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A Commedia dell'arte Italiana

25/07/2002

Commedia dell'arte

 

Luiz Felipe Botelho

   Forma teatral existente na Itália desde o século XVI, também chamada de commedia al improviso, commedia a soggeto e commedia di zanni. A denominação commedia dell’arte surgiu como diferenciação para um outro tipo de teatro que se fazia na época, a commedia erudita (1). Enquanto a commedia erudita referia-se a um teatro culto e literário, feito por amadores e apresentado em cortes e academias, a commedia dell’arte tinha raízes na vida do povo e dele extraía sua inspiração, privilegiando uma ação mais calcada no improviso e no ágil desempenho dos atores. Como o próprio nome sugeria, a commedia dell’arte era feita por profissionais do ofício, significando arte, habilidade e técnica.

   Os espetáculos da commedia dell’arte eram criados coletivamente, a partir de roteiros (canevas, canovacci) contendo referências sobre o encaminhamento e os pontos-chave da trama, além de indicações de entradas e saídas de atores. Qualquer tema podia ser aproveitado pelos artistas da commedia dell’arte, embora quase sempre suas tramas recorressem aos mesmos elementos geradores de comicidade e intriga, como personagens disfarçados (homens vestidos de mulher, mulheres vestidas de homem), pobres que ficam ricos no final da trama, desaparecidos que reaparecem, confusões armadas por criados e casais apaixonados assediados por velhos rabugentos.

   Também os personagens eram quase sempre os mesmos, com características marcantes, divididos em dois partidos: o sério (dois casais de namorados) e o ridículo, cujos atores usavam máscaras grotescas. No partido ridículo ficavam os velhos cômicos (Pantaleão e o Doutor), o Capitão e os criados (ou zanni, como Scaramuccia ou Escaramuche, Pulcinella ou Polichinelo, Scapino e Truffaldino), que ainda se subdividiam em primeiro zanni (criado esperto, que conduzia a trama) e segundo zanni (criado ingênuo e atrapalhado). O mais famoso personagem da commedia dell’arte é um criado, o enigmático, astuto e insolente Arlequim (Arlecchino)

Sílvio Pinto no espetáculo Arlequim, de Ronaldo Brito e direção de Carlos Carvalho

Na foto, Sílvio Pinto no espetáculo Arlequim, de Ronaldo Brito e direção de Carlos Carvalho.

   Muitos atores se tornaram tão populares desempenhando um determinado papel, que acabaram ficando conhecidos pelo nome do personagem que interpretavam, como aconteceu com o ator e dramaturgo Angelo Beolco de Pádua (1502-1542), que criou e interpretou o esperto camponês Ruzzante.

   As companhias de commedia dell’arte mantinham forte tradição familiar e artesanal. Intinerantes, percorriam toda a Europa, apresentando-se em vilas, cidades e lugarejos. A habilidade de improvisação se adequava bem às condições que encontravam no caminho, pois nem sempre havia lugar adequado para as apresentações. Se às vezes se apresentavam em salões de palácios, patrocinados por nobres, noutras mostravam seu trabalho nas ruas e praças, sobre tablados, dispensando cenários e outros elementos de cena.

   A commedia dell’arte foi um dos mais importantes gêneros teatrais de sua época, espalhando-se por toda a Europa e influenciando o que de melhor se fez em termos de comédia naqueles anos. Alguns grupos se tornaram tão populares que eram disputados por várias cortes européias, chegando a fazer fortuna. O próprio público foi se tornando exigente, reconhecendo o talento deste ou daquele ator e elegendo suas estrelas, como Francesco Rubini (2), notável Pantaleão ou Antônio Sacchi (2), o maior Arlequim de sua época.

   O início do declínio do gênero foi marcado por uma gradual queda na qualidade do conteúdo dos espetáculos, que se tornaram apelativos e vulgares. Vários dramaturgos (3) tentaram preservar o espírito dos espetáculos tradicionais da commedia, mas havia uma limitação: como passar para o papel a real dimensão de algo cuja vida e brilho se manifestavam justamente no calor da cena, através da habilidade dos atores?

   Segundo Patrice Pavis (1996), hoje a commedia dell’arte sobrevive no trabalho do clown: "a formação de seus atores tornou-se modelo de um teatro completo, baseado no ator e no coletivo, redescobrindo o poder do gesto e da improvisação".

(1) A "commedia erudita" baseava-se principalmente em modelos clássicos da comédia romana, como as obras de Plauto (254?-184? a.C.) e Terêncio (195?-159 a.C.). Os autores mais importantes da "commedia erudita" foram Ludovico Ariosto (1474-1533) e Pietro Aretino (1492-1556), sendo "A Mandrágora", de Maquiavel (1469-1527), a obra prima desse gênero.

(2) Rubini e Sacchi viveram no século XVIII.

(3) O italiano Carlo Goldoni (1707-1793) escreveu várias peças baseadas na "Commedia dell’arte" sendo a mais conhecida delas "Arlequim, servidor de dois amos", feita por encomenda para Antônio Sacchi.

(© Jornal do Commercio)

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