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Festival Internacional de Brasília lembra Gassman 

27/04/2001

 

 

Em sua 3.ª edição, evento vai homenagear o cineasta com exibição de oito de suas obras

MARIA DO ROSÁRIO CAETANO

   O 3.º Festival Internacional de Cinema (FIC) vai transformar Brasília, de hoje até o dia 6, em vistosa vitrine do cinema italiano. Além de exibir meia centena de títulos peninsulares, o festival brasiliense escolheu o ator Vittorio Gassman (1922-2000) como seu grande homenageado.

   Gassman, que formou com Ugo Tognazzi e Marcello Mastroianni a "santíssima trindade" do cinema italiano, será lembrado com a exibição de oito de seus mais festejados filmes e com o média-metragem La Voce a te Dovuta, dirigido por seu filho Jacobo. O jovem Gassman, de 20 anos, estará em Brasília para acompanhar a retrospectiva e conversar com o público sobre a trajetória artística do pai.

   O rapaz deve reconhecer, com fez no Festival de Havana, o empenho dos latino-americanos em preservar a memória do eterno Brancaleone. E, por contraste, reafirmar protesto que ecoou na Itália, no ano passado. Durante o Festival de Veneza, a família Gassman mostrou sua indignação diante do pouco-caso com a memória do grande ator.

   Todas as honras do festival veneziano foram canalizadas para a figura de Clint Eastwood (mostra retrospectiva e Leão de Ouro especial). Para Vittorio Gassman, morto dois meses antes (no dia 28 de junho, aos 77 anos), o espaço foi reduzido e modestíssimo. Exibiu-se o média-metragem de Jacobo em ignorada sessão vespertina, para a qual não foram convidados familiares, nem amigos. A grita ecoou na imprensa italiana e muitos cineastas, entre eles Ettore Scola, engrossaram o coro dos descontentes.

   Em dezembro, o Festival de Havana dedicou espaço nobre à memória de Gassman.

   Jacobo, em nome da família e in loco, agradeceu o carinho dos latino-americanos pela memória de seu pai e lamentou, mais uma vez, a indelicadeza dos organizadores do Festival de Veneza.

   O jovem Gassman tem toda razão em reconhecer o empenho de países da América Latina (Argentina, Cuba e Brasil, em especial) na preservação da memória de seu pai. Quem viu os filmes Lista de Espera, do cubano Juan Carlos Tabio, deparou-se com Jorge Perugorría em explícita homenagem ao Gassman de Perfume de Mulher. Já em Plata Quemada, do argentino Marcelo Piñeyro, o filme homenageado é Il Sorpasso (Aquele Que Sabe Viver). Nesse clássico da comédia doce-amarga italiana, o experiente Gassman uniu-se ao jovem aprendiz Jean-Louis Trintignant.

   No Brasil, nenhum filme recente cita Gassman (Dias Gomes, em suas novelas, mostrou-se fervoroso admirador da comédia italiana). Porém, a oportuna opção do festival brasiliense pela exibição de seus principais filmes - Arroz Amargo, Os Eternos Desconhecidos, Il Sorpasso, Crime em Monte Carlo, O Incrível Exército de Brancaleone, Perfume de Mulher, Nós Que Nos Amávamos tanto e A Família -- demonstra o culto brasileiro à memória do ator.

   A Itália marcará, ainda, forte presença no FIC-Brasília com a mostra Retrato de Autor, produzida pela dupla Valentina Pacarelli & Cristiano Bortone. Quem assistir aos 20 títulos dessa série (televisiva) vai encharcar-se de informação sobre o cinema da terra de Pastrone & Rosselini. Afinal, os documentários promovem encontros de jovens realizadores com veteranos da grandeza de Mario Monicceli (encontro com Cristina Comencini), Alberto Lattuada (Danielle Luchetti), Dino Risi (Sandro Baldoni), Ettore Scola (Enzo Monteleone), Gillo Pontecorvo (Ricki Tognazzi), Ermano Olmi (Giacomo Campiotti), Giuseppe de Sanctis (Carlo Mazzacurati), Irmãos Taviani (Guido Chiesa), Lina Wertmuller (Paolo Virzi), Franceso Rosi (Stefano Incerti), Marco Bellochio (Francesa Archibuggi), entre outros.

   Um caso chama atenção nessa série da produtora Orisa Filmes: o mais badalado dos cineastas italianos da atualidade, Giuseppe Tornatore (que ganhou o Oscar com o cult planetário, Cinema Paradiso) tomou-se de humildade e, como um jovem estreante, foi ao encontro do veterano Riccardo Freda (nascido em 1909), prolífico e eclético diretor de filmes de gladiadores, policiais, fantásticos, melodramas e até westerns-espaguete. Detalhe: Freda filmou O Caçula do Barulho, no Brasil, tendo Anselmo Duarte como galã (isso, em 1949).

   O FIC-Brasília, no entanto, não quis Tornatore em papel de mero coadjuvante.

   Por isso, programou o documentário Um Sonho Sonhado na Sicília, de Mark Evans, que, ao longo de 52 minutos, conta a história do diretor siciliano.

   Tornatore conheceu a fama já em seu segundo longa-metragem (Cinema Paradiso, 1990) e, desde então, nunca mais parou de filmar (Estamos Todos Bem, Sempre aos Domingos, Uma Simples Formalidade, O Homem das Estrelas, Lo Schermo a Tre Punte, A Lenda do Pianista do Mar e, agora, Malena, este, programado para a mostra Panorama Internacional).

   Completam a maratona italiana em Brasília, uma mostra de curtas-metragens e filmes como o delicado (e imperdível) Prefiro o Barulho do Mar (Mimmo Calopresti), o simpatissíssimo Pães e Tulipas (Silvio Soldini), os inéditos No Princípio, as Calcinhas (Anna Negri) e Rádio Flecha (Luciano Ligabue), mais Plácido Rizzotto (Pasquale Scimeca) e Animais Atravessando a Estrada (Isabella Sandri), estes dois como concorrentes na disputa pelo Trofeu Buriti (melhor filme de jovem realizador) atribuído por júri oficial.

   Já o público poderá votar em qualquer um dos filmes exibidos no festival, sejam de estreantes ou veteranos. Só estão fora da disputa os títulos da Retrospectiva Gassman. Mas aí já seria covardia.

   Memórias Póstumas, terceiro longa de André Klotzel, é o convidado de honra da noite inaugural do 3.º FIC-Brasília. O filme, que participou do Festival de Berlim, baseia-se no romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e tem Reginaldo Faria e Sônia Braga no elenco. O curta gaúcho O Branco, de Liliana Sulzbach, completa a noite de abertura.

   A representação brasileira compõe-se com os ficcionais Adágio ao Sol, do veterano Xavier de Oliveira (protagonizado e produzido por Rossana Ghesa), O Casamento de Louise, de Betse de Paula, e Tônica Dominante, de Lina Chamie.

   No terreno do documentário, os escolhidos são Barra 68, de Vladimir Carvalho; Anésia, um Vôo no Tempo, de Ludmila Ferolla; 2000 Nordestes, de Vicente Amorim e David França Mendes, e Malagrida, de Renato Barbieri.

   No sábado, André Klotzel, Vladimir Carvalho, Xavier de Oliveira (o veterano diretor de Marcelo Zona Sul), Ludmila Ferolla, Lina Chamie e Renato Barbieri vão debater o tema A Retomada do Cinema Brasileiro. As mesas de debate prosseguirão com temas provocadores. O realizador português João Pedro Rodrigues deve enfrentar perguntas incômodas da platéia que assistir ao longa O Fantasma. Exibido na mostra competitiva de Veneza, o filme foi execrado pela maioria (que o arremessou na vala comum do filme-choque).

   Poucos foram os que apreciaram seu caráter transgressor (o filme mostra cenas explícitas de sexo homossexual masculino).

   Os devotos de filmes "radicais" poderão prestigiar a mostra do realizador japonês Shinya Tsukamoto, criador do Kaiju Theater (Teatro dos Monstros Marinhos) e de filmes embalados em clima cyber punk (como O Homem de Ferro).

   Ele vai debater seu projeto cinematográfico com Tânia Ribeiro e João Jorge de Carvalho, professores da UnB.

   Os amantes do cinema russo têm encontro marcado com o realizador Alexander Zeldovitch, de 42 anos. Ele estará no festival para mostrar Moscou, seu segundo longa, e debater Os Novos Caminhos do Cinema na ex-URSS. Quem quiser rever a história do cinema soviético para chegar embasado ao debate poderá ler o Dossiê back to the USSR, que a revista Positif (n.º 480, fevereiro/2001), combativa rival da Cahiers du Cinéma, preparou. São 32 páginas que repassam filmes de Koulechov, Pudovkin, Eisentein, Alexandrov, Dovjenko, Medevedkine, Nikolai Ekk, Youli Raizman, Mikail Romm, Kalatozov, Boris Barnet, Paradjanov, entre outros. Tudo acompanhado de excelente dossiê fotográfico.

   Um debate sobre o cinema alemão contemporâneo (com o cineasta Sebastian Schipper) e outro sobre o cinema independente nos EUA (com o cineasta Stephen Szlarski) fecham o espaço que o festival dedicou à reflexão cinematográfica. (O Estado de S. Paulo)

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