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ASTROFÍSICA:
Italiano propõe teoria para misteriosos raios gama que sugere risco para a vida na
Terra a cada milhão de anos
SALVADOR NOGUEIRA
DA REPORTAGEM LOCAL
A cada dia que passa, em algum ponto do Universo, há um disparo
violentíssimo de radiação. É como uma loteria cósmica, em que ninguém sabe de onde
virá o próximo. Mas as respostas sobre essas misteriosas e letais explosões de raios
gama estão a caminho: um pesquisador italiano acredita que elas são o canto de morte de
estrelas que estão prestes a virar buracos negros.
O fenômeno está longe de ser preocupação exclusiva de astrofísicos.
Se uma dessas explosões ocorresse perto daqui, colocaria em risco toda a vida na Terra.
Esses eventos, que ocorrem na Via Láctea a cada milhão de anos, podem até já ter sido
responsáveis por algumas das grandes extinções que assolaram o planeta.
Quem defende a idéia é Remo Ruffini, um físico teórico da Universidade
de Roma, na Itália, que já trabalha nesse enigma desde que ele surgiu, no fim dos anos
60. Após anos refinando o conceito, ele acredita ter chegado a um modelo que combina com
as observações dos disparos, as rajadas de raios gama ("gamma ray bursts").
Segundo a teoria do italiano, as rajadas de raios gama são forjadas no
momento em que uma estrela esgota seu combustível e inicia o processo de implosão,
caminhando para se tornar um buraco negro (objeto cuja força gravitacional é tão
intensa que suga tudo que chega perto o suficiente, inclusive a luz -daí o nome).
"Essas rajadas devem ocorrer em média uma vez por dia no Universo, e
uma vez a cada milhão de anos na Via Láctea", afirma Ruffini. "Quando
acontecem dentro da nossa galáxia, chegam a ameaçar a vida na Terra."
Os raios gama são a forma de radiação mais poderosa que existe, capaz
de induzir mutações no material genético dos organismos de forma ainda mais agressiva
que seus "primos", os raios X.
As rajadas cósmicas contêm taxas energéticas colossais. "Sua
energia no instante em que são geradas é equivalente à de toda a luz emitida pelo
Universo", diz Ruffini. "Onde quer que uma explosão desse tipo aconteça, você
pode detectá-la da Terra."
Emissões mundanas
Curiosamente, o fenômeno foi detectado pela primeira vez por militares
norte-americanos que procuravam explosões muito mais mundanas. Nos anos 60 e 70, eles
lançaram uma série de satélites chamados Vela, cuja missão era detectar raios X e
raios gama.
O objetivo era poder monitorar na Terra emissões decorrentes de
explosões de armas nucleares. Quando várias emissões de raios gama foram detectadas no
espaço, os cientistas logo descartaram bombas atômicas distantes como causa. Estava
iniciado o mistério que hoje Ruffini tenta esclarecer.
O italiano esteve até anteontem no Brasil, participando da 10ª Escola
Brasileira de Cosmologia e Gravitação, um evento promovido pelo CBPF (Centro Brasileiro
de Pesquisas Físicas) no Rio de Janeiro. Lá, Ruffini detalhou o estado atual de suas
pesquisas.
"A virtude desse modelo é que ele é novo, mas está dentro das
tradições da teoria da relatividade geral de Einstein", diz Ruffini. "E
explica todas as observações, que acabaram excluindo a maioria dos modelos. Nós
oferecemos descrição das observações até o bilionésimo de segundo."
O ponto crucial para que tudo funcione nos moldes do que propõe o
pesquisador é que os buracos negros sejam de um tipo especial -com propriedades
eletromagnéticas (pólo magnético e carga elétrica). "Se você me perguntar, esse
é o ponto mais frágil da teoria de Ruffini. Eu acredito nele, mas há quem não
concorde", diz Mário Novello, um físico relativista do CBPF. "Claro, se você
perguntar a ele, ele vai dizer que isso não é problema."
Dito e feito. "Na verdade, todas as estrelas têm rotação e
propriedades eletromagnéticas. O Sol tem. Não há razão para crer que os buracos negros
devam ser diferentes nesse sentido", diz Ruffini.
Em cinco ou seis anos, estima o italiano, uma nova geração de
instrumentos espaciais será capaz de refinar o estudo das rajadas e confirmar ou refutar
sua explicação.
Ele, pessoalmente, já está convencido. E acredita que as emissões podem
estar ligadas a fenômenos significativos de extinção maciça e evolução dos
organismos na Terra, impulsionando mutações genéticas. Mas não oferece detalhes sobre
isso. "Esse ainda é um campo recém-aberto", diz. "Claro que ainda não
chegamos ao fim da história."
(© Folha de S. Paulo) |