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Escritor italiano refaz os caminhos da aceitação em romance de
2000 lançado agora no Brasil
FRANCESCA ANGIOLILLO
DA REPORTAGEM LOCAL
Paolo, filho do personagem principal de "Nascer Duas
Vezes", é uma criança "com problemas". Sofre de tetraparesia espástica
distônica, que limita gravemente suas faculdades motoras.
Paolo tem problemas. Mas qual criança -e, finalmente, qual adulto- não os tem? Essa é a
questão que pontua o romance do italiano Giuseppe Pontiggia.
A voz do narrador, o professor Frigerio, conduz o leitor pelo
percurso feito no sentido da aceitação das limitações de seu filho. Caminho semelhante
trilhou o autor. O livro, diz Pontiggia, 67, em entrevista à Folha, ensinou-lhe a
conviver melhor com os "problemas" de Andrea, seu filho, hoje com 32 anos.
O escritor explica longamente por que recusa o rótulo de
obra autobiográfica para "Nascer Duas Vezes" -mas não nega que a filiação do
livro esteja evidentemente na própria experiência.
Porém diferencia "uma narrativa autobiográfica, que
quer tratar com veracidade os personagens e as situações", de uma como "Nascer
Duas Vezes", em que "se sente livre para vetar, tirar, inserir episódios,
figuras e variações que não estão no passado".
O esforço de descolar a obra da vivência se enraíza
também no fato de que Pontiggia, antes de ser o pai de Andrea, era já um escritor.
Portanto espera o reconhecimento do livro não só como relato que atrai a atenção do
leitor para uma causa pessoal, mas também (e principalmente) como literatura.
"Até nos momentos mais terríveis, desconcertantes,
procurava intensidade emotiva e eficácia estilística. Minha ambição primeira era fazer
uma narrativa muito forte, capaz de envolver, de comunicar uma experiência importante,
não só para quem vive a deficiência, mas para cada leitor."
A narrativa se constrói sobre episódios esparsos -a
aventura que se torna uma escada rolante para Paolo, as dificuldades na escola, os
conflitos em família. Notamos aqui e ali um fio cronológico, mas não há uma sucessão
linear: o fluxo é o da memória.
"Eu me fundo no naturalismo e procedi pela escolha dos
momentos mais memoráveis da existência: sequências, flashes, diálogos -os que dão o
sentido mais forte da experiência. Esse modo de perceber o tempo e a sucessão dos fatos
corresponde à nossa percepção, que não é feita de uma coerência e continuidade
cronológicas, mas de segmentos."
O relato assume diferentes registros para alcançar o
problema em toda a sua complexidade -cuja compreensão, na opinião de Pontiggia,
"exige uma multiplicidade de tons, do dramático ao satírico, o cômico, o
irônico". Dessa escala, porém, o escritor fez questão de deixar de fora uma nota:
a autopiedade. Salta aos olhos como um traço impressionante em "Nascer Duas
Vezes" a ausência total de comiseração.
O narrador nos surge atormentado, mas consciente de suas
culpas. Não há espaço para ser condescendente na história de Frigerio -nem consigo
mesmo, nem com os que o cercam. E nem com os deficientes. O livro levanta uma bandeira
contra o senso comum que olha os "menos validos" com deferência caridosa, quase
ao ponto de pretender afirmar que são iguais aos outros -como se a diferença fosse um
pecado.
"Os primeiros anos do romance são na época da
contestação, 68. Foi útil pensar que eram iguais aos outros. Mas era uma mentira
generosa. O protesto ulterior é dizer que são diversos dos outros, mas com direitos
iguais. E devem ser tratados com a maior abertura mental e comportamental", afirma
Pontiggia. "Os deficientes têm uma diversidade mais vistosa. Precisam de ajuda,
solidariedade, mas não de compaixão."
Para ele, o livro é, ainda, "uma descoberta da
deficiência universal no confronto dos problemas". "Os problemas existem, todos
temos. Não acho que eles se resolvam: problemas se enfrentam. Um exemplo de nossa
inabilidade social é crer que os problemas se resolvem definitivamente."
NASCER DUAS VEZES - ("Nati Due Volte", 2000). De:
Giuseppe Pontiggia. Editora: Companhia das Letras (tel. 0/ xx/11/3167-0801). Tradução:
Roberta Barni. 208 págs. R$ 27,50.
(© Folha de S. Paulo)
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