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ONG italiana, com
mais de mil associados, vence medo e burocracia e tira lucro de bens confiscados dos
chefões
GINA DE AZEVEDO MARQUES
Agência Globo
Durante
muitos anos, a Máfia permaneceu atravessada de forma indigesta na garganta dos italianos.
Hoje, porém, graças ao gigantesco trabalho de uma organização não-governamental (ONG) que conta com 1.050 associados em
todo a Itália, a Máfia pode até ser lembrada com prazer na hora das refeições.
Vinhos, azeites, pães, legumes e outros produtos de alta qualidade produzidos em terras
confiscadas de mafiosos chegam às mesas italianas por meio de um esforço capitaneado
pela Libera, instituição criada para dar um fim social ao patrimônio antes usado pelo
crime organizado. Ela tem hoje sob sua administração indireta 900 terrenos e bens,
incluindo diversos restaurantes que um dia estiveram nas mãos de mafiosos, e comemora com
orgulho os produtos anti-Máfia.
Em 1995, sensibilizado
pelos crimes cometidos pela Máfia, o padre Luigi Ciotti decidiu lutar pelos direitos das
vítimas. Ele reuniu um grupo de pessoas com o mesmo ideal, entre elas a irmã do juiz
Paolo Borselino, assassinado em 1992, em Palermo, pela Máfia. Juntos, fundaram o que
chamam de comunidade alternativa à Máfia, que procura fazer justiça
enquanto promove a democracia e a educação para a cidadania.
A teoria não era
suficiente, era preciso passar à prática. Conseguimos e enviamos ao Legislativo um
documento com mais de um milhão de assinaturas, e os parlamentares aprovaram em 1996 a
lei que decretou que os bens confiscados das famílias mafiosas deveriam ser usados para o
bem da sociedade disse o padre Ciotti, presidente da entidade.
Mas os obstáculos
enfrentados pela Libera são muitos. O principal deles é o tempo que as propriedades
demoram para serem liberadas pelo governo para uso social. Além disso, segundo a imprensa
italiana, existe a possibilidade de o governo de Silvio Berlusconi aprovar uma lei que
autorizaria o leilão das propriedades. Margherita Vallefuoco, dirigente da polícia que
desde 2000 se ocupa da comissão extraordinária do governo para administração e destino
dos bens confiscados, nega a mudança na lei de 1996.
Segundo o padre
Ciotti, apenas uma parte pequena do patrimônio teve destino social atualmente são
4.565 os bens confiscados, em um valor estimado em 440 milhões de euros (R$ 1,37 bilhão)
, mas ele demonstra que o trabalho está sendo produtivo.
Enquanto os
terrenos estavam nas mãos dos mafiosos, eram produtivos e, depois de confiscados, foram
abandonados, seja por desinteresse ou por burocracia. Vendo isso, as pessoas associam a
imagem da Máfia à produção, e a do Estado, ao abandono. Para eles, então, a Máfia
faz e o Estado não faz disse o padre Salvatore Lo Bue, principal responsável pela
produção do primeiro azeite anti-Máfia, fabricado nos terrenos confiscados na Sicília.
O padre Lo Bue conta
que o trabalho foi longo. Ele obteve concessão dos terrenos há três anos. Na época, as
oliveiras estavam em péssimo estado e tiveram de ser podadas e tratadas. O investimento
feito por ele foi estimado em 250 mil euros, quantia que conseguiu depois de muito
esforço para convencer parceiros financiadores, entre eles um banco de Turim. Só agora a
comunidade do religioso conseguiu produzir o Azeite Libera, feito com um tipo de azeitona
considerado um dos melhores do Mediterrâneo.
Valeu a pena.
Este é um projeto com finalidade social e não para ficar rico. É moralmente justo que
estes jovens tenham direito a um emprego e a oportunidade de refazer uma vida diz o
padre, que também se dedica à recuperação de dependentes de drogas.
Um dos principais
desafios da Libera é conquistar a confiança de quem vai trabalhar nas propriedades
confiscadas. São diversas as histórias trágicas que relatam a resistência da Máfia
aos projetos sociais.
Em alguns casos, os
terrenos foram queimados pelos seus ex-donos para se tornarem improdutivos sem
contar as ameaças que chegam constantemente aos diretores da entidade. O padre Luigi
Ciotti, por exemplo, há 15 anos anda com a proteção contínua de um guarda-costas.
Para Ciotti, o
trabalho que a Libera e as cooperativas desenvolvem já assegura, por si só, um pouco de
tranqüilidade aos futuros produtores, e isso acaba dificultando qualquer possível
agressão da Máfia.
O Estado não garante
segurança à Libera nem àqueles que trabalham nas cooperativas. Quase todas as
cooperativas continuam a empregar as pessoas que antes tinham como patrões os mafiosos.
Integrados à comunidade, eles funcionam como professores e assessores dos novos
trabalhadores, principalmente na área rural.
Os bens confiscados
também são cuidados, muitas vezes, por quem sofreu direta ou indiretamente os
malefícios causados pela presença maciça do crime organizado na Itália como
ex-viciados em drogas, considerados vítimas da Máfia, já que o controle do
narcotráfico é disputado pelas organizações criminosas. Ex-detentos também estão
entre os beneficiados pelo projeto desenvolvido pela Libera. (© Zero Hora Digital) |