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Criador das 'Valsas de
Esquina', ele foi um dos mais prolíficos compositores brasileiros, praticou todos os
gêneros da canção de câmara à ópera, e teve sua importância internacionalmente
reconhecida com o convite para reger concertos de música brasileira em Berlim, Hamburgo e
Roma
LAURO MACHADO COELHO
Especial para o Estado
As Valsas de Esquina ficaram definitivamente ligadas ao nome de
Francisco Mignone. Mas esse filho de imigrante italiano não compôs apenas essas
deliciosas peças para piano, em que captura todo o sabor melódico e a sensualidade
rítmica do folclore urbano paulista. Mignone foi um dos mais prolíficos compositores
brasileiros: da canção de câmara à ópera, praticou todos os gêneros. Nome mais
importante da segunda geração nacionalista, ele forma, ao lado de Villa-Lobos e Camargo
Guarnieri, a trinca de nossos maiores músicos da primeira metade do século 20.
O flautista Alferio Mignone, que emigrara em 1896, foi
o primeiro professor de música de Francisco Paulo, nascido um ano após sua chegada ao
Brasil. Mais tarde, no Conservatório, onde foi colega de Mário de Andrade, Mignone
estudou com Savino de Benedictis e Agostino Cantù. Tinha apenas 15 anos quando a valsa
Manon ganhou o segundo lugar num concurso de canções populares. No início da carreira,
foram muito freqüentes as composições desse gênero, que ele assinava com o pseudônimo
de Chico Bororó.
Vincenzo Ferroni, com quem se aperfeiçoou em Milão, o
orientou na composição da primeira ópera, O Contratador de Diamantes, com libreto de
Girolamo Bottoni. Nela, Mignone inseriu a Congada, obra instrumental de 1922. essa peça
fizera tanto sucesso que, em 1923, Richard Strauss a escolhera como uma das obras
brasileiras a incluir no concerto que daria, no Municipal do Rio, com a Filarmônica de
Viena, durante a sua excursão pelo Brasil.
No Contratador - estreado em 20/9/1924 - e nos poemas
sinfônicos dessa época (Momus, Festa Dionisíaca), é inevitável a influência
italiana. O mesmo acontece com a ópera L'Innocente (libreto de Arturo Rossatto), estreada
no Rio em 5/9/1928. Mas a tendência a trabalhar com temas brasileiros, que já se
manifestara em Maxixe (1928), composta na Europa, consolidou-se quando, ao voltar ao
Brasil, Mignone caiu sob o influxo das idéias nacionalistas do ex-colega Mário de
Andrade. A Primeira Fantasia Brasileira (1929), dedicada a Souza Lima, e o bailado
Maracatu de Chico Rei (1933), com roteiro de Mário de Andrade, assinalam a fase mais
importante em sua produção. Ao Maracatu, seguiram-se outras obras do mesmo gênero:
Batucajé, Babaloxá e Leilão.
Ao lado da composição, Mignone exerceu também
importante papel como professor de regência, cargo que exerceu de 1934 a 1967, na Escola
de Música do Rio. E teve sua importância internacionalmente reconhecida com o convite, a
partir de 1937, para reger concertos de música brasileira - incluindo peças suas - em
Berlim, Hamburgo e Roma.
Nas mais de 50 valsas que Mignone escreveu - as de
Esquina, as Brasileiras, as em forma de choro - está sempre presente o jovem que, segundo
sua primeira mulher, Liddy Chiaffarelli, "ia, altas horas da noite, pelas ruas de
São Paulo, tocando chorinhos na flauta, acompanhado pelo violão e o cavaquinho de seus
companheiros". Essa ligação forte com as lembranças da juventude surge até mesmo
em obras do fim da vida, como o Concertino para clarineta e fagote, de 1980, que tem o
lirismo despojado das serenatas suburbanas e da música tocada pelos grupos de chorões.
Nessas valsas de aparência simples mas, na realidade,
concebidas com grande refinamento harmônico, está uma grande contribuição para a
literatura pianística brasileira: a fluência com que Mignone evoca o ambiente musical
popular do início do século é de uma naturalidade que só encontra paralelo na obra
para piano de Ernesto Nazareth. Maria Josefina Mignone, sua segunda mulher, homenageou-o
gravando várias dessas valsas; e é um documento histórico o registro que Mignone e ela
fizeram, entre 1970-1984, de várias dessas peças para piano.
Mignone morreu em 1986, aos 89 anos. Mas manteve-se
lúcido e ativo até o final. É de 1940 a sua mais conhecida peça sinfônica, a Festa
das Igrejas, suíte que evoca os grandes templos católicos da era colonial, com os mais
coloridos e requintados efeitos orquestrais. Pois, 20 anos depois, o mesmo vigor aflora em
outra peça de grande porte, o balé Quincas Berro d'Água, deliciosa transposição
coreográfica da novela de Jorge Amado em Os Velhos Marinheiros. Na fase final da
carreira, aliás, ele voltara à ópera com O Chalaça (1976), baseada na pitoresca vida
do ministro de d. Pedro I, criado por Paulo Fortes; e com O Sargento de Milícias (1978),
ambas muito bem acolhidas pelo público em suas estréias.
O período de reavaliação estética por que passou,
na década de 50, levou a fazer experiências atonais que lhe valeram a acusação de
oportunismo estético. Ele próprio acabou concluindo que era o domínio do tonalismo
aquele que melhor lhe permitia exprimir a sua sensibilidade, seja com as grandes peças
sinfônicas, seja com miniaturas como as suas canções de câmara, entre as quais há
alguns das mais belas produções do repertório brasileiro, sobre textos de Drummond,
Bandeira, Ribeiro Couto, Mário Quintana. O próprio Mignone tinha consciência de onde
estava a sua vocação autêntica e isso fica muito claro numa carta que, em março de
1980, ele escreveu ao musicólogo Vasco Mariz:
"Na idade provecta a que cheguei,
posso afirmar que sou senhor e dono, de fato e de direito, de todos os processos de
composição e decomposição que se fazem e usam hoje e amanhã. Nada me assusta e aceito
cada empreitada, desde que possa realizar música. O importante para mim é a
contribuição que penso dar às minhas obras. Posso escrever uma peça em dó maior ou
menor, sem dor nem pejo, assim como elaborar conceitos de música, tradicional,
impressionista, expressionista, serial... Tudo se pode realizar em arte, desde que a obra
traga uma mensagem de beleza e deixe no ouvinte a vontade de querer ouvir mais vezes a
obra. Não acontece isso também nas outras artes?" (© O Estado de S. Paulo)
Família doa acervo de
Francisco Mignone à USP
Documentos
entregues pela viúva do compositor paulista serão catalogados e podem suprir lacunas
sobre a música do País na primeira metade do século 20
JOÃO LUIZ SAMPAIO
Estão em poder do Instituto de Estudos Brasileiros da USP
(IEB) 3.500 documentos que, como peças de um gigantesco quebra-cabeça, podem ajudar a
compor um painel de um momento bastante especial da vida musical paulista e brasileira, na
primeira metade do século 20. Trata-se do acervo pessoal do compositor paulista Francisco
Mignone, morto em 1986, recém-doado ao instituto por sua viúva, d. Maria Josephina.
"Já tínhamos em nosso
poder os acervos de Mário de Andrade e de Camargo Guarnieri", conta Flávia Toni,
pesquisadora e curadora da área de música do IEB. "Agora, com o acervo do maestro
Mignone, podemos preencher algumas lacunas, resolvendo dúvidas e completando
informações sobre o mundo musical paulistano."
Isso porque a importância de Mário de Andrade, Camargo Guarnieri e
Mignone no contexto da música brasileiras está no fato, segundo Flávia, de que os
três, ao lado de outros autores, "propunham um constante diálogo sobre o conceito
da produção musical brasileira, a idéia da música engajada, por exemplo, e
documentavam a atividade e a efervescência da época, em especial no eixo Rio-São
Paulo". "Villa-Lobos, na mesma época, produzia suas obras, mas estava, de certo
modo, fechado a um diálogo sobre o ofício de fazer música", lembra a pesquisadora.
Entre os documentos que estão no IEB, Flávia ressalta a importância,
por exemplo, das cartas trocadas por Mignone e Guarnieri, assim como a correspondência
entre o maestro e Mário de Andrade. "Nelas, Mignone faz comentários acerca da vida
musical da época, os artistas, os compositores", diz. Há também os diplomas de
conclusão de cursos de Mignone no Conservatório Musical e Dramático de São Paulo, onde
estudou com Mário de Andrade.
"Já sabíamos que os dois haviam estudado juntos, mas não havíamos
encontrado o diploma de Mário de Andrade. Agora, podemos apontar exatamente os cursos
feitos pelos dois." Detalhes, sim, mas bastante importantes para estudar a formação
musical de duas importantes personalidades da história da música no País.
Flávia chama a atenção, também, para a presença dos primeiros livros
de recorte de Mignone sobre a programação musical de São Paulo na década de 20.
"Isso ajuda a recuperar a vida musical da cidade antes dos anos 30, que foi quando
Mário de Andrade passou a fazer um levantamento sistemático a respeito do tema."
A viúva de Mignone resolveu doar ao IEB o acervo que preservava
cuidadosamente em sua casa após um encontro com Flávia e Vera Sílvia Guarnieri, última
mulher de Camargo Guarnieri, que acabara de fazer a doação de seu material -
aproximadamente 30 mil documentos - ao instituto. "Conversamos e ela resolveu que
seria uma boa idéia colocar o acervo à disposição ao lado dos de Mário de Andrade e
Guarnieri."
Isso foi no início de 2000, no Rio. Desde então, explica Flávia, o
processo de doação passou por todas as etapas legais. "Só agora estamos tendo
acesso ao material, mas a catalogação mais detalhada deve demorar ainda um pouco, pois
precisamos ainda terminar o trabalho com o acervo do Guarnieri. É um processo delicado,
não queremos apenas manter os documentos, mas torná-los parte de um contexto
específico. Além disso, a pressa pode fazer com que detalhes importantes se
percam." Flávia trabalha com a ajuda de apenas três estagiários. (© O Estado de S. Paulo) |
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