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À mesa, os produtos anti-Máfia

19/08/2002

 

 

ONG italiana, com mais de mil associados, vence medo e burocracia e tira lucro de bens confiscados dos chefões

GINA DE AZEVEDO MARQUES
Agência Globo

   Durante muitos anos, a Máfia permaneceu atravessada de forma indigesta na garganta dos italianos. Hoje, porém, graças ao gigantesco trabalho de uma organização não-governamental (ONG) que conta com 1.050 associados em todo a Itália, a Máfia pode até ser lembrada com prazer na hora das refeições. Vinhos, azeites, pães, legumes e outros produtos de alta qualidade produzidos em terras confiscadas de mafiosos chegam às mesas italianas por meio de um esforço capitaneado pela Libera, instituição criada para dar um fim social ao patrimônio antes usado pelo crime organizado. Ela tem hoje sob sua administração indireta 900 terrenos e bens, incluindo diversos restaurantes que um dia estiveram nas mãos de mafiosos, e comemora com orgulho os produtos anti-Máfia.

   Em 1995, sensibilizado pelos crimes cometidos pela Máfia, o padre Luigi Ciotti decidiu lutar pelos direitos das vítimas. Ele reuniu um grupo de pessoas com o mesmo ideal, entre elas a irmã do juiz Paolo Borselino, assassinado em 1992, em Palermo, pela Máfia. Juntos, fundaram o que chamam de “comunidade alternativa à Máfia”, que procura fazer justiça enquanto promove a democracia e a educação para a cidadania.

    – A teoria não era suficiente, era preciso passar à prática. Conseguimos e enviamos ao Legislativo um documento com mais de um milhão de assinaturas, e os parlamentares aprovaram em 1996 a lei que decretou que os bens confiscados das famílias mafiosas deveriam ser usados para o bem da sociedade – disse o padre Ciotti, presidente da entidade.

     Mas os obstáculos enfrentados pela Libera são muitos. O principal deles é o tempo que as propriedades demoram para serem liberadas pelo governo para uso social. Além disso, segundo a imprensa italiana, existe a possibilidade de o governo de Silvio Berlusconi aprovar uma lei que autorizaria o leilão das propriedades. Margherita Vallefuoco, dirigente da polícia que desde 2000 se ocupa da comissão extraordinária do governo para administração e destino dos bens confiscados, nega a mudança na lei de 1996.

     Segundo o padre Ciotti, apenas uma parte pequena do patrimônio teve destino social – atualmente são 4.565 os bens confiscados, em um valor estimado em 440 milhões de euros (R$ 1,37 bilhão) –, mas ele demonstra que o trabalho está sendo produtivo.

     – Enquanto os terrenos estavam nas mãos dos mafiosos, eram produtivos e, depois de confiscados, foram abandonados, seja por desinteresse ou por burocracia. Vendo isso, as pessoas associam a imagem da Máfia à produção, e a do Estado, ao abandono. Para eles, então, a Máfia faz e o Estado não faz – disse o padre Salvatore Lo Bue, principal responsável pela produção do primeiro azeite anti-Máfia, fabricado nos terrenos confiscados na Sicília.

     O padre Lo Bue conta que o trabalho foi longo. Ele obteve concessão dos terrenos há três anos. Na época, as oliveiras estavam em péssimo estado e tiveram de ser podadas e tratadas. O investimento feito por ele foi estimado em 250 mil euros, quantia que conseguiu depois de muito esforço para convencer parceiros financiadores, entre eles um banco de Turim. Só agora a comunidade do religioso conseguiu produzir o Azeite Libera, feito com um tipo de azeitona considerado um dos melhores do Mediterrâneo.

     – Valeu a pena. Este é um projeto com finalidade social e não para ficar rico. É moralmente justo que estes jovens tenham direito a um emprego e a oportunidade de refazer uma vida – diz o padre, que também se dedica à recuperação de dependentes de drogas.

     Um dos principais desafios da Libera é conquistar a confiança de quem vai trabalhar nas propriedades confiscadas. São diversas as histórias trágicas que relatam a resistência da Máfia aos projetos sociais.

     Em alguns casos, os terrenos foram queimados pelos seus ex-donos para se tornarem improdutivos – sem contar as ameaças que chegam constantemente aos diretores da entidade. O padre Luigi Ciotti, por exemplo, há 15 anos anda com a proteção contínua de um guarda-costas.

     Para Ciotti, o trabalho que a Libera e as cooperativas desenvolvem já assegura, por si só, um pouco de tranqüilidade aos futuros produtores, e isso acaba dificultando qualquer possível agressão da Máfia.

     O Estado não garante segurança à Libera nem àqueles que trabalham nas cooperativas. Quase todas as cooperativas continuam a empregar as pessoas que antes tinham como patrões os mafiosos. Integrados à comunidade, eles funcionam como professores e assessores dos novos trabalhadores, principalmente na área rural.

     Os bens confiscados também são cuidados, muitas vezes, por quem sofreu direta ou indiretamente os malefícios causados pela presença maciça do crime organizado na Itália – como ex-viciados em drogas, considerados vítimas da Máfia, já que o controle do narcotráfico é disputado pelas organizações criminosas. Ex-detentos também estão entre os beneficiados pelo projeto desenvolvido pela Libera. (© Zero Hora Digital)

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