ARAUJO NETTO
ROMA
Está valendo tudo nestes últimos dias da campanha
eleitoral na Itália, que no próximo domingo renovará seu parlamento de 630 deputados e
315 senadores e decidirá quem governará o país. Aos 25% de eleitores que insistem em
declarar-se indecisos, decididos a votar mas sem saber em quem, como revelam as últimas
sondagens, atribui-se o crescimento da tensão, a perda de compostura, o excesso de
agressões verbais e até mesmo de gafes cometidas pelos vários candidatos das coalizões
de direita e de centro-esquerda. Segundo a última pesquisa de opinião permitida por lei,
divulgada duas semanas antes da eleição, a aliança direitista liderada pelo magnata da
comunicação Silvio Berlusconi estava quatro pontos à frente da centro-esquerda
representada pelo ex-prefeito de Roma Franceso Rutelli.
No último grande comício que decidiu realizar em
Galipoli, uma cidade pequena e muito bonita da região das Apúlias, que há muitos anos
se transformou numa espécie de feudo eleitoral do ex-comunista, ex-primeiro ministro e
atual presidente dos democratas de esquerda, Massimo DAlema, o cavaliere Berlusconi
superou-se nos insultos a um adversário que poucos dias atrás reconhecia como o único
líder social-democrata autêntico. Depois do vibrante apelo que lançou aos eleitores de
Galipoli, para não reeleger DAlema e assim obrigá-lo a trabalhar ''pela primeira vez na
vida'', Berlusconi decidiu generalizar o seu insulto, incluindo todos os políticos
profissionais.
Conflito de interesses -
Disposto a consolidar sua liderança na preferência do eleitorado, o Pólo da Liberdade,
aliança de Berlusconi, divulgou ontem na internet um manifesto eleitoral de 85 páginas,
no qual prevê o corte de US$32 bilhões em impostos e a criação de 1,5 milhões de
empregos nos próximos cinco anos. A ausência mais sentida no documento foi uma menção
à lei que Berlusconi vinha prometendo nas últimas semanas para resolver o conflito de
interesses entre os negócios e a política. Dono de um império que inclui estações de
TV, uma editora e um grupo financeiro, o homem mais rico da Itália afirmara que
apresentaria a lei nos primeiros cem dias de governo. Ontem, limitou-se a dizer que não
revelará antes de domingo se venderá a empresa Mediaset, que reúne as três emissoras
de TV.
Ao reiterar sua decisão de não
aceitar qualquer debate ou confronto direto com seu principal adversário, Francesco
Rutelli, Berlusconi explicou que não vê no jovem ex-prefeito de Roma um líder sério,
apenas o rosto bonito que os comunistas usam para enfrentá-lo. Para justificar sua
decisão de não mais aceitar um debate com DAlema, que antes apontava como líder
incontestável das esquerdas, Berlusconi lembrou que ele chegou a poder - substituindo
Romano Prodi como primeiro-ministro - com uma operação muito atrevida, pela qual pagou a
adesão de gente eleita pela direita com postos no governo. A afirmação provocou uma
indignada reação do ex-presidente da República Francesco Cossiga, que anunciou a
retirada do apoio a Berlusconi - a quem chamou de ''mal educado e grosseiro''.
Ferrari - Diante do deprimente
espetáculo em que se transformou a campanha eleitoral - um espetáculo que abala o
prestígio e compromete a imagem da Itália - o presidente da república, Carlo Azeglio
Ciampi, voltou a formular um enérgico apelo a todos os políticos e partidos empenhados
na disputa pelos 49 milhões de votos do próximo domingo. ''Muitas vezes já repeti e
não me cansarei de repetir que o bom governo numa democracia sadia requer e pressupõe o
respeito recíproco, o mais autêntico respeito entre maioria e oposição'', disse.
As palavras do presidente Ciampi de
pouco devem adiantar, mas foram comemoradas pelo candidato Francesco Rutelli, que poucas
horas antes pedira que ''alguém de autoridade indiscutível interviesse para impedir
ofensas como as que Berlusconi lançou contra DAlema e contra a classe política''.
Apesar da dianteira de Berlusconi,
Rutelli disse ontem que confia na vitória do centro-esquerda no domingo. ''Venceremos
como Schumacher, na última volta, mas sem que o carro do rival quebre'', brincou,
lembrando a surpreendente vitória do piloto alemão no Grande Prêmio da Espanha de
Fórmula 1, no mês passado, correndo pela escuderia italiana Ferrari. (Jornal do Brasil)