dos
latino-americanos pela memória de seu pai e lamentou, mais uma vez, a indelicadeza dos
organizadores do Festival de Veneza.
O jovem Gassman tem toda razão em reconhecer o empenho de países da
América Latina (Argentina, Cuba e Brasil, em especial) na preservação da memória de
seu pai. Quem viu os filmes Lista de Espera, do cubano Juan Carlos Tabio, deparou-se com
Jorge Perugorría em explícita homenagem ao Gassman de Perfume de Mulher. Já em Plata
Quemada, do argentino Marcelo Piñeyro, o filme homenageado é Il Sorpasso (Aquele Que
Sabe Viver). Nesse clássico da comédia doce-amarga italiana, o experiente Gassman
uniu-se ao jovem aprendiz Jean-Louis Trintignant.
No Brasil, nenhum filme recente cita Gassman (Dias Gomes, em suas novelas,
mostrou-se fervoroso admirador da comédia italiana). Porém, a oportuna opção do
festival brasiliense pela exibição de seus principais filmes - Arroz Amargo, Os Eternos
Desconhecidos, Il Sorpasso, Crime em Monte Carlo, O Incrível Exército de Brancaleone,
Perfume de Mulher, Nós Que Nos Amávamos tanto e A Família -- demonstra o culto
brasileiro à memória do ator.
A Itália marcará, ainda, forte presença no FIC-Brasília com a mostra
Retrato de Autor, produzida pela dupla Valentina Pacarelli & Cristiano Bortone. Quem
assistir aos 20 títulos dessa série (televisiva) vai encharcar-se de informação sobre
o cinema da terra de Pastrone & Rosselini. Afinal, os documentários promovem
encontros de jovens realizadores com veteranos da grandeza de Mario Monicceli (encontro
com Cristina Comencini), Alberto Lattuada (Danielle Luchetti), Dino Risi (Sandro Baldoni),
Ettore Scola (Enzo Monteleone), Gillo Pontecorvo (Ricki Tognazzi), Ermano Olmi (Giacomo
Campiotti), Giuseppe de Sanctis (Carlo Mazzacurati), Irmãos Taviani (Guido Chiesa), Lina
Wertmuller (Paolo Virzi), Franceso Rosi (Stefano Incerti), Marco Bellochio (Francesa
Archibuggi), entre outros.
Um caso chama atenção nessa série da produtora Orisa Filmes: o mais
badalado dos cineastas italianos da atualidade, Giuseppe Tornatore (que ganhou o Oscar com
o cult planetário, Cinema Paradiso) tomou-se de humildade e, como um jovem estreante, foi
ao encontro do veterano Riccardo Freda (nascido em 1909), prolífico e eclético diretor
de filmes de gladiadores, policiais, fantásticos, melodramas e até westerns-espaguete.
Detalhe: Freda filmou O Caçula do Barulho, no Brasil, tendo Anselmo Duarte como galã
(isso, em 1949).
O FIC-Brasília, no entanto, não quis Tornatore em papel de mero
coadjuvante.
Por isso, programou o documentário Um Sonho Sonhado na Sicília, de Mark
Evans, que, ao longo de 52 minutos, conta a história do diretor siciliano.
Tornatore conheceu a fama já em seu segundo longa-metragem (Cinema
Paradiso, 1990) e, desde então, nunca mais parou de filmar (Estamos Todos Bem, Sempre aos
Domingos, Uma Simples Formalidade, O Homem das Estrelas, Lo Schermo a Tre Punte, A Lenda
do Pianista do Mar e, agora, Malena, este, programado para a mostra Panorama
Internacional).
Completam a maratona italiana em Brasília, uma mostra de curtas-metragens
e filmes como o delicado (e imperdível) Prefiro o Barulho do Mar (Mimmo Calopresti), o
simpatissíssimo Pães e Tulipas (Silvio Soldini), os inéditos No Princípio, as
Calcinhas (Anna Negri) e Rádio Flecha (Luciano Ligabue), mais Plácido Rizzotto (Pasquale
Scimeca) e Animais Atravessando a Estrada (Isabella Sandri), estes dois como concorrentes
na disputa pelo Trofeu Buriti (melhor filme de jovem realizador) atribuído por júri
oficial.
Já o público poderá votar em qualquer um dos filmes exibidos no
festival, sejam de estreantes ou veteranos. Só estão fora da disputa os títulos da
Retrospectiva Gassman. Mas aí já seria covardia.
Memórias Póstumas, terceiro longa de André Klotzel, é o convidado de
honra da noite inaugural do 3.º FIC-Brasília. O filme, que participou do Festival de
Berlim, baseia-se no romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e
tem Reginaldo Faria e Sônia Braga no elenco. O curta gaúcho O Branco, de Liliana
Sulzbach, completa a noite de abertura.
A representação brasileira compõe-se com os ficcionais Adágio ao Sol,
do veterano Xavier de Oliveira (protagonizado e produzido por Rossana Ghesa), O Casamento
de Louise, de Betse de Paula, e Tônica Dominante, de Lina Chamie.
No terreno do documentário, os escolhidos são Barra 68, de Vladimir
Carvalho; Anésia, um Vôo no Tempo, de Ludmila Ferolla; 2000 Nordestes, de Vicente Amorim
e David França Mendes, e Malagrida, de Renato Barbieri.
No sábado, André Klotzel, Vladimir Carvalho, Xavier de Oliveira (o
veterano diretor de Marcelo Zona Sul), Ludmila Ferolla, Lina Chamie e Renato Barbieri vão
debater o tema A Retomada do Cinema Brasileiro. As mesas de debate prosseguirão com temas
provocadores. O realizador português João Pedro Rodrigues deve enfrentar perguntas
incômodas da platéia que assistir ao longa O Fantasma. Exibido na mostra competitiva de
Veneza, o filme foi execrado pela maioria (que o arremessou na vala comum do
filme-choque).
Poucos foram os que apreciaram seu caráter transgressor (o filme mostra
cenas explícitas de sexo homossexual masculino).
Os devotos de filmes "radicais" poderão prestigiar a mostra do
realizador japonês Shinya Tsukamoto, criador do Kaiju Theater (Teatro dos Monstros
Marinhos) e de filmes embalados em clima cyber punk (como O Homem de Ferro).
Ele vai debater seu projeto cinematográfico com Tânia Ribeiro e João
Jorge de Carvalho, professores da UnB.
Os amantes do cinema russo têm encontro marcado com o realizador
Alexander Zeldovitch, de 42 anos. Ele estará no festival para mostrar Moscou, seu segundo
longa, e debater Os Novos Caminhos do Cinema na ex-URSS. Quem quiser rever a história do
cinema soviético para chegar embasado ao debate poderá ler o Dossiê back to the USSR,
que a revista Positif (n.º 480, fevereiro/2001), combativa rival da Cahiers du Cinéma,
preparou. São 32 páginas que repassam filmes de Koulechov, Pudovkin, Eisentein,
Alexandrov, Dovjenko, Medevedkine, Nikolai Ekk, Youli Raizman, Mikail Romm, Kalatozov,
Boris Barnet, Paradjanov, entre outros. Tudo acompanhado de excelente dossiê
fotográfico.
Um debate sobre o cinema alemão contemporâneo (com o cineasta Sebastian
Schipper) e outro sobre o cinema independente nos EUA (com o cineasta Stephen Szlarski)
fecham o espaço que o festival dedicou à reflexão cinematográfica. (O Estado de S.
Paulo)