Retornar ao índice ItaliaOggi

Notizie d'Italia

 

História da descoberta de um tesouro

19/08/2002

Desenho do candelabro, com um pedestal em duas partes de grandeza monumental, típica do vocabulário arquitetônico de Michelangelo

 

Um autêntico Michelangelo passou décadas, bem debaixo dos narizes de um enxame de experts em arte, sem ser percebido. Até que o diretor de un museu escocês foi passar férias em Nova York a seu modo: vasculhando desenhos esquecidos em caixas de museus, em quartos de despejo de negociantes, em mercados das pulgas. Por Michael Kimmelman e Paul Jeromack , de The New York Times

   Num caso insuperável de "e o tesouro estava no sótão", um diretor de museu da Escócia, que resolveu passar as férias trabalhando, vasculhando velhas caixas de desenhos de acessórios luminosos, no museu de desenho Cooper-Hewitt, achou o que vários especialistas concordam ser uma obra de Michelangelo.

   Se for, a descoberta é certamente uma das mais notáveis, em anos, no terreno das artes. Mas surpreendente por ter permanecido por décadas bem debaixo dos narizes de um enxame de experts em arte, numa cidade, Nova York, que se considera a capital mundial da arte.

   O desenho, grande e rebuscado, em carvão sobre papel creme, 43,2 cm de altura por 25,4 cm de largura, foi encontrado por sir Timothy Clifford, o diretor das National Galleries of Scotland, de Edinburgh. Mostra um elaborado candelabro, com um pedestal em duas partes de grandeza monumental, típica do vocabulário arquitetônico de Michelangelo.

   O pedestal, suportado por garras de leão, ladeado por serafins alados encarapitados em volutas, é uma enciclopédia virtual dos ornamentos da Alta Renascença: guirlandas, cabeças de carneiro, máscaras e urnas. O pedestal suporta igualmente uma coluna com um complexo multipartido de vasos, mais urnas, balaústres e braços, que estão levemente esboçados.

   Sir Timothy diz acreditar que o desenho relaciona-se ao grande projeto de Michelangelo para o túmulo dos Medici, em Florença, e que o candelabro é provavelmente um menorá, embora outros especialistas não estejam convencidos.

   Mas autoridades dos dois lados do Atlântico têm dito que a obra é quase que certamente de Michelangelo. George Goldner, o curador de desenhos do Metropolitan Museum of Art, afirma: "A atribuição é absolutamente correta. Não é um pequeno fragmento, nem sequer uma parte. É um desenho bom e importante, que qualquer museu ficaria feliz em possuir, uma descoberta maravilhosa, algo grande."

   Michael Hirst e Paul Joannides, proeminentes experts em Michelangelo da Inglaterra, viram o desenho e aprovaram a atribuição também, de acordo com sir Timothy, e os responsáveis do Cooper-Hewitt estavam presentes quando esses especialistas revisaram a obra.

   A descoberta, embora um grande achado para o Cooper-Hewitt, chega num momento complicado para este museu da Smithsonian Instituition, onde o novo diretor, Paul Thompson, demitiu vários curadores. Entre os que saíram está a curadora de desenhos, Marilyn Symmes, sob os cuidados de quem o Michelangelo tinha ostensivamente estado. Ela não quis dar declarações sobre o caso.

   O museu comprou o desenho em 1942, como parte de um lote de desenhos decorativos, de P. & D. Colnaghi, comerciante de arte inglês, pagando US$ 60. (Os desenhos de Michelangelo atualmente são vendidos por milhões de dólares.) Colnaghi o considerou uma obra anônima do século 16. Ele o adquiriu em 1921, em um leilão da Sotheby´s da coleção de lord Amherst of Hackney.

   Muitos museus têm vastas coleções que permanecem sem estudo por falta de pessoal ou expertize para analisá-las. O Cooper-Hewitt tem mais de 160 mil obras em papel. "Não acredito que ninguém nunca tivesse olhado para o desenho antes", diz Goldner, "mas nunca ninguém o olhou corretamente."

   Sir Timothy, 60 anos, é conhecido por sua personalidade pitoresca, com uma reputação de ir atrás da presa como um cão de caça. Um connoisseur eclético com uma lingua ferina e alto estilo, ele criou sua marca há anos, tanto por frustrar alegremente ricos museus americanos, que tentaram comprar arte na Inglaterra e levá-la para os Estados Unidos, como por ter redecorado seu museu extravagantemente, chegando ao ponto de desenhar uniformes para seu pessoal com um padrão especial de tartan (tecido de lã da Escócia com desenho em xadrez).

   "Fiz muitas descobertas, mas esta ultrapassa todas", diz ele, da Itália, onde está trabalhando, em uma entrevista por telefone.

   Em abril, ele estava em Nova York, em férias, com sua mulher, lady Jane Clifford. Férias para sir Timothy significa xeretear caixas intocadas de desenhos anônimos em cantos distantes de museus, nas salas de despejo de comerciantes e em mercados das pulgas.

   Uma vez ele encontrou um desenho do artista alemão Hans Baldung, do século 16, numa banca do mercado das pulgas de Portobello Road, em Londres, e aos 20 anos, um desenho de Agnolo Bronzino, o maneirista florentino, numa caixa de fragmentos sem identificação numa livraria de Londres.

   No Met, anos atrás, achou o desenho de outro maneirista italiano, Taddeo Zuccaro, do século 16, que ninguém tinha notado porque pertencia à coleção de artes decorativas, onde especialistas nos velhos mestres preferem não mexer, porque lhes falta conhecimento nesse campo.

   Mas no início de sua carreira, sir Timothy foi assistente de curadoria do Victoria and Albert Museum, em Londres, trabalhando com cerâmica. Como uma criança pequena, ele colecionava porcelana e estava tão obcecado que costumava ir para a cama com suas xícaras e pires, dando-lhes pancadinhas para determinar pelo toque, no escuro, se poderia saber de que fábrica da França – Sèvres. St. Cloud, Chantilly – vieram.

   Os grandes pintores e escultores da Renascença e do Barroco criavam objetos decorativos: Rafael desenhava tapeçarias; Giulio Romano, prata; Botticelli, estandartes e bandeiras; Alessandro Algardi até mesmo esculpia figuras de gelo para banquetes. Assim sir Timothy tornou-se extraordinariamente bem posicionado para descobrir obras num caminho secundário, não usado e rico, da história da arte.

   Em Nova York, há alguns meses, marcou uma hora para vasculhar as caixas de desenhos do Cooper-Hewitt. "Começamos com a primeira caixa da primeira prateleira e fomos indo", conta Floramae McCarron-Cates, a assistente de curadoria para gravuras e desenhos, que o ajudou a olhar. Ela diz que ele abriu centenas de caixas em um mês.

   Encontrou uns poucos desenhos anônimos que identificou com mestres menores italianos. Quando pegou a caixa 366, marcada com "acessórios luminosos", encontrou principalmente desenhos dos séculos 18 e 19 de qualidade variada, ilustrando fontes, molheiras, candelabros e por aí vai.

   Um desenho a carvão atribuído a Perino del Vaga, um pouco conhecido pintor do século 16, estava incongruentemente misturado a eles.

   Sir Timothy, o coração na garganta, pensou instantaneamente: Michelangelo.

   Por quê?

   Ele caiu na gargalhada. "Foi exatamente como se reconhecesse um amigo na rua ou minha mulher, do outro lado da mesa, no café da manhã", disse. "Se você é um historiador de arte ou um connoisseur, reconhece uma personalidade artística. Tinha visto todos os desenhos de Michelangelo na Inglaterra, no castelo de Windsor, no Ashmolean Museum, no British Museum e em Florença, na Casa Buonarroti e no Uffizi."

   Sarah E. Lawrence, que ensina artes decorativas no Cooper-Hewitt, diz: "A caixa tinha passado por outras pessoas antes. Mas, como não era uma caixa de desenhos do século 16 italiano, a obra estava fora de contexto. Tim Clifford, tendo visto tão ampla extensão da obra, pôde identificá-la."

   Sir Timothy diz: "Uma porção de desenhos como este é negligenciada. Com Michelangelo, as pessoas pensam em grandes figuras em giz, estudos para Adão. Não percebem que Michelangelo era um arquiteto e, como muitos artistas da Renascença, num momento lhe encomendavam um relicário, no outro, um desenho para um cavalo de bronze, no seguinte, uma adaga."

   O sonho de todo historiador é encontrar um Michelangelo. Há menos de uma dezena de desenhos dele nos Estados Unidos. Um foi descoberto em Nova York, em 1976, no Met. O museu o tinha comprado, em 1962, como sendo obra anônima de um artista do círculo de Michelangelo. Mas mais que um pretenso Michelangelo comprovou-se ilusório ou de atribuição questionável. Nos meados dos anos 80, uma escultura de gesso foi glorificada nas primeiras páginas dos jornais como sendo o modelo para o Davi, de Michelangelo, apenas para ser ridicularizada. Frederik Hartt, um especialista em Michelangelo que morreu em 1991, chamou a atençao para a relação de Michelangelo com aquela escultura e, soube-se depois, tinha interesse financeiro nisso.

   Em 1966, outra escultura, parte de uma fonte no hall de entrada do consulado francês, na Quinta Avenida, em Nova York, foi anunciada como um mármore de Cupido da primeira fase de Michelangelo, mas alguns especialista expressaram dúvidas depois.

   Na afobação de seu entusiasmo, sir Timothy encontrou no Cooper-Hewitt outro desenho que pensou ser de Leonardo da Vinci. Aí, os especialistas parecem não concordar com ele. Goldner diz: "É muito bem trabalhado e um bom desenho, mas não estou certo de que seja de Leonardo; ao passo que, no caso do Michelangelo, não tenho nenhuma dúvida."

   Sir Timothy data a obra que ele atribui a Michelangelo em um período entre 1525 e 1530, em Florença. Diz que Hirst, o expert inglês, acredita que tenha sido desenhada mais tarde, em Roma.

   Goldner não está seguro de que o candelabro seja um menorá (usado nos serviços religiosos do judaísmo), como sir Timothy planeja argumentar, num artigo futuro no Apollo, um jornal inglês de arte. Sir Timothy e o museu mantiveram silêncio sobre a descoberta, assim ele pôde preparar sua pesquisa. Thompson, o diretor do Cooper-Hewitt, diz que, da sua parte, o museu, embora tenha sabido da atribuição de sir Timothy desde abril, precisa mais tempo "para contar a história do desenho convenientemente".

   O plano, diz, é organizar uma exposição para o próximo ano. Perguntado se o museu não deveria mostrar a obra antes, porque o público deve estar interessado, responde que não está seguro. "Somos um lugar de acesso público, assim precisamos pensar bem antes." (© maga.zine - estadao.com.br)

Publicidade

Pesquise no Site ou Web

Google
Web ItaliaOggi

Notizie d'Italia | Gastronomia | Migrazioni | Cidadania | Home ItaliaOggi