Berço de eminentes pensadores políticos - de
Maquiavel a Gramsci e, mais perto de nós, Bobbio -, a Itália tem atuado, desde a Idade
Média, como um rico laboratório de formas de governança, de modelos de desenvolvimento
local e de práticas refinadas da arte de governar, antecipando-se, em certas
experiências, aos demais países.
Nem sempre para o bem. Após a 1.ª Guerra Mundial, a
Itália foi o primeiro país a mergulhar no fascismo. Em compensação, seu desempenho na
segunda metade do século 20 foi dos mais brilhantes. Num processo exemplar de crescimento
e modernização, a Itália recuperou-se rapidamente dos estragos da guerra perdida e
conquistou o status de uma grande potência industrial.
Ao mesmo tempo conseguiu a façanha de construir e
consolidar uma democracia parlamentar que sobreviveu a inúmeras crises (Berlusconi será
o qüinquagésimo nono primeiro-ministro) e à forte polarização política. Nos últimos
cinco anos deu ao mundo o exemplo de um governo de centro-esquerda, fruto do compromisso
histórico entre ala da democracia cristã e o partido comunista reformado e
social-democratizado. Diga-se de passagem que o Partido Comunista Italiano se singularizou
no movimento operário internacional após a 2.ª Guerra Mundial pelo seu respeito ao jogo
democrático, anseio de implantar socialismo com rosto humano, crítica aberta do
stalinismo e abertura intelectual. O notável desenvolvimento das ciências sociais na
Itália deve muito à osmose entre o marxismo aberto e as demais correntes do pensamento
moderno.
Nos anos 30, o fascismo italiano serviu como fonte de
inspiração ao Estado Novo de triste memória. Na época de Kubitschek a Itália voltou a
funcionar como exemplo, desta vez digno de ser emulado, através de sua política de
desenvolvimento do Mezzogiorno. Esta tentativa de superar as fortes disparidades regionais
entre o norte e o sul da Itália pesou sobre o desenho da Sudene. Aliás, tanto na sua
concepção política quanto nos seus resultados, a Sudene demonstrou maior eficiência
que o dispositivo italiano.
Apesar de um elaborado esquema de incentivos e de
enormes investimentos, a Itália não conseguiu, até hoje, ganhar a batalha do
Mezzogiorno; quando muito criou um mecanismo de transferência de recursos promovendo um
desenvolvimento sem autonomia no dizer de C. Trigilia, ou seja, sem focos locais de
dinamismo capazes de acionar fontes endógenas de crescimento.
Já na Itália do nordeste, batizada de terceira
Itália por Arnaldo Bagnasco em oposição ao Mezzogiorno e ao triângulo da grande
indústria Milão-Turim-Gênova, surgiu um modelo muito bem-sucedido de desenvolvimento
local, baseado na industrialização difusa, com forte participação de distritos
industriais especializados - aglomerações setoriais, mais conhecidas no Brasil como
clusters, localizadas em pequenas cidades e compostas por numerosas empresas de pequeno e
médio porte, competindo entre si e, ao mesmo tempo, unidas por laços de cooperação.
Vários sociólogos atribuem o sucesso do modelo à
existência nestas comunidades de um forte capital social, de relações de confiança,
amizade, tradições comuns, além do bem compreendido interesse em unir forças para
melhor enfrentar o darwinismo social do mercado. A explicação pode parecer um tanto
tautológica, mas as dúvidas e reticiências a respeito da teorização do capital social
não devem servir de pretexto para não reconhecer o interesse excepcional deste modelo
para o Brasil. De resto, já existem no país vários pólos industriais deste tipo,
outros estão emergindo e outros mais poderiam ser suscitados.
Recomenda-se apenas cautela para não ceder à moda de
ver clusters por toda a parte. A presença ou a ausência do capital social deve ser
verificada empiricamente. Em numerosos distritos industriais os conflitos de interesses
entre grandes e pequenos empresários tornam praticamente inviável qualquer cooperação.
O modelo italiano tampouco deve ser copiado e sim estudado in loco na sua variedade de
experiências para servir de estímulo à nossa criatividade. Sobre o assunto começa a
existir no Brasil uma rica literatura (para uma excelente introdução ao tema veja-se a
coletânea organizada por André Urani, Giuseppe Cocco e A. P. Galvão, Empresários e
empregos nos novos territórios produtivos - o caso da Terceira Itália, DP&A Editora,
1999).
Como à luz destas considerações avaliar a vitória
eleitoral de Berlusconi ?
Não resta dúvida que ela introduz um corte na vida
política da Itália.
Descartemos a hipótese de que se trata apenas de um
sucesso impar da midiacracia chamada a influenciar cada vez mais as nossas existências. O
carisma pessoal de Il Cavalieri pode ter influenciado os resultados, mas tampouco os
explica.
Muitos eleitores italianos viram em Berlusconi o
símbolo do self-made man imensamente bem-sucedido, ainda que ao preço de alguns
deslizes, uma carreira exemplar a ser imitada numa perspectiva de individualismo
exacerbado e de consumismo que pouco tem a ver com os valores defendidos pela esquerda. A
Itália deu uma guinada à direita.
Por quanto tempo ?
Isto dependerá da capacidade da esquerda em analisar
as razões deste desafeto por parte dos seus eleitores. Penso que o pleito italiano
mostrou a crise profunda da social-democracia européia, presa na contradição entre as
concessões excessivas ao liberalismo na esfera econômica e a impossibilidade que daí
resulta de fazer jus às suas legítimas aspirações sociais.
O credo da social-democracia está resumido na frase
seguinte, atribuída a um dos seus líderes já desaparecidos e que pode até ser
apócrifa, porém é expressiva: "Cuidemos bem das vacas capitalistas para poder
distribuir bastante leite a todo mundo!"
Não é bem assim. Depois da queda do muro de Berlim
deu a louca nas vacas capitalistas. Não temem mais a concorrência de suas congêneres
socialistas.
Viraram arrogantes e guardam quase todo o leite para
seus bezerros. Sobra pouco para redistribuir.
Uma vez passado o choque da derrota, o passado da
esquerda italiana confere-lhe o cacife para pensar um programa exeqüível e inovador,
capaz de dar um novo alento à social-democracia européia, fazendo com que mais uma vez a
Itália cumpra o seu papel de laboratório. (O Estado de S. Paulo)