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Mignone captou a sensualidade e o sabor urbano

07/05/2002

Francisco Mignone: destaque também como professor de regência

 

Criador das 'Valsas de Esquina', ele foi um dos mais prolíficos compositores brasileiros, praticou todos os gêneros da canção de câmara à ópera, e teve sua importância internacionalmente reconhecida com o convite para reger concertos de música brasileira em Berlim, Hamburgo e Roma

LAURO MACHADO COELHO
Especial para o Estado

   As Valsas de Esquina ficaram definitivamente ligadas ao nome de Francisco Mignone. Mas esse filho de imigrante italiano não compôs apenas essas deliciosas peças para piano, em que captura todo o sabor melódico e a sensualidade rítmica do folclore urbano paulista. Mignone foi um dos mais prolíficos compositores brasileiros: da canção de câmara à ópera, praticou todos os gêneros. Nome mais importante da segunda geração nacionalista, ele forma, ao lado de Villa-Lobos e Camargo Guarnieri, a trinca de nossos maiores músicos da primeira metade do século 20.

   O flautista Alferio Mignone, que emigrara em 1896, foi o primeiro professor de música de Francisco Paulo, nascido um ano após sua chegada ao Brasil. Mais tarde, no Conservatório, onde foi colega de Mário de Andrade, Mignone estudou com Savino de Benedictis e Agostino Cantù. Tinha apenas 15 anos quando a valsa Manon ganhou o segundo lugar num concurso de canções populares. No início da carreira, foram muito freqüentes as composições desse gênero, que ele assinava com o pseudônimo de Chico Bororó.

   Vincenzo Ferroni, com quem se aperfeiçoou em Milão, o orientou na composição da primeira ópera, O Contratador de Diamantes, com libreto de Girolamo Bottoni. Nela, Mignone inseriu a Congada, obra instrumental de 1922. essa peça fizera tanto sucesso que, em 1923, Richard Strauss a escolhera como uma das obras brasileiras a incluir no concerto que daria, no Municipal do Rio, com a Filarmônica de Viena, durante a sua excursão pelo Brasil.

   No Contratador - estreado em 20/9/1924 - e nos poemas sinfônicos dessa época (Momus, Festa Dionisíaca), é inevitável a influência italiana. O mesmo acontece com a ópera L'Innocente (libreto de Arturo Rossatto), estreada no Rio em 5/9/1928. Mas a tendência a trabalhar com temas brasileiros, que já se manifestara em Maxixe (1928), composta na Europa, consolidou-se quando, ao voltar ao Brasil, Mignone caiu sob o influxo das idéias nacionalistas do ex-colega Mário de Andrade. A Primeira Fantasia Brasileira (1929), dedicada a Souza Lima, e o bailado Maracatu de Chico Rei (1933), com roteiro de Mário de Andrade, assinalam a fase mais importante em sua produção. Ao Maracatu, seguiram-se outras obras do mesmo gênero: Batucajé, Babaloxá e Leilão.

   Ao lado da composição, Mignone exerceu também importante papel como professor de regência, cargo que exerceu de 1934 a 1967, na Escola de Música do Rio. E teve sua importância internacionalmente reconhecida com o convite, a partir de 1937, para reger concertos de música brasileira - incluindo peças suas - em Berlim, Hamburgo e Roma.

   Nas mais de 50 valsas que Mignone escreveu - as de Esquina, as Brasileiras, as em forma de choro - está sempre presente o jovem que, segundo sua primeira mulher, Liddy Chiaffarelli, "ia, altas horas da noite, pelas ruas de São Paulo, tocando chorinhos na flauta, acompanhado pelo violão e o cavaquinho de seus companheiros". Essa ligação forte com as lembranças da juventude surge até mesmo em obras do fim da vida, como o Concertino para clarineta e fagote, de 1980, que tem o lirismo despojado das serenatas suburbanas e da música tocada pelos grupos de chorões.

   Nessas valsas de aparência simples mas, na realidade, concebidas com grande refinamento harmônico, está uma grande contribuição para a literatura pianística brasileira: a fluência com que Mignone evoca o ambiente musical popular do início do século é de uma naturalidade que só encontra paralelo na obra para piano de Ernesto Nazareth. Maria Josefina Mignone, sua segunda mulher, homenageou-o gravando várias dessas valsas; e é um documento histórico o registro que Mignone e ela fizeram, entre 1970-1984, de várias dessas peças para piano.

   Mignone morreu em 1986, aos 89 anos. Mas manteve-se lúcido e ativo até o final. É de 1940 a sua mais conhecida peça sinfônica, a Festa das Igrejas, suíte que evoca os grandes templos católicos da era colonial, com os mais coloridos e requintados efeitos orquestrais. Pois, 20 anos depois, o mesmo vigor aflora em outra peça de grande porte, o balé Quincas Berro d'Água, deliciosa transposição coreográfica da novela de Jorge Amado em Os Velhos Marinheiros. Na fase final da carreira, aliás, ele voltara à ópera com O Chalaça (1976), baseada na pitoresca vida do ministro de d. Pedro I, criado por Paulo Fortes; e com O Sargento de Milícias (1978), ambas muito bem acolhidas pelo público em suas estréias.

   O período de reavaliação estética por que passou, na década de 50, levou a fazer experiências atonais que lhe valeram a acusação de oportunismo estético. Ele próprio acabou concluindo que era o domínio do tonalismo aquele que melhor lhe permitia exprimir a sua sensibilidade, seja com as grandes peças sinfônicas, seja com miniaturas como as suas canções de câmara, entre as quais há alguns das mais belas produções do repertório brasileiro, sobre textos de Drummond, Bandeira, Ribeiro Couto, Mário Quintana. O próprio Mignone tinha consciência de onde estava a sua vocação autêntica e isso fica muito claro numa carta que, em março de 1980, ele escreveu ao musicólogo Vasco Mariz:

   "Na idade provecta a que cheguei, posso afirmar que sou senhor e dono, de fato e de direito, de todos os processos de composição e decomposição que se fazem e usam hoje e amanhã. Nada me assusta e aceito cada empreitada, desde que possa realizar música. O importante para mim é a contribuição que penso dar às minhas obras. Posso escrever uma peça em dó maior ou menor, sem dor nem pejo, assim como elaborar conceitos de música, tradicional, impressionista, expressionista, serial... Tudo se pode realizar em arte, desde que a obra traga uma mensagem de beleza e deixe no ouvinte a vontade de querer ouvir mais vezes a obra. Não acontece isso também nas outras artes?" (© O Estado de S. Paulo)

Família doa acervo de Francisco Mignone à USP

Documentos entregues pela viúva do compositor paulista serão catalogados e podem suprir lacunas sobre a música do País na primeira metade do século 20

JOÃO LUIZ SAMPAIO

   Estão em poder do Instituto de Estudos Brasileiros da USP (IEB) 3.500 documentos que, como peças de um gigantesco quebra-cabeça, podem ajudar a compor um painel de um momento bastante especial da vida musical paulista e brasileira, na primeira metade do século 20. Trata-se do acervo pessoal do compositor paulista Francisco Mignone, morto em 1986, recém-doado ao instituto por sua viúva, d. Maria Josephina.

   "Já tínhamos em nosso poder os acervos de Mário de Andrade e de Camargo Guarnieri", conta Flávia Toni, pesquisadora e curadora da área de música do IEB. "Agora, com o acervo do maestro Mignone, podemos preencher algumas lacunas, resolvendo dúvidas e completando informações sobre o mundo musical paulistano."

   Isso porque a importância de Mário de Andrade, Camargo Guarnieri e Mignone no contexto da música brasileiras está no fato, segundo Flávia, de que os três, ao lado de outros autores, "propunham um constante diálogo sobre o conceito da produção musical brasileira, a idéia da música engajada, por exemplo, e documentavam a atividade e a efervescência da época, em especial no eixo Rio-São Paulo". "Villa-Lobos, na mesma época, produzia suas obras, mas estava, de certo modo, fechado a um diálogo sobre o ofício de fazer música", lembra a pesquisadora.

   Entre os documentos que estão no IEB, Flávia ressalta a importância, por exemplo, das cartas trocadas por Mignone e Guarnieri, assim como a correspondência entre o maestro e Mário de Andrade. "Nelas, Mignone faz comentários acerca da vida musical da época, os artistas, os compositores", diz. Há também os diplomas de conclusão de cursos de Mignone no Conservatório Musical e Dramático de São Paulo, onde estudou com Mário de Andrade.

   "Já sabíamos que os dois haviam estudado juntos, mas não havíamos encontrado o diploma de Mário de Andrade. Agora, podemos apontar exatamente os cursos feitos pelos dois." Detalhes, sim, mas bastante importantes para estudar a formação musical de duas importantes personalidades da história da música no País.

   Flávia chama a atenção, também, para a presença dos primeiros livros de recorte de Mignone sobre a programação musical de São Paulo na década de 20. "Isso ajuda a recuperar a vida musical da cidade antes dos anos 30, que foi quando Mário de Andrade passou a fazer um levantamento sistemático a respeito do tema."

   A viúva de Mignone resolveu doar ao IEB o acervo que preservava cuidadosamente em sua casa após um encontro com Flávia e Vera Sílvia Guarnieri, última mulher de Camargo Guarnieri, que acabara de fazer a doação de seu material - aproximadamente 30 mil documentos - ao instituto. "Conversamos e ela resolveu que seria uma boa idéia colocar o acervo à disposição ao lado dos de Mário de Andrade e Guarnieri."

   Isso foi no início de 2000, no Rio. Desde então, explica Flávia, o processo de doação passou por todas as etapas legais. "Só agora estamos tendo acesso ao material, mas a catalogação mais detalhada deve demorar ainda um pouco, pois precisamos ainda terminar o trabalho com o acervo do Guarnieri. É um processo delicado, não queremos apenas manter os documentos, mas torná-los parte de um contexto específico. Além disso, a pressa pode fazer com que detalhes importantes se percam." Flávia trabalha com a ajuda de apenas três estagiários. (© O Estado de S. Paulo)

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