Philip Pullella
CIDADE DO VATICANO - Pode não ter havido a procura por um novo
papa, como disso um participante, mas dos cerca de 150 cardeais que participaram do
encontro que terminou na quinta-feira certamente sairá o novo líder da Igreja Católica.
O papa João Paulo 2o., 81, encerrou o "consistório
extraordinário"de três dias com uma missa solene na Basílica de São Pedro.
A imagem do papa bastava para deixar clara sua fragilidade. Sua mão
esquerda tremia muito e um padre precisou ajudá-lo a erguer o cálice com o vinho que,
para os católicos, se transforma durante a missa no sangue de Cristo.
Com movimentos lentos, o olhar perdido e as palavras trôpegas, João
Paulo 2o. disse que o encontro de todos os cardeais do mundo expôs os enormes desafios da
Igreja no próximo milênio.
Na homilia, ele mencionou "uma mudança geral no horizonte cultural,
assim como os problemas da Igreja em lidar com questões como globalização, mudança na
moral sexual e justiça social".
Desde o começo, o Vaticano insistiu que o encontro, cujo tema era
"Perspectivas Pastorais da Igreja no Novo Milênio", não era um
"pré-conclave".
Mas o encontro deu aos prelados uma oportunidade de avaliar potenciais
sucessores do atual papa, que sofre do Mal de Parkinson e de problemas de mobilidade
resultantes de um acidente doméstico, em 1994.
"Alguns dizem que é a preparação de um conclave. "Não",
disse dom Godfried Danneels, arcebispo de Bruxelas. "Mas, no sentido de que estamos
aprendendo a nos conhecer, é uma preparação", afirmou ele. "Mas não fizemos
o recrutamento do novo papa", brincou.
De qualquer forma, o atual pontífice e seu sucessor -- quem quer que seja
-- estavam no mesmo auditório do Vaticano. O encontro deu aos cardeais, que algum dia
serão chamados a escolher o novo papa entre si, uma chance de ouvir atentamente, olhar
discretamente e tomar notas mentalmente.
Com a saúde do papa cada vez mais preocupante, tais encontros ganham um
significado que pode ir além dos seus motivos oficiais.
Danneels, considerado um importante candidato da ala liberal da igreja à
sucessão do atual papa conservador, foi um dos poucos a reconhecer que o encontro era
parcialmente a preparação para um futuro conclave.
A julgar pelas declarações dele e de alguns colegas, as conversas do
encontro, realizado a portas fechadas, foram bastante animadas. Os jornalistas só
receberam resumos superficiais das discussões.
Vários cardeais reivindicaram o direito das igrejas locais de influírem
nos assuntos globais da igreja, cujas decisões, segundo alguns, ainda são excessivamente
centralizadas em Roma.
Danneels disse que gostaria de ver em âmbito mundial os debates que
ocorrem entre os católicos da Bélgica, que tem um dos cleros mais progressistas do
mundo.
Ele e outros participantes disseram acreditar que o Sínodo dos Bispos,
que deve ocorrer em Roma, em outubro, deveria ter mais poder decisório. "Precisamos
ter bispos e cardeais realmente livres", afirmou Danneels, culpando a atual estrutura
do Sínodo por não permitir o debate.
O papa apontou 92 por cento dos cardeais com menos de 80 anos, tornando
grandes as chances de que seu sucessor seja um conservador, à sua imagem e semelhança.
Algumas facções da Igreja gostariam de ver um latino-americano ou
africano ocupando o Trono de São Pedro, para que desta maneira o Vaticano desse mais
atenção ao Terceiro Mundo, a única região onde o catolicismo cresce.
Outros acham que um pontificado tão longo, dinâmico e marcante como o de
João Paulo 2o., há 23 anos no cargo, deve ser seguido de um pontificado discreto e,
preferencialmente, breve, no qual algum cardeal italiano e burocrático se encaixaria
melhor.
Mas prever quem será o próximo papa é quase tão fácil quanto
determinar o momento exato de um terremoto. Um velho ditado romano alerta que "quem
entra no conclave como papa sai como cardeal". (Reuters)