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Um autêntico Michelangelo passou décadas, bem
debaixo dos narizes de um enxame de experts em arte, sem ser percebido. Até que o diretor
de un museu escocês foi passar férias em Nova York a seu modo: vasculhando desenhos
esquecidos em caixas de museus, em quartos de despejo de negociantes, em mercados das
pulgas. Por Michael Kimmelman e Paul Jeromack , de The New York Times
Num caso
insuperável de "e o tesouro estava no sótão", um diretor de museu da
Escócia, que resolveu passar as férias trabalhando, vasculhando velhas caixas de
desenhos de acessórios luminosos, no museu de desenho Cooper-Hewitt, achou o que vários
especialistas concordam ser uma obra de Michelangelo.
Se for, a descoberta é certamente uma das mais
notáveis, em anos, no terreno das artes. Mas surpreendente por ter permanecido por
décadas bem debaixo dos narizes de um enxame de experts em arte, numa cidade, Nova York,
que se considera a capital mundial da arte.
O desenho, grande e rebuscado, em carvão sobre papel
creme, 43,2 cm de altura por 25,4 cm de largura, foi encontrado por sir Timothy Clifford,
o diretor das National Galleries of Scotland, de Edinburgh. Mostra um elaborado
candelabro, com um pedestal em duas partes de grandeza monumental, típica do vocabulário
arquitetônico de Michelangelo.
O pedestal, suportado por garras de leão, ladeado por
serafins alados encarapitados em volutas, é uma enciclopédia virtual dos ornamentos da
Alta Renascença: guirlandas, cabeças de carneiro, máscaras e urnas. O pedestal suporta
igualmente uma coluna com um complexo multipartido de vasos, mais urnas, balaústres e
braços, que estão levemente esboçados.
Sir Timothy diz acreditar que o desenho relaciona-se ao
grande projeto de Michelangelo para o túmulo dos Medici, em Florença, e que o candelabro
é provavelmente um menorá, embora outros especialistas não estejam convencidos.
Mas autoridades dos dois lados do Atlântico têm dito
que a obra é quase que certamente de Michelangelo. George Goldner, o curador de desenhos
do Metropolitan Museum of Art, afirma: "A atribuição é absolutamente correta. Não
é um pequeno fragmento, nem sequer uma parte. É um desenho bom e importante, que
qualquer museu ficaria feliz em possuir, uma descoberta maravilhosa, algo grande."
Michael Hirst e Paul Joannides, proeminentes experts em
Michelangelo da Inglaterra, viram o desenho e aprovaram a atribuição também, de acordo
com sir Timothy, e os responsáveis do Cooper-Hewitt estavam presentes quando esses
especialistas revisaram a obra.
A descoberta, embora um grande achado para o Cooper-Hewitt, chega num
momento complicado para este museu da Smithsonian Instituition, onde o novo diretor, Paul
Thompson, demitiu vários curadores. Entre os que saíram está a curadora de desenhos,
Marilyn Symmes, sob os cuidados de quem o Michelangelo tinha ostensivamente estado. Ela
não quis dar declarações sobre o caso.
O museu comprou o desenho em 1942, como parte de
um lote de desenhos decorativos, de P. & D. Colnaghi, comerciante de arte inglês,
pagando US$ 60. (Os desenhos de Michelangelo atualmente são vendidos por milhões de
dólares.) Colnaghi o considerou uma obra anônima do século 16. Ele o adquiriu em 1921,
em um leilão da Sotheby´s da coleção de lord Amherst of Hackney.
Muitos museus têm vastas coleções que
permanecem sem estudo por falta de pessoal ou expertize para analisá-las. O Cooper-Hewitt
tem mais de 160 mil obras em papel. "Não acredito que ninguém nunca tivesse olhado
para o desenho antes", diz Goldner, "mas nunca ninguém o olhou
corretamente."
Sir Timothy, 60 anos, é conhecido por sua personalidade
pitoresca, com uma reputação de ir atrás da presa como um cão de caça. Um connoisseur
eclético com uma lingua ferina e alto estilo, ele criou sua marca há anos, tanto por
frustrar alegremente ricos museus americanos, que tentaram comprar arte na Inglaterra e
levá-la para os Estados Unidos, como por ter redecorado seu museu extravagantemente,
chegando ao ponto de desenhar uniformes para seu pessoal com um padrão especial de tartan
(tecido de lã da Escócia com desenho em xadrez).
"Fiz
muitas descobertas, mas esta ultrapassa todas", diz ele, da Itália, onde está
trabalhando, em uma entrevista por telefone.
Em abril, ele
estava em Nova York, em férias, com sua mulher, lady Jane Clifford. Férias para sir
Timothy significa xeretear caixas intocadas de desenhos anônimos em cantos distantes de
museus, nas salas de despejo de comerciantes e em mercados das pulgas.
Uma vez ele
encontrou um desenho do artista alemão Hans Baldung, do século 16, numa banca do mercado
das pulgas de Portobello Road, em Londres, e aos 20 anos, um desenho de Agnolo Bronzino, o
maneirista florentino, numa caixa de fragmentos sem identificação numa livraria de
Londres.
No Met, anos atrás, achou o
desenho de outro maneirista italiano, Taddeo Zuccaro, do século 16, que ninguém tinha
notado porque pertencia à coleção de artes decorativas, onde especialistas nos velhos
mestres preferem não mexer, porque lhes falta conhecimento nesse campo.
Mas no início de sua carreira, sir Timothy foi assistente de
curadoria do Victoria and Albert Museum, em Londres, trabalhando com cerâmica. Como uma
criança pequena, ele colecionava porcelana e estava tão obcecado que costumava ir para a
cama com suas xícaras e pires, dando-lhes pancadinhas para determinar pelo toque, no
escuro, se poderia saber de que fábrica da França Sèvres. St. Cloud, Chantilly
vieram.
Os
grandes pintores e escultores da Renascença e do Barroco criavam objetos decorativos:
Rafael desenhava tapeçarias; Giulio Romano, prata; Botticelli, estandartes e bandeiras;
Alessandro Algardi até mesmo esculpia figuras de gelo para banquetes. Assim sir Timothy
tornou-se extraordinariamente bem posicionado para descobrir obras num caminho
secundário, não usado e rico, da história da arte.
Em
Nova York, há alguns meses, marcou uma hora para vasculhar as caixas de desenhos do
Cooper-Hewitt. "Começamos com a primeira caixa da primeira prateleira e fomos
indo", conta Floramae McCarron-Cates, a assistente de curadoria para gravuras e
desenhos, que o ajudou a olhar. Ela diz que ele abriu centenas de caixas em um mês.
Encontrou
uns poucos desenhos anônimos que identificou com mestres menores italianos. Quando pegou
a caixa 366, marcada com "acessórios luminosos", encontrou principalmente
desenhos dos séculos 18 e 19 de qualidade variada, ilustrando fontes, molheiras,
candelabros e por aí vai.
Um
desenho a carvão atribuído a Perino del Vaga, um pouco conhecido pintor do século 16,
estava incongruentemente misturado a eles.
Sir
Timothy, o coração na garganta, pensou instantaneamente: Michelangelo.
Por quê?
Ele
caiu na gargalhada. "Foi exatamente como se reconhecesse um amigo na rua ou minha
mulher, do outro lado da mesa, no café da manhã", disse. "Se você é um
historiador de arte ou um connoisseur, reconhece uma personalidade artística. Tinha visto
todos os desenhos de Michelangelo na Inglaterra, no castelo de Windsor, no Ashmolean
Museum, no British Museum e em Florença, na Casa Buonarroti e no Uffizi."
Sarah
E. Lawrence, que ensina artes decorativas no Cooper-Hewitt, diz: "A caixa tinha
passado por outras pessoas antes. Mas, como não era uma caixa de desenhos do século 16
italiano, a obra estava fora de contexto. Tim Clifford, tendo visto tão ampla extensão
da obra, pôde identificá-la."
Sir Timothy diz:
"Uma porção de desenhos como este é negligenciada. Com Michelangelo, as pessoas
pensam em grandes figuras em giz, estudos para Adão. Não percebem que Michelangelo era
um arquiteto e, como muitos artistas da Renascença, num momento lhe encomendavam um
relicário, no outro, um desenho para um cavalo de bronze, no seguinte, uma adaga."
O
sonho de todo historiador é encontrar um Michelangelo. Há menos de uma dezena de
desenhos dele nos Estados Unidos. Um foi descoberto em Nova York, em 1976, no Met. O museu
o tinha comprado, em 1962, como sendo obra anônima de um artista do círculo de
Michelangelo. Mas mais que um pretenso Michelangelo comprovou-se ilusório ou de
atribuição questionável. Nos meados dos anos 80, uma escultura de gesso foi glorificada
nas primeiras páginas dos jornais como sendo o modelo para o Davi, de
Michelangelo, apenas para ser ridicularizada. Frederik Hartt, um especialista em
Michelangelo que morreu em 1991, chamou a atençao para a relação de Michelangelo com
aquela escultura e, soube-se depois, tinha interesse financeiro nisso.
Em
1966, outra escultura, parte de uma fonte no hall de entrada do consulado francês, na
Quinta Avenida, em Nova York, foi anunciada como um mármore de Cupido da primeira fase de
Michelangelo, mas alguns especialista expressaram dúvidas depois.
Na
afobação de seu entusiasmo, sir Timothy encontrou no Cooper-Hewitt outro desenho que
pensou ser de Leonardo da Vinci. Aí, os especialistas parecem não concordar com ele.
Goldner diz: "É muito bem trabalhado e um bom desenho, mas não estou certo de que
seja de Leonardo; ao passo que, no caso do Michelangelo, não tenho nenhuma dúvida."
Sir Timothy data
a obra que ele atribui a Michelangelo em um período entre 1525 e 1530, em Florença. Diz
que Hirst, o expert inglês, acredita que tenha sido desenhada mais tarde, em Roma.
Goldner
não está seguro de que o candelabro seja um menorá (usado nos serviços religiosos do
judaísmo), como sir Timothy planeja argumentar, num artigo futuro no Apollo, um
jornal inglês de arte. Sir Timothy e o museu mantiveram silêncio sobre a descoberta,
assim ele pôde preparar sua pesquisa. Thompson, o diretor do Cooper-Hewitt, diz que, da
sua parte, o museu, embora tenha sabido da atribuição de sir Timothy desde abril,
precisa mais tempo "para contar a história do desenho convenientemente".
O
plano, diz, é organizar uma exposição para o próximo ano. Perguntado se o museu não
deveria mostrar a obra antes, porque o público deve estar interessado, responde que não
está seguro. "Somos um lugar de acesso público, assim precisamos pensar bem
antes." (©
maga.zine - estadao.com.br) |