'O Belo Antonio' é o filme mais famoso do diretor italiano que iniciou carreira em 53
LUIZ ZANIN ORICCHIO
Mauro Bolognini, diretor de pelo
menos um filme famoso, O Belo Antonio, com Marcello Mastroianni no papel principal, morreu
segunda-feira, em Roma, com 78 anos. Bolognini é dono de vasta obra: dirigiu 42
longas-metragens. Estreou em 1953 com Ci Troviamo in Galeria, com Alberto Sordi e Sophia
Loren, e encerrou a carreira em 1987 com Gli Indiferenti. Não é tido pela crítica como
um "autor", no sentido mais rigoroso do termo, mas como um artesão competente.
Avaliação que, provavelmente, terá de ser revista com sua morte.
Isso porque a carreira de Bolognini é feita de fases bem distintas umas
das outras. Na primeira que começa justamente com Ci Troviamo in Galeria até Gli
Innamorati, passando por Giovani Mariti, Arrangiatevi e La Notte Brava (A Longa Noite de
Loucuras), foi um diretor muito ligado ao seu mundo contemporâneo, do qual era retratista
preciso e crítico ácido. Desta fase, deve-se destacar A Longa Noite de Loucuras,
inspirada em Ragazzi di Vita, de Pier Paolo Pasolini, que é, provavelmente, seu trabalho
mais incisivo.
Depois, Bolognini redirecionou seu caminho, optando por adaptar dramas de
época, como Cartuxa de Parma, tirado de Stendhal, e A Dama das Camélias, de Alexandre
Dumas. Fazia essas adaptações tanto para o cinema como para a televisão, que também
considerava bom veículo para dramas realistas ou românticos. Nestes, cuidava para que as
produções alcançassem a maior verossimilhança possível, prestando muita atenção na
direção de arte e na reconstrução dos ambientes de época, figurinos, castelos e
mansões. Tudo, nesses filmes, deveria parecer como era no tempo em que são ambientados,
sem nenhuma concessão ao distanciamento crítico ou à desconstrução, ambos em moda no
período. Bolognini queria levar o espectador ao encantamento e ao ambiente daquelas
velhas obras e, nesse ponto, era muito bem-sucedido.
No entanto, houve certa implicância com o que seria considerado
"esteticismo" do cineasta. Seu gosto pela reconstrução de ambientes, pela
precisão na escolha até do mais ínfimo dos bibelôs, foi considerado um exercício de
maneirismo - crítica até certo ponto fundamentada. Muitas das suas reconstruções de
época ressentem-se da falta de conteúdo mais elaborado. Excelentes na forma, deixam a
desejar quanto à profundidade. Às vezes têm corpo, mas falta-lhes alma, como se seu
autor, nascido em Pistóia em junho de 1923, e formado em arquitetura, tivesse se deixado
levar em excesso pelas exigências da boa forma aplicada ao cinema.
Como toda a generalização, esta também leva a equívocos. Quem critica
o Bolognini formalista das grandes adaptações literárias se esquece de que ele foi
também o autor de versões bem-sucedidas como Agostino, tirada de Alberto Moravia, e
Senilidade, baseada em Ítalo Svevo.
Mas, é claro, não se pode falar em Bolognini sem mencionar o grande
sucesso de O Belo Antonio, tirado do livro de Vitaliano Brancati. E isso não apenas pela
presença de Marcello Mastroianni e Claudia Cardinale no elenco, mas pela extraordinária
repercussão de uma história tragicômica que trata de um tema espinhoso - a impotência
sexual. Pode-se medir o sucesso de uma obra pela maneira como ela entra na linguagem
popular. E, apesar de o filme ter mais de 40 anos (é de 1960), a expressão "belo
Antonio" ainda anda por aí como sinônimo de alguém ou algum objeto muito
bonitinho, mas que não funciona.
Na história, quem não funcionava era Marcello, e isso numa comunidade
siciliana, onde manda (ou mandava) a tradição que o marido coloque na janela os
lençóis da noite de núpcias para provar que cumpriu com seu dever. O filme é ótimo.
Mas, dependendo do gosto do freguês, não melhor do que La Notte Brava (A Longa Noite de
Loucuras), de 1959. Nada sobra nem falta nesse belíssimo filme inspirado em texto de Pier
Paolo Pasolini.
Há uma luz neo-realista na maneira seca, porém simpática, como
Bolognini mostra uma noite na vida de alguns pequenos malandros. Na farra propiciada pelo
produto de um furto, o rapaz leva a namorada a um restaurante de luxo, onde pede ao
maître o cardápio completo encomendado por Ali Khan, que ali estivera. E, no fim da
noitada, a cédula de dinheiro, que sobrara, é amarrotada e jogada de uma ponte. Já não
servia para nada, pois no dia seguinte seria preciso recomeçar tudo. Uma epifania. Um
filme como La Notte Brava justifica toda uma carreira. Ou uma vida toda. (O Estado de S.
Paulo)