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Guerra suja na reta final italiana

08/05/2001

AFP

A cinco dias da eleição, presidente intervém mas não baixa o tom da campanha liderada pelo magnata Silvio Berlusconi

ARAUJO NETTO

ROMA

Está valendo tudo nestes últimos dias da campanha eleitoral na Itália, que no próximo domingo renovará seu parlamento de 630 deputados e 315 senadores e decidirá quem governará o país. Aos 25% de eleitores que insistem em declarar-se indecisos, decididos a votar mas sem saber em quem, como revelam as últimas sondagens, atribui-se o crescimento da tensão, a perda de compostura, o excesso de agressões verbais e até mesmo de gafes cometidas pelos vários candidatos das coalizões de direita e de centro-esquerda. Segundo a última pesquisa de opinião permitida por lei, divulgada duas semanas antes da eleição, a aliança direitista liderada pelo magnata da comunicação Silvio Berlusconi estava quatro pontos à frente da centro-esquerda representada pelo ex-prefeito de Roma Franceso Rutelli.

No último grande comício que decidiu realizar em Galipoli, uma cidade pequena e muito bonita da região das Apúlias, que há muitos anos se transformou numa espécie de feudo eleitoral do ex-comunista, ex-primeiro ministro e atual presidente dos democratas de esquerda, Massimo DAlema, o cavaliere Berlusconi superou-se nos insultos a um adversário que poucos dias atrás reconhecia como o único líder social-democrata autêntico. Depois do vibrante apelo que lançou aos eleitores de Galipoli, para não reeleger DAlema e assim obrigá-lo a trabalhar ''pela primeira vez na vida'', Berlusconi decidiu generalizar o seu insulto, incluindo todos os políticos profissionais.

   Conflito de interesses - Disposto a consolidar sua liderança na preferência do eleitorado, o Pólo da Liberdade, aliança de Berlusconi, divulgou ontem na internet um manifesto eleitoral de 85 páginas, no qual prevê o corte de US$32 bilhões em impostos e a criação de 1,5 milhões de empregos nos próximos cinco anos. A ausência mais sentida no documento foi uma menção à lei que Berlusconi vinha prometendo nas últimas semanas para resolver o conflito de interesses entre os negócios e a política. Dono de um império que inclui estações de TV, uma editora e um grupo financeiro, o homem mais rico da Itália afirmara que apresentaria a lei nos primeiros cem dias de governo. Ontem, limitou-se a dizer que não revelará antes de domingo se venderá a empresa Mediaset, que reúne as três emissoras de TV.

   Ao reiterar sua decisão de não aceitar qualquer debate ou confronto direto com seu principal adversário, Francesco Rutelli, Berlusconi explicou que não vê no jovem ex-prefeito de Roma um líder sério, apenas o rosto bonito que os comunistas usam para enfrentá-lo. Para justificar sua decisão de não mais aceitar um debate com DAlema, que antes apontava como líder incontestável das esquerdas, Berlusconi lembrou que ele chegou a poder - substituindo Romano Prodi como primeiro-ministro - com uma operação muito atrevida, pela qual pagou a adesão de gente eleita pela direita com postos no governo. A afirmação provocou uma indignada reação do ex-presidente da República Francesco Cossiga, que anunciou a retirada do apoio a Berlusconi - a quem chamou de ''mal educado e grosseiro''.

   Ferrari - Diante do deprimente espetáculo em que se transformou a campanha eleitoral - um espetáculo que abala o prestígio e compromete a imagem da Itália - o presidente da república, Carlo Azeglio Ciampi, voltou a formular um enérgico apelo a todos os políticos e partidos empenhados na disputa pelos 49 milhões de votos do próximo domingo. ''Muitas vezes já repeti e não me cansarei de repetir que o bom governo numa democracia sadia requer e pressupõe o respeito recíproco, o mais autêntico respeito entre maioria e oposição'', disse.

   As palavras do presidente Ciampi de pouco devem adiantar, mas foram comemoradas pelo candidato Francesco Rutelli, que poucas horas antes pedira que ''alguém de autoridade indiscutível interviesse para impedir ofensas como as que Berlusconi lançou contra DAlema e contra a classe política''.

   Apesar da dianteira de Berlusconi, Rutelli disse ontem que confia na vitória do centro-esquerda no domingo. ''Venceremos como Schumacher, na última volta, mas sem que o carro do rival quebre'', brincou, lembrando a surpreendente vitória do piloto alemão no Grande Prêmio da Espanha de Fórmula 1, no mês passado, correndo pela escuderia italiana Ferrari. (Jornal do Brasil)


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