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Luiz Felipe
Botelho
Forma teatral existente na Itália desde o
século XVI, também chamada de commedia al improviso, commedia a soggeto e commedia di
zanni. A denominação commedia dellarte surgiu como diferenciação para um
outro tipo de teatro que se fazia na época, a commedia erudita (1). Enquanto a commedia
erudita referia-se a um teatro culto e literário, feito por amadores e apresentado em
cortes e academias, a commedia dellarte tinha raízes na vida do povo e dele
extraía sua inspiração, privilegiando uma ação mais calcada no improviso e no ágil
desempenho dos atores. Como o próprio nome sugeria, a commedia dellarte era
feita por profissionais do ofício, significando arte, habilidade e técnica.
Os espetáculos da commedia dellarte
eram criados coletivamente, a partir de roteiros (canevas, canovacci) contendo
referências sobre o encaminhamento e os pontos-chave da trama, além de indicações de
entradas e saídas de atores. Qualquer tema podia ser aproveitado pelos artistas da commedia
dellarte, embora quase sempre suas tramas recorressem aos mesmos elementos
geradores de comicidade e intriga, como personagens disfarçados (homens vestidos de
mulher, mulheres vestidas de homem), pobres que ficam ricos no final da trama,
desaparecidos que reaparecem, confusões armadas por criados e casais apaixonados
assediados por velhos rabugentos.
Também os personagens eram quase sempre os
mesmos, com características marcantes, divididos em dois partidos: o sério (dois casais
de namorados) e o ridículo, cujos atores usavam máscaras grotescas. No partido ridículo
ficavam os velhos cômicos (Pantaleão e o Doutor), o Capitão e os criados (ou zanni,
como Scaramuccia ou Escaramuche, Pulcinella ou Polichinelo, Scapino e Truffaldino), que
ainda se subdividiam em primeiro zanni (criado esperto, que conduzia a trama) e
segundo zanni (criado ingênuo e atrapalhado). O mais famoso personagem da commedia
dellarte é um criado, o enigmático, astuto e insolente Arlequim (Arlecchino)
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Na foto, Sílvio Pinto no
espetáculo Arlequim, de Ronaldo Brito e direção de Carlos Carvalho. |
Muitos atores se tornaram tão
populares desempenhando um determinado papel, que acabaram ficando conhecidos pelo nome do
personagem que interpretavam, como aconteceu com o ator e dramaturgo Angelo Beolco de
Pádua (1502-1542), que criou e interpretou o esperto camponês Ruzzante.
As companhias de commedia dellarte
mantinham forte tradição familiar e artesanal. Intinerantes, percorriam toda a Europa,
apresentando-se em vilas, cidades e lugarejos. A habilidade de improvisação se adequava
bem às condições que encontravam no caminho, pois nem sempre havia lugar adequado para
as apresentações. Se às vezes se apresentavam em salões de palácios, patrocinados por
nobres, noutras mostravam seu trabalho nas ruas e praças, sobre tablados, dispensando
cenários e outros elementos de cena.
A commedia dellarte foi um dos
mais importantes gêneros teatrais de sua época, espalhando-se por toda a Europa e
influenciando o que de melhor se fez em termos de comédia naqueles anos. Alguns grupos se
tornaram tão populares que eram disputados por várias cortes européias, chegando a
fazer fortuna. O próprio público foi se tornando exigente, reconhecendo o talento deste
ou daquele ator e elegendo suas estrelas, como Francesco Rubini (2), notável Pantaleão
ou Antônio Sacchi (2), o maior Arlequim de sua época.
O início do declínio do gênero foi marcado
por uma gradual queda na qualidade do conteúdo dos espetáculos, que se tornaram
apelativos e vulgares. Vários dramaturgos (3) tentaram preservar o espírito dos
espetáculos tradicionais da commedia, mas havia uma limitação: como passar para o papel
a real dimensão de algo cuja vida e brilho se manifestavam justamente no calor da cena,
através da habilidade dos atores?
Segundo Patrice Pavis (1996), hoje a commedia
dellarte sobrevive no trabalho do clown: "a formação de seus
atores tornou-se modelo de um teatro completo, baseado no ator e no coletivo,
redescobrindo o poder do gesto e da improvisação".
(1) A "commedia erudita" baseava-se
principalmente em modelos clássicos da comédia romana, como as obras de Plauto
(254?-184? a.C.) e Terêncio (195?-159 a.C.). Os autores mais importantes da
"commedia erudita" foram Ludovico Ariosto (1474-1533) e Pietro Aretino
(1492-1556), sendo "A Mandrágora", de Maquiavel (1469-1527), a obra prima desse
gênero.
(2) Rubini e Sacchi viveram no século XVIII.
(3) O italiano Carlo Goldoni (1707-1793) escreveu várias
peças baseadas na "Commedia dellarte" sendo a mais conhecida delas
"Arlequim, servidor de dois amos", feita por encomenda para Antônio Sacchi.
(© Jornal do Commercio) |