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Mostra no Centro Cultural São
Paulo apresenta filmes inéditos e cópias restauradas do cineasta italiano
TIAGO MATA MACHADO
CRÍTICO DA FOLHA
Dois anos após o famoso "Basta!" que proferiu ao morrer, em março
de 1976, durante uma apresentação da Segunda Sinfonia de Brahms, a obra de Luchino
Visconti começava a ganhar enfim a sua real dimensão com a mostra realizada sob os
auspícios da filha de Suso Cecchi d'Amico, velha parceira e roteirista do cineasta
-mostra que talvez não fosse tão completa e bem-cuidada quanto a que está sendo
apresentada no Centro Cultural São Paulo, com inúmeras cópias restauradas.
Só então "Ossessione" (1942), o primoroso
filme de estréia de Visconti, que levou o montador Mario Serandrei a cunhar o termo
"neo-realista", tornava-se acessível. Realizada durante o regime fascista, mas
censurada, mutilada e excomungada por toda a Itália, essa adaptação do romance de James
Cain, "The Postman Always Rings Twice", cuja tradução francesa pirata Visconti
ganhou de Jean Renoir, foi uma produção coletiva do grupo da revista "Cinema",
a célebre publicação que, apesar de dirigida pelo filho de Mussolini, tornou-se antro
de intelectuais de esquerda e comunistas clandestinos, e germe do cinema neo-realista do
pós-guerra.
A direção de Visconti nesse projeto coletivo não foi
apenas um álibi para enganar a censura fascista com a assinatura de um filho dileto da
mais importante família de Milão, a "Visconti di Modrone", que por dois
séculos reinou no norte da Itália. Fosse assim, "Ossessione" tenderia mais
para o realismo socialista do que para o realismo fenomenológico do Renoir dos anos da
Frente Popular, de quem Visconti foi o assistente (ao lado de Cartier-Bresson e Jacques
Becker) em "Une Partie de Campagne". Com Renoir, Visconti aprendeu que cinema
só se faz com "cúmplices" e que não se filma o homem dissociado do mundo, do
ambiente que cria a presença viva das suas paixões.
Deflagrada a guerra, o grupo da "Cinema"
começa a ser perseguido e preso pelos fascistas. Visconti entra para a Resistência,
coloca a casa e a fortuna ao dispor dos companheiros de luta, tenta juntar-se a Rossellini
nas montanhas apeninas, esconde-se na casa de Anna Magnani e acaba preso quando se
preparava para realizar sua primeira "ação direta".
Na "Pensione Oltremare", prisão que foi tema
de um de seus projetos abortados, Visconti maturou, pelo horror, o seu ideal político.
Vítima de espancamento e testemunha de torturas, escapou da morte graças ao bom nome da
família e aos favores sexuais que uma amiga, a atriz Maria Denis, prestou ao chefe da
polícia política, Pietro Koch, cujo julgamento e execução Visconti filmaria, no
pós-guerra, no documentário coletivo "Dias de Glória", uma das atrações
inéditas da mostra do Centro Cultural. A Resistência fomentara o novo cinema italiano.
Enquanto Rossellini e De Sica consagram, no
pós-guerra, o cinema neo-realista, Visconti dedica-se a renovar a cena teatral italiana,
sua paixão primeira, só retornando ao cinema para dar ao neo-realismo, em 1948, o seu
desfecho em "La Terra Trema". Nesse filme financiado pelo Partido Comunista e
ligeiramente inspirado em um romance de Verga, Visconti tenta captar, em um grupo de
pescadores sicilianos, o embrião de uma "consciência comunista", mas o que se
evidencia, mais uma vez, a exemplo de "Ossessione", é o estetismo visionário
do cineasta, essa visão algo sensual da unidade entre o homem e a natureza que levaria
parte da crítica a apontar um certo "romantismo marxista" em Visconti.
O belo nunca deixaria de constituir uma espécie de
"quarta dimensão" do cinema de Visconti. Esse dualismo constante entre o
Visconti político (realista/pragmático) e o Visconti esteta (irrealista/romântico),
dualismo que costuma ser esquematicamente associado à sua primeira formação (à tensão
entre a herança ético-racionalista da mãe burguesa e o legado estético-decadentista do
pai aristocrata) e que sempre lhe rendeu, apesar de obras-primas como "Um Rosto na
Multidão", os maiores desgostos e incompreensões, tende a encontrar a
conciliação, com o tempo, numa espécie de humanismo hedonista. (© Folha de S. Paulo)
ESPLENDOR DE VISCONTI + NOVO
CINEMA ITALIANO - mostra com filmes de Luchino Visconti. Onde: Centro Cultural São
Paulo (r. Vergueiro, 1.000, Paraíso, tel. 0/xx/11/ 3277-3611, ramal 279). Quando:
até dia 23.08.2002. Entrada franca. Patrocinadores: Serasa, Agip do Brasil, Iveco,
Comolatti. |