Mostras paralelas
apresentam ainda Tunga, Miguel Rio Branco, Carmem Miranda e barroco brasileiro
FABIO CYPRIANO
A escolha é óbvia. O curador italiano Germano Celant, o primeiro
estrangeiro a selecionar a representação brasileira na Bienal de Veneza, leva Ernesto
Neto e Vik Muniz para a Itália. A bienal tem início no dia 6 de junho, para convidados.
Neto e Muniz são dois dos artistas brasileiros
contemporâneos com maior destaque no cenário internacional. O primeiro criou
recentemente uma enorme instalação para o foyer do Museu de Arte Moderna de Nova York,
além de também ter sido o único brasileiro escolhido pelo curador-geral, Harald
Szeemann, para a mostra "Plataforma da Humanidade" (leia a lista completa dos
selecionados no quadro abaixo), na própria Bienal de Veneza.
Já Muniz acaba de realizar uma retrospectiva no importante
Museu Whitney, também em Nova York. Portanto vitrine não lhes falta. Mesmo assim, Celant
decidiu-se por uma representação já com prestígio, mas que, até por isso, tem grande
chances a um dos prêmios da bienal.
"Aquilo que parece óbvio localmente ou segundo uma
visão filoamericana não é óbvio para uma leitura verdadeiramente mundial e
multiétnica que é aquela que funciona na Bienal de Veneza", justifica-se Celant. A
entrevista com o curador teve de ser mediada pela assessoria de imprensa da Associação
Brasil + 500, que organiza a representação nacional em Veneza. As perguntas foram
enviadas para a assessoria, que forneceu as respostas já traduzidas.
"A bienal italiana não é voltada para as massas, como
a de São Paulo, mas para uma elite de formadores de opinião; ela fortifica
talentos", afirma à Folha Edemar Cid Ferreira, o presidente da associação. A
entidade foi encarregada pela Fundação Bienal de São Paulo de organizar a
participação brasileira em Veneza, com a justificativa de que ela estaria ainda no
âmbito das comemorações dos 500 anos do Descobrimento.
Além de ocuparem o pavilhão brasileiro nos jardins da
bienal, Muniz e Neto irão também criar obras para o Palazzo Fortuny, um edifício em
estilo gótico do século 15, alugado pela associação. A princípio, esse espaço seria
ocupado por jovens artistas brasileiros, mas Celant mudou de idéia. "Eu pedi que ele
descobrisse novos artistas, mas não foi o que aconteceu. Como quem manda é o curador,
ele achou que fazia mais sentido reforçar a presença de Vik e Ernesto", diz Edemar
Cid Ferreira.
Muniz e Neto não estão sozinhos no Palazzo Fortuny. Celant
também organiza lá uma mostra sobre Carmem Miranda, com roupas, sapatos e bijuterias da
artista. Haverá ainda uma mostra sobre o Carnaval carioca, com fantasias da escola de
samba Imperatriz Leopoldinense. A mostra fica até setembro, quando ocorre o Festival
Internacional de Cinema de Veneza. A associação pretende apresentar então "uma
retrospectiva de filmes com Carmem Miranda e produções antológicas nacionais", diz
Ferreira.
"Creio que seja importante aportar em Veneza com um
retrato complexo e rico da cultura brasileira, que inclua valores diferentes. Em todas as
culturas nacionais, o papel de personagens como Josephine Baker e Marlene Dietrich é
reconhecido, tanto que foi exaltado pelas vanguardas artísticas dos anos 20 e 30",
explica Celant.
A participação brasileira durante a bienal amplia-se ainda
no Museu Peggy Guggenheim de Veneza. Para lá, Celant selecionou Tunga e o fotógrafo
Miguel Rio Branco. Tunga prepara uma escultura que será adquirida pelo museu e irá
figurar ao lado de obras de Giacometti e Calder, entre outros. Segundo o curador,
"todos os artistas contemporâneos foram convidados a realizar trabalhos totalmente
inéditos, com obras de 2001".
Finalmente, Celant organiza ainda uma mostra de imagens
negras do barroco brasileiro, que serão exibidas na igreja San Giacomo dall'Orio, do
século 9, ao lado de obras barrocas italianas.
A associação afirma que ainda não tem os custos para a realização de todos os eventos
brasileiros que irão envolver a Bienal de Veneza. O governo brasileiro destinou R$ 200
mil para a bienal, mas, segundo Edemar Cid Ferreira, "esse valor foi repassado à
própria Fundação Bienal para a comemoração dos 50 anos da Bienal de São Paulo.
Nossos patrocinadores serão empresas italianas com representação no Brasil".
A associação irá promover ainda um jantar após o
tradicional coquetel no Museu Peggy Guggenheim, no dia 7 de junho. Será num mosteiro
alugado no Ca'Zenobio. Se a arte brasileira não agradar, ao menos a caipirinha do jantar
vai fazer sucesso. (Folha de S. Paulo)