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Pontiggia expõe deficiências humanas

25/07/2002

 

 

Escritor italiano refaz os caminhos da aceitação em romance de 2000 lançado agora no Brasil

FRANCESCA ANGIOLILLO
DA REPORTAGEM LOCAL

   Paolo, filho do personagem principal de "Nascer Duas Vezes", é uma criança "com problemas". Sofre de tetraparesia espástica distônica, que limita gravemente suas faculdades motoras.
Paolo tem problemas. Mas qual criança -e, finalmente, qual adulto- não os tem? Essa é a questão que pontua o romance do italiano Giuseppe Pontiggia.

   A voz do narrador, o professor Frigerio, conduz o leitor pelo percurso feito no sentido da aceitação das limitações de seu filho. Caminho semelhante trilhou o autor. O livro, diz Pontiggia, 67, em entrevista à Folha, ensinou-lhe a conviver melhor com os "problemas" de Andrea, seu filho, hoje com 32 anos.

   O escritor explica longamente por que recusa o rótulo de obra autobiográfica para "Nascer Duas Vezes" -mas não nega que a filiação do livro esteja evidentemente na própria experiência.

   Porém diferencia "uma narrativa autobiográfica, que quer tratar com veracidade os personagens e as situações", de uma como "Nascer Duas Vezes", em que "se sente livre para vetar, tirar, inserir episódios, figuras e variações que não estão no passado".

   O esforço de descolar a obra da vivência se enraíza também no fato de que Pontiggia, antes de ser o pai de Andrea, era já um escritor. Portanto espera o reconhecimento do livro não só como relato que atrai a atenção do leitor para uma causa pessoal, mas também (e principalmente) como literatura.

   "Até nos momentos mais terríveis, desconcertantes, procurava intensidade emotiva e eficácia estilística. Minha ambição primeira era fazer uma narrativa muito forte, capaz de envolver, de comunicar uma experiência importante, não só para quem vive a deficiência, mas para cada leitor."

   A narrativa se constrói sobre episódios esparsos -a aventura que se torna uma escada rolante para Paolo, as dificuldades na escola, os conflitos em família. Notamos aqui e ali um fio cronológico, mas não há uma sucessão linear: o fluxo é o da memória.

   "Eu me fundo no naturalismo e procedi pela escolha dos momentos mais memoráveis da existência: sequências, flashes, diálogos -os que dão o sentido mais forte da experiência. Esse modo de perceber o tempo e a sucessão dos fatos corresponde à nossa percepção, que não é feita de uma coerência e continuidade cronológicas, mas de segmentos."

   O relato assume diferentes registros para alcançar o problema em toda a sua complexidade -cuja compreensão, na opinião de Pontiggia, "exige uma multiplicidade de tons, do dramático ao satírico, o cômico, o irônico". Dessa escala, porém, o escritor fez questão de deixar de fora uma nota: a autopiedade. Salta aos olhos como um traço impressionante em "Nascer Duas Vezes" a ausência total de comiseração.

   O narrador nos surge atormentado, mas consciente de suas culpas. Não há espaço para ser condescendente na história de Frigerio -nem consigo mesmo, nem com os que o cercam. E nem com os deficientes. O livro levanta uma bandeira contra o senso comum que olha os "menos validos" com deferência caridosa, quase ao ponto de pretender afirmar que são iguais aos outros -como se a diferença fosse um pecado.

   "Os primeiros anos do romance são na época da contestação, 68. Foi útil pensar que eram iguais aos outros. Mas era uma mentira generosa. O protesto ulterior é dizer que são diversos dos outros, mas com direitos iguais. E devem ser tratados com a maior abertura mental e comportamental", afirma Pontiggia. "Os deficientes têm uma diversidade mais vistosa. Precisam de ajuda, solidariedade, mas não de compaixão."

   Para ele, o livro é, ainda, "uma descoberta da deficiência universal no confronto dos problemas". "Os problemas existem, todos temos. Não acho que eles se resolvam: problemas se enfrentam. Um exemplo de nossa inabilidade social é crer que os problemas se resolvem definitivamente."

NASCER DUAS VEZES - ("Nati Due Volte", 2000). De: Giuseppe Pontiggia. Editora: Companhia das Letras (tel. 0/ xx/11/3167-0801). Tradução: Roberta Barni. 208 págs. R$ 27,50.

(© Folha de S. Paulo)

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