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Veneza aposta no prestígio de Neto e Muniz

08/05/2001

 

 

Mostras paralelas apresentam ainda Tunga, Miguel Rio Branco, Carmem Miranda e barroco brasileiro

FABIO CYPRIANO

   A escolha é óbvia. O curador italiano Germano Celant, o primeiro estrangeiro a selecionar a representação brasileira na Bienal de Veneza, leva Ernesto Neto e Vik Muniz para a Itália. A bienal tem início no dia 6 de junho, para convidados.

   Neto e Muniz são dois dos artistas brasileiros contemporâneos com maior destaque no cenário internacional. O primeiro criou recentemente uma enorme instalação para o foyer do Museu de Arte Moderna de Nova York, além de também ter sido o único brasileiro escolhido pelo curador-geral, Harald Szeemann, para a mostra "Plataforma da Humanidade" (leia a lista completa dos selecionados no quadro abaixo), na própria Bienal de Veneza.

   Já Muniz acaba de realizar uma retrospectiva no importante Museu Whitney, também em Nova York. Portanto vitrine não lhes falta. Mesmo assim, Celant decidiu-se por uma representação já com prestígio, mas que, até por isso, tem grande chances a um dos prêmios da bienal.

   "Aquilo que parece óbvio localmente ou segundo uma visão filoamericana não é óbvio para uma leitura verdadeiramente mundial e multiétnica que é aquela que funciona na Bienal de Veneza", justifica-se Celant. A entrevista com o curador teve de ser mediada pela assessoria de imprensa da Associação Brasil + 500, que organiza a representação nacional em Veneza. As perguntas foram enviadas para a assessoria, que forneceu as respostas já traduzidas.

   "A bienal italiana não é voltada para as massas, como a de São Paulo, mas para uma elite de formadores de opinião; ela fortifica talentos", afirma à Folha Edemar Cid Ferreira, o presidente da associação. A entidade foi encarregada pela Fundação Bienal de São Paulo de organizar a participação brasileira em Veneza, com a justificativa de que ela estaria ainda no âmbito das comemorações dos 500 anos do Descobrimento.

   Além de ocuparem o pavilhão brasileiro nos jardins da bienal, Muniz e Neto irão também criar obras para o Palazzo Fortuny, um edifício em estilo gótico do século 15, alugado pela associação. A princípio, esse espaço seria ocupado por jovens artistas brasileiros, mas Celant mudou de idéia. "Eu pedi que ele descobrisse novos artistas, mas não foi o que aconteceu. Como quem manda é o curador, ele achou que fazia mais sentido reforçar a presença de Vik e Ernesto", diz Edemar Cid Ferreira.

   Muniz e Neto não estão sozinhos no Palazzo Fortuny. Celant também organiza lá uma mostra sobre Carmem Miranda, com roupas, sapatos e bijuterias da artista. Haverá ainda uma mostra sobre o Carnaval carioca, com fantasias da escola de samba Imperatriz Leopoldinense. A mostra fica até setembro, quando ocorre o Festival Internacional de Cinema de Veneza. A associação pretende apresentar então "uma retrospectiva de filmes com Carmem Miranda e produções antológicas nacionais", diz Ferreira.

   "Creio que seja importante aportar em Veneza com um retrato complexo e rico da cultura brasileira, que inclua valores diferentes. Em todas as culturas nacionais, o papel de personagens como Josephine Baker e Marlene Dietrich é reconhecido, tanto que foi exaltado pelas vanguardas artísticas dos anos 20 e 30", explica Celant.

   A participação brasileira durante a bienal amplia-se ainda no Museu Peggy Guggenheim de Veneza. Para lá, Celant selecionou Tunga e o fotógrafo Miguel Rio Branco. Tunga prepara uma escultura que será adquirida pelo museu e irá figurar ao lado de obras de Giacometti e Calder, entre outros. Segundo o curador, "todos os artistas contemporâneos foram convidados a realizar trabalhos totalmente inéditos, com obras de 2001".

   Finalmente, Celant organiza ainda uma mostra de imagens negras do barroco brasileiro, que serão exibidas na igreja San Giacomo dall'Orio, do século 9, ao lado de obras barrocas italianas.
A associação afirma que ainda não tem os custos para a realização de todos os eventos brasileiros que irão envolver a Bienal de Veneza. O governo brasileiro destinou R$ 200 mil para a bienal, mas, segundo Edemar Cid Ferreira, "esse valor foi repassado à própria Fundação Bienal para a comemoração dos 50 anos da Bienal de São Paulo. Nossos patrocinadores serão empresas italianas com representação no Brasil".

   A associação irá promover ainda um jantar após o tradicional coquetel no Museu Peggy Guggenheim, no dia 7 de junho. Será num mosteiro alugado no Ca'Zenobio. Se a arte brasileira não agradar, ao menos a caipirinha do jantar vai fazer sucesso. (Folha de S. Paulo)


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