Retornar ao índice ItaliaOggi

Notizie d'Italia

 

Eleições: o laboratório italiano

28/05/2001

 

 

ITALIANOS OFERECEM FARTO MATERIAL POLÍTICO E ECONÔMICO PARA OBJETO DE ESTUDO E ESTÍMULO À CRIATIVIDADE

IGNACY SACHS

   Berço de eminentes pensadores políticos - de Maquiavel a Gramsci e, mais perto de nós, Bobbio -, a Itália tem atuado, desde a Idade Média, como um rico laboratório de formas de governança, de modelos de desenvolvimento local e de práticas refinadas da arte de governar, antecipando-se, em certas experiências, aos demais países.

   Nem sempre para o bem. Após a 1.ª Guerra Mundial, a Itália foi o primeiro país a mergulhar no fascismo. Em compensação, seu desempenho na segunda metade do século 20 foi dos mais brilhantes. Num processo exemplar de crescimento e modernização, a Itália recuperou-se rapidamente dos estragos da guerra perdida e conquistou o status de uma grande potência industrial.

   Ao mesmo tempo conseguiu a façanha de construir e consolidar uma democracia parlamentar que sobreviveu a inúmeras crises (Berlusconi será o qüinquagésimo nono primeiro-ministro) e à forte polarização política. Nos últimos cinco anos deu ao mundo o exemplo de um governo de centro-esquerda, fruto do compromisso histórico entre ala da democracia cristã e o partido comunista reformado e social-democratizado. Diga-se de passagem que o Partido Comunista Italiano se singularizou no movimento operário internacional após a 2.ª Guerra Mundial pelo seu respeito ao jogo democrático, anseio de implantar socialismo com rosto humano, crítica aberta do stalinismo e abertura intelectual. O notável desenvolvimento das ciências sociais na Itália deve muito à osmose entre o marxismo aberto e as demais correntes do pensamento moderno.

   Nos anos 30, o fascismo italiano serviu como fonte de inspiração ao Estado Novo de triste memória. Na época de Kubitschek a Itália voltou a funcionar como exemplo, desta vez digno de ser emulado, através de sua política de desenvolvimento do Mezzogiorno. Esta tentativa de superar as fortes disparidades regionais entre o norte e o sul da Itália pesou sobre o desenho da Sudene. Aliás, tanto na sua concepção política quanto nos seus resultados, a Sudene demonstrou maior eficiência que o dispositivo italiano.

   Apesar de um elaborado esquema de incentivos e de enormes investimentos, a Itália não conseguiu, até hoje, ganhar a batalha do Mezzogiorno; quando muito criou um mecanismo de transferência de recursos promovendo um desenvolvimento sem autonomia no dizer de C. Trigilia, ou seja, sem focos locais de dinamismo capazes de acionar fontes endógenas de crescimento.

   Já na Itália do nordeste, batizada de terceira Itália por Arnaldo Bagnasco em oposição ao Mezzogiorno e ao triângulo da grande indústria Milão-Turim-Gênova, surgiu um modelo muito bem-sucedido de desenvolvimento local, baseado na industrialização difusa, com forte participação de distritos industriais especializados - aglomerações setoriais, mais conhecidas no Brasil como clusters, localizadas em pequenas cidades e compostas por numerosas empresas de pequeno e médio porte, competindo entre si e, ao mesmo tempo, unidas por laços de cooperação.

   Vários sociólogos atribuem o sucesso do modelo à existência nestas comunidades de um forte capital social, de relações de confiança, amizade, tradições comuns, além do bem compreendido interesse em unir forças para melhor enfrentar o darwinismo social do mercado. A explicação pode parecer um tanto tautológica, mas as dúvidas e reticiências a respeito da teorização do capital social não devem servir de pretexto para não reconhecer o interesse excepcional deste modelo para o Brasil. De resto, já existem no país vários pólos industriais deste tipo, outros estão emergindo e outros mais poderiam ser suscitados.

   Recomenda-se apenas cautela para não ceder à moda de ver clusters por toda a parte. A presença ou a ausência do capital social deve ser verificada empiricamente. Em numerosos distritos industriais os conflitos de interesses entre grandes e pequenos empresários tornam praticamente inviável qualquer cooperação. O modelo italiano tampouco deve ser copiado e sim estudado in loco na sua variedade de experiências para servir de estímulo à nossa criatividade. Sobre o assunto começa a existir no Brasil uma rica literatura (para uma excelente introdução ao tema veja-se a coletânea organizada por André Urani, Giuseppe Cocco e A. P. Galvão, Empresários e empregos nos novos territórios produtivos - o caso da Terceira Itália, DP&A Editora, 1999).

   Como à luz destas considerações avaliar a vitória eleitoral de Berlusconi ?

   Não resta dúvida que ela introduz um corte na vida política da Itália.

   Descartemos a hipótese de que se trata apenas de um sucesso impar da midiacracia chamada a influenciar cada vez mais as nossas existências. O carisma pessoal de Il Cavalieri pode ter influenciado os resultados, mas tampouco os explica.

   Muitos eleitores italianos viram em Berlusconi o símbolo do self-made man imensamente bem-sucedido, ainda que ao preço de alguns deslizes, uma carreira exemplar a ser imitada numa perspectiva de individualismo exacerbado e de consumismo que pouco tem a ver com os valores defendidos pela esquerda. A Itália deu uma guinada à direita.

   Por quanto tempo ?

   Isto dependerá da capacidade da esquerda em analisar as razões deste desafeto por parte dos seus eleitores. Penso que o pleito italiano mostrou a crise profunda da social-democracia européia, presa na contradição entre as concessões excessivas ao liberalismo na esfera econômica e a impossibilidade que daí resulta de fazer jus às suas legítimas aspirações sociais.

   O credo da social-democracia está resumido na frase seguinte, atribuída a um dos seus líderes já desaparecidos e que pode até ser apócrifa, porém é expressiva: "Cuidemos bem das vacas capitalistas para poder distribuir bastante leite a todo mundo!"

   Não é bem assim. Depois da queda do muro de Berlim deu a louca nas vacas capitalistas. Não temem mais a concorrência de suas congêneres socialistas.

   Viraram arrogantes e guardam quase todo o leite para seus bezerros. Sobra pouco para redistribuir.

   Uma vez passado o choque da derrota, o passado da esquerda italiana confere-lhe o cacife para pensar um programa exeqüível e inovador, capaz de dar um novo alento à social-democracia européia, fazendo com que mais uma vez a Itália cumpra o seu papel de laboratório. (O Estado de S. Paulo)


Para saber mais sobre:

powered by FreeFind

Publicidade

Pesquise no Site ou Web

Google
Web ItaliaOggi

Notizie d'Italia | Gastronomia | Migrazioni | Cidadania | Home ItaliaOggi