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Jacqueline Costa
Há quem diga que a Itália é ainda mais autêntica e saborosa no interior.
Quem já conhece as cidades mais famosas do país, como Roma e Veneza, sabe disto e tem
procurado traçar seu itinerário por desconhecidos povoados e vilarejos, onde pode ter a
sorte de apreciar de perto a produção de vinhos, queijos, azeites, doces e embutidos.
Chamado de agriturismo, o turismo rural italiano surgiu
há mais de 30 anos, quando os primeiros camponeses resolveram abrir as portas de suas
casas para os viajantes. Percebendo a demanda, no início da década de 90, o governo
italiano começou a licenciar as propriedades rurais. Desde então, a viagem pelo interior
do país tem se tornado um circuito enogastronômico. E não é fácil
resistir à gula numa mesa coberta por uma singela toalha xadrez.
São inúmeros pratos típicos e uma infinidade de
produtos. Segundo o órgão oficial de turismo da Itália, o Ente Nazionale Italiano per
il Turismo (Enit), o agriturismo movimenta cerca de 360 milhões de euros por ano. E cerca
de 430 mil estrangeiros experimentam o simpático programa. (© O Globo On line)
Há
mais de dez mil estabelecimentos de agriturismo distribuídos por todo o país
Segundo o Enit , o escritório de turismo italiano, existem dez mil
estabelecimentos de agriturismo distribuídos pelas 21 províncias do país. Deste total,
cerca de 6.500 se dedicam exclusivamente a receber os turistas. O restante é formado por
lugares que funcionam como restaurantes ou espaços onde é possível passar o dia
apreciando de perto a produção de queijos, por exemplo.
Para que possa ser licenciado para o agriturismo, uma das condições
impostas pelo governo italiano é que o estabelecimento produza, no mínimo, 80% de tudo o
que vende ou consome. Depois de seguir esta norma, qualquer dono de fazenda ou de um
pedaço de terra pode se capacitar para receber visitas.
Há opções para os mais variados gostos e bolsos. É possível ser recebido
em pequenas casales , aconchegantes casas de família, onde o visitante pode
provar receitas preparadas com esmero pelos proprietários. E, assim sendo, o visitante
corre até mesmo o risco de presenciar uma italianíssima e engraçada discussão.
Segundo o italiano Massimo Alfieri, diretor da agência de viagens Jet Line,
a adaptação desses lugares foi sendo feita aos poucos.
A maioria dos atuais agriturismos eram grandes fazendas ou casas de
campo que foram adaptadas para acomodar os hóspedes. O ideal é se hospedar por pelo
menos uma semana. Esse tipo de viagem significa ar puro e boa comida explica
Alfieri, acrescentando que os brasileiros costumam primeiro conhecer as grandes cidades da
Itália, antes de se dedicar ao agriturismo.
Empolgada, a chef carioca Flávia Quaresma lembra que a viagem pelo interior
da Itália foi uma das que mais marcou a sua vida.
Fui para Toscana, Piemonte e Veneto. Durante duas semanas, visitei
vinícolas acompanhada por um grupo de chefs brasileiros. O tour começou por Alba, em
outubro, na época das trufas brancas. Visitamos seis vinícolas. Uma delas foi a Rocca
Delle Macìe, que tem uma pousada relembra Flávia.
Mesmo no campo, a sofisticação não fica de fora. Na Locanda dell'Amorosa,
em Siena, na Toscana, as atividades de lazer incluem banhos de piscina, quadras de tênis,
área para equitação e campos de golfe. Um dos lugares mais charmosos da Locanda é o
antigo estábulo, que foi transformado num rústico e elegante restaurante, que dispõe de
cuidadosa e seleta carta de vinhos, com mais de 130 marcas da bebida. O cardápio, que
inclui pratos com trufas brancas, é assinado pelo chef Francesco Sabbadini.
Para os que fazem de tudo para garantir uma boa recordação, vale dizer que
em alguns estabelecimentos a realização de tarefas é, digamos, interativa. Os hóspedes
são convidados a ajudar na colheita das uvas, por exemplo, e até esmagam algumas com os
pés.
A publicitária Michelle Balbi sente saudades das férias passadas na Umbria.
Em alguns vilarejos, as roupas estendidas nas janelas dos sobrados
lembram que a vida é muito mais do que a correria do dia-a-dia. O único problema da
minha viagem foi ganhar alguns quilos a mais diz Michelle. (© O Globo On line)
Piemonte: não há lugar melhor
para comer, beber e dormir
Luciana Fróes
Asti, Piemonte
Até viajar pelo Piemonte terra das trufas, do torrone, do Ferrero
Rocher e da Nutella, das polpas adocicadas do tomate Sanmarzano e dos grandes vinhos
italianos , jamais tinha ouvido falar em agriturismo. Nem sei como, afinal, essa
simpática forma de acomodar os visitantes é hoje prática comum em toda a Itália.
No caso do Piemonte, não consigo vislumbrar outro
endereço melhor para passar uns dias por ali comendo, bebendo e dormindo entre as vinhas
de uma região que responde pelos 3,3 milhões de litros de Barolo, Barbaresco, Nebbiolo DAlba,
Dolcetto, Moscato...
Tem coisa melhor do que dormir entre lençóis com
cheirinho de alfazema e abrir a janela de manhã e avistar quilômetros de vinhas
frutificando? Estive no Tenuta dei Re (que produz os vinhos d.o.c Grignolino d'Asti e
Ruchè di Castagnole), uma encantadora vinícola--pousada, de construção rústica de
muitos cômodos, cujo os donos mostram seus vinhedos, comandam as degustações, cozinham
e ainda sentam-se à mesa comunitária para comer um risotto e conversar. Como
num filme de Ettore Scola.
O melhor é que fica entre Asti e Alba, onde há
dezenas de castelos-enotecas, ótimos restaurantes e as melhores grifes espalhadas pelas
ruelas de Alba. A alta temporada acontece em setembro, época das trufas e da colheita das
uvas. LUCIANA FRÓES é repórter gastronômica (© O Globo On line)
Estabelcimentos produzem, no
mínimo, 80% das iguarias comercializadas
A história conta que os italianos produzem vinho desde o ano 2000 antes de
Cristo. E, desde então, os vinhedos do país despertam a curiosidade dos que amam a
bebida.
Localizada no noroeste da Itália, a província do Piemonte tem vinhos de
grande prestígio, produzidos com as uvas Nebbiolo, dentre os quais o mais conhecido é o
Barolo, proveniente de uma pequena região em torno da cidade que lhe empresta o nome. Ele
é caro, porque, além de produzido em pequenas quantidades, tornou-se uma verdadeira
grife. É feito na Fazenda Borgogno, fundada em 1761.
A região da Toscana, e em especial as cidades de Siena e Firenze, também se
destaca pelo grande número de vinhos de qualidade que produz, sendo considerada por
muitos como a Bordeaux italiana. O vinho mais popular do lugar é o Chianti, consagrado
pela célebre garrafa bojuda, com a base envolta em palha. Esse vinho foi o primeiro da
Europa a ter sua região demarcada, em 1716, pelo grão-duque da Toscana, Cosimo de Medici
III.
O chef do restaurante Cipriani, Francesco Carli, atestou o potencial
enológico e gastronômico da Toscana em sua última viagem à Itália, há cerca de uma
semana.
Todo o país é apropriado para o agriturismo, mas a Toscana é
especial. Além de admirar belas paisagens, lá é possível experimentar uma enorme
variedade de produtos típicos diz Carli.
A lista dos produtos de destaque inclui queijos, chocolates, azeites de
oliva, lingüiças de porco selvagem e as exclusivas trufas, que são uma espécie de
cogumelo subterrâneo muito apreciado pelo sabor e aroma agradáveis. A maior parte das
iguarias é vendida aos hóspedes pelos proprietários das fazendas.
Os brasileiros já conhecem este queijo, mas poucos sabem que o nome veio de
uma antiga cidade da província de Milão, que se chamava Gorgonzola. Hoje em dia, por lei
e por tradição, apenas duas regiões italianas produzem a variedade: Piemonte e
Lombardia. Os turistas que quiserem provar o gorgonzola original não podem deixar de
passar pelas principais províncias produtoras do laticínio, como Vercelli, Novara e
Cuneo, no Piemonte.
Também muito procurado pelos turistas, o vilarejo de Montefalco é um
pequeno povoado na Umbria, com cenário repleto de olivais, vinhedos e velhos solares.
(© O Globo On line) |
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