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Berlusconi leva direita ao poder na Itália

14/05/2001

Silvio Berlusconi

 

Silvio Berlusconi

LILIAN CHRISTOFOLETTI

   Com uma vantagem de pelo menos seis pontos percentuais, segundo pesquisas de boca-de-urna, o polêmico candidato da coalizão centro-direita, Silvio Berlusconi, foi eleito ontem premiê da Itália. Com ele, chegam ao poder antieuropeus, xenófobos e pós-fascistas.

   Alvo de críticas da imprensa internacional e de intelectuais italianos, o conservador líder da coalizão Casa das Liberdades precisa de ao menos 316 dos 630 deputados no Parlamento para ter maioria absoluta. Se quiser governar sem depender principalmente do xenófobo Umberto Bossi, vai precisar de 361 deputados.

   Segundo projeções do instituto Datamedia, que entrevistou 2.000 pessoas, a coalizão de Berlusconi deve conquistar 369 cadeiras.

   A frente liderada por seu principal adversário, Francesco Rutelli (centro-esquerda), teria 247 deputados. Na última pesquisa de campanha, a diferença entre eles era de 5 pontos percentuais.
A principal preocupação agora, segundo analistas políticos, é saber se Berlusconi conseguirá governar longe da sombra de seus principais aliados: Umberto Bossi, líder da Liga Norte, e Gianfranco Fini, da Aliança Nacional.

   Os dois partidos italianos são amplamente rejeitados pela União Européia pela posição xenófoba, antieuropéia e fascista que mantêm. Já o líder de extrema direita austríaco Jörg Haider ficou animado: "A vitória de Berlusconi é uma coisa boa para a Europa".

   Quando Berlusconi foi eleito primeiro-ministro em 1994, foi obrigado a abandonar o poder após rompimento com Bossi, chamado na época de "traidor".

   A coalizão de centro-esquerda, que negou até o último momento o resultado da boca-de-urna, afirmou ontem à noite que a democracia italiana saiu prejudicada com a vitória de Berlusconi.
A frente de centro-esquerda, desgastada politicamente na Itália após cinco anos no poder e sucessivas crises internas, foi considerada uma das responsáveis pela vitória da direita. Rutelli, que acompanhou a apuração em casa, em Roma, ao lado de familiares e assessores, não fez declarações até o fechamento desta edição.

   Após a divulgação das projeções, representantes da coalizão questionaram a integridade do novo premiê, alvo de diversos processos por corrupção e lavagem de dinheiro. Criticaram ainda o conflito de interesses de Berlusconi -dono de três TVs privadas, passa a controlar também os três canais públicos.

   O canal público Rai Uno, que fez campanha declarada a favor de Rutelli, não deixou de criticar a vitória do magnata da TV. Dezenas de políticos, artistas e eleitores lamentaram, em entrevistas ao vivo, o resultado das eleições.

   A eleição italiana deu ontem um show de desorganização e de despreparo. Com acréscimo de participação de 10% de eleitores, em relação aos dados de 1994, os votantes precisaram esperar até duas horas para conseguir votar.

   Nem as estrelas da eleição italiana escaparam das longas filas. Berlusconi e Rutelli aguardaram em média 30 minutos para votar.

   O Ministério do Interior improvisou, aumentou o número de urnas nas escolas e ampliou o tempo de votação em uma hora. (Folha de S. Paulo)

Para Dario Fo, vitória da direita é "estúpida"

   O controvertido dramaturgo e ator italiano Dario Fo, 75, classificou de "estupidez" a vitória do candidato da coalizão de centro-direita, Silvio Berlusconi, que tem como aliados partidos xenófobos, pós-fascistas e antieuropeus.

   "Parece que não importa se a fortuna de Berlusconi foi construída em sociedade com a máfia e fraudando o próprio governo italiano", disse o Prêmio Nobel de Literatura de 1997, censurado, exilado da TV por 15 anos e já proibido de entrar nos EUA.

   Para Fo, ter como premiê da Itália um magnata das televisões italianas, condenado em primeira instância por lavagem de dinheiro, é "prejudicial" à democracia e uma "vergonha" para o país.

   O dramaturgo, que vive em Milão, conversou com a Folha por telefone. (LC)
Dario Fo - Mais do que isso. Ele é uma vergonha para a Itália. O país ficou nas mãos da direita, o que não é nada bom. Um problema mais imediato é o controle total que ele terá dos meios de comunicação. Como já era esperado, ele não se desfez dos canais privados de TV e nem vai se desfazer. Isso é perigoso porque a Itália é um país prisioneiro da televisão. É perigoso principalmente para as novas gerações, que têm como único ponto de referência aquilo que é exibido na televisão.

Folha - Como um político com graves acusações de corrupção, lavagem de dinheiro e ligação com a máfia chega ao poder?
Fo -
Eleger Berlusconi foi uma estupidez. Os eleitores deveriam ter feito um exame de consciência antes de votar. Durante a campanha, eles receberam inúmeras mensagens ressaltando que "Berlusconi enriqueceu sozinho", "construiu um império", "é dono de meio mundo". Parece não importar que a fortuna de Berlusconi tenha sido construída em sociedade com a máfia e fraudando o próprio governo italiano.

Folha - Apesar das acusações, ele não tem nenhuma condenação final (Berlusconi tem uma condenação em primeira instância por lavagem de dinheiro)...
Fo -
Com a fortuna que ele tem e a morosidade da Justiça italiana, isso é fácil. No poder, a direita vai se mover para resolver os conflitos de interesse, nem que para isso seja necessário alterar a legislação. Berlusconi vai governar em causa própria, e essa situação me entristece.

Folha - A vitória da direita, ligada a partidos xenófobos, antieuropeus e pós-fascistas, põe em risco a democracia italiana?
Fo -
A democracia perdeu muito com a vitória de Berlusconi. Para a direita, o sentido da palavra democracia é muito diferente.
Pensar que Berlusconi fez um acordo com Umberto Bossi [líder da Liga Norte", que o traiu em 94, é uma coisa absurda, e me faz lembrar as minhas comédias teatrais. Bossi é um xenófobo e um fascista.

Vitória de Berlusconi é a revanche da direita

CLÓVIS ROSSI
COLUNISTA DA FOLHA

   O megaempresário Silvio Berlusconi consumou ontem a revanche que havia anunciado no início do ano, pouco antes de começar oficialmente a campanha eleitoral: derrotou não apenas a esquerda que o vencera em 1996 mas também a chamada "onda rosa" que varreu a Europa em pleitos anteriores.

   Os partidos social-democratas, que usam como símbolo o punho e a rosa, venceram quase todas as eleições de maior visibilidade para a mídia, desde que o trabalhista Tony Blair interrompeu o prolongado ciclo conservador no Reino Unido, em 1997.

   É verdade que a "onda rosa" já havia sofrido um tremendo revés no ano passado na Espanha, país em que os conservadores do PP (Partido Popular) trucidaram os socialistas.

   Mas o PP espanhol já estava no poder, o que amortece o impacto de sua vitória.
Berlusconi, ao contrário, recupera o governo para a direita em um país que é a terceira potência da Europa, após Alemanha e França e empatada com o Reino Unido, e tem uma história de força eleitoral da esquerda.

   Mais: a coligação de Berlusconi inclui elementos de extrema direita, o que incomoda a Europa.

   Nem se trata tanto da Aliança Nacional, a herdeira oficial do fascismo, mas que se reciclou o suficiente.

   Incômodo maior é causado pela "Fiamma Tricolore" (Chama Tricolor, alusão à bandeira da Itália), "partido genuinamente fascista", como o descreve Tom Arbuthnott, pesquisador do Programa Europa do Foreign Policy Center, de Londres.

   Ou pela Liga Norte e por seu reacionário líder, Umberto Bossi, que não perde uma chance para atacar imigrantes, homossexuais e até os italianos do sul, a parte pobre do país.

   Um segundo incômodo é assim descrito pelo sociólogo espanhol Ignacio Sotelo: "O que deixa os cabelos em pé é que o brilhante histórico de corrupção [de Berlusconi" não basta para que boa parte do eleitorado italiano deixe de votar nele".

   Não surpreende, pois, que pelo menos uma autoridade européia, o ministro belga do Exterior, Louis Michel, já tenha sugerido que um governo Berlusconi receba o mesmo tratamento dado pela União Européia à Áustria, quando o partido do líder direitista Jörg Haider foi incluído na coalizão governante.

   O que torna mais doce a revanche de Berlusconi é o fato de que a eleição se transformou no que o ensaísta Umberto Eco definiu como um "referendo moral".
Mais: ele não derrotou um governo fracassado.

   Ao contrário: até a revista britânica "The Economist", refratária a tudo que cheire a esquerda, qualificou o governo da coalizão Oliveira, de centro-esquerda, como "um dos mais bem-sucedidos da recente história italiana".


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