"Cenas de Vida Siciliana", de Verga, e "Erica e Seus Irmãos", de
Vittorini, inauguram coleção de literatura italiana
José Maria Cançado
A princípio soa um pouco nacional e geográfica demais, de
um sociologismo literário seu tanto anacrônico, a proposta da coleção "Letras
Italianas": publicar no Brasil a tradução de romances, novelas e contos de autores
daquele país, do período compreendido entre a unificação, no final do século 19, até
hoje, mapeando-os segundo as regiões da Itália.
Mas na verdade ocorre o contrário. Primeiro porque a
literatura e estes dois primeiros livros da coleção, a novela de Elio Vittorini
(1908-1966) e os contos de Giovanni Verga (1840-1922), que fazem parte da
"constelação siciliana" (dela também há traduções de Pirandello e Leonardo
Sciascia), o revelam: é mais de desorganizar mapas e de introduzir estranhamentos por
baixo da pele de realidades históricas do que de ilustrá-las.
Depois porque com a literatura italiana do século 20 (e de
forma especial com ela) se passa algo no mínimo marcante. Tal literatura, ao mesmo tempo
em que foi expressão da vida social do país, dispôs para esta uma paisagem moral, uma
vivacidade trágica, um "allegro fundamental" (na expressão de Elio Vittorini),
um rumor e até um sentido -ou um clima de sentido. Gramsci formulou esse clima com a
idéia de nacional-popular -para ele, teto, "levada" e horizonte de máxima
universalidade possível da cultura numa Itália desigualmente partida em duas (tinha toda
a razão). Assim é possível dizer que quem toca o Novecento literário toca o povo
italiano.
Não há portanto nada parecido com flagrante literário -jóia do "bello
paese"- na idéia dos livros dessa coleção. Mesmo as novelas e contos de
"Cenas de Vida Siciliana", escritos a partir de 1875, depois da guinada realista
de Giovanni Verga, com o seu registro verista e um ponto de vista que se queria objetivo e
impessoal, transbordam do puro documento.
O mundo de Giovanni Verga, um milanês que voltou as costas
para o Norte rico e se virou para o Sul pobre, aí encontrando o material das suas obras
maiores (os romances "I Malavoglia", de 1891, e "Mastro Don Gesualdo",
de 1888), é o da Itália pré-unificação, pré-nacional, o fundo do fundo da questão
meridional. Mas o som e a fúria que escapam dessas novelas passadas numa Sicília
devoradora, pré-jurídica, sacrificial, vão soar é lá fora, no espaço aberto e
atemporal da própria emoção humana. Vão soar sempre, mesmo depois de desaparecidas as
condições das quais foram expressão.
A súplica e a invocação piedosamente filiais do Turiddu, o
amante de Lola em "Cavalleria Rusticana" (uma das novelas aqui incluídas, que
foi adaptada para a ópera por Piero Mascagni), que chama pela mãe ao ser apunhalado de
morte pelo compadre e rival Alfio, é por certo o suspiro pelo inexcedível e
inapropriável bem supremo representado pela "mamma" siciliana (e não só
siciliana).
Mas é também a antibravata, o amedrontamento, o desamparo
da criatura humana ao pular a cerca de um código. Essa antibravata, essa coragem
negativa, clamando pelo inexcedível e inapropriável bem supremo mencionado, sai o tempo
todo dos lábios -e os conforma. Outras bocas estão condenadas a ecoar a invocação de
Turiddu. A arte não é o eco da realidade, mas a realidade desse eco.
É nessa região sem saída que se desencadeia, na novela
"A Loba" (também incluída no volume), o impasse também sem remédio do
camponês Nanni, perseguido pela paixão carnal absoluta da própria sogra. Embora objeto
do desejo da Loba e usufruidor das suas carnes esplêndidas, ele acaba por assassiná-la:
o mesmo código da corporação dos maridos sicilianos não toleraria que nenhuma mulher
pudesse ser assim. No atraso cultural, político e econômico que dá o pano de fundo da
obra de Verga há uma força tão abrupta como a fome de amor da Loba que transborda do
atraso.
A novela de Elio Vittorini foi escrita quase 50 anos depois,
em 1936, e olha para o mesmo lado da questão meridional italiana, numa Itália já
unificada, mas com a mesma paisagem humana: a da miséria e da brutalização da vida dos
pobres durante o regime fascista, no período entre as duas guerras. A técnica de
composição porém é completamente diferente da exposição verista de Giovanni Verga.
"Erica e Seus Irmãos" é um tipo de conto de fadas às avessas. Nele, a
personagem principal, Erica, uma menina que é abandonada com os irmãos pela mãe,
configura o seu mundo e a sua plenitude, sustentada até o absurdo, não pelo acolhimento
dos bens e frutos da terra, mas pela completa privação deles.
Ela se recusa a deixar a sua vida, que defende e afirma de
forma tão cabeçuda quanto lendária, na linha de tiro da bondade e da caridade alheia.
Seu bem é a recusa da suposta rede do bem que os outros querem tecer em redor dela.
A sua sobrevivência, e a dos irmãos, ela obtém abrindo, ao
mesmo tempo cândida e impassivelmente, parte do seu dia e do seu corpo para a única
coisa que, para ela, não tresanda a esmola e bondade: trepar com os homens a troco de
algum dinheiro. Ela aceita relacionar-se apenas com o que lhe parece a pura dor e a pura
ausência do bem, pois estas não a alienam dela mesma.
Elio Vittorini sugeriu que, caso escrevesse o final da
novela, Erica conheceria "pouco a pouco também o prazer, e também o amor, também a
amizade".
Mas é significativo que a novela tenha se interrompido antes
disso, e que fique de Erica essa recusa de qualquer relação, como condição da sua
plenitude e liberdade. Não é a recusa por parte dessa moça admirável que é Erica (o
nome de uma erva das charnecas) que parece inumana aqui. Mas as relações que o mundo
oferece a ela.
Com a libertação em 45, quando já era o autor consagrado
de "Conversações na Sicília", de 1941, seu romance mais realizado, Vittorini
se tornou um dos intelectuais mais notáveis do ativismo e da constelação
político-cultural de esquerda na Itália. O "Politecnico", revista semanal
surgida no pós-guerra, na qual o "nacional-popular" perfilado por Gramsci se
acrescia criativamente de temas como a literatura norte-americana, o jazz, o diálogo
entre marxismo e cristianismo, a defesa da autonomia da arte, os riscos do inconsciente,
foi criação dele. Essa pauta pouco ortodoxa valeu a ele o enfrentamento com Palmiro
Togliatti, secretário geral do PCI, e o fechamento da revista, em 47.
Uma das atividades mais fascinantes de Elio Vittorini foi a
criação de uma coleção, a pedido do depois célebre editor Giulio Einaudi, a que ele
chamou os "Gettoni": narrativas de escritores desconhecidos, curtas, que
desprendessem um cheiro bárbaro, e que eram, escreveu o crítico Christian Bec,
"como fichas (gettoni), essa moeda artificial que se atira na mesa de jogo do
futuro".
Os livros da coleção "Letras Italianas" são um
pouco como os "Gettoni": fichas do Novecento atiradas na mesa do leitor de hoje
e no espaço supranacional da literatura. Seu valor não parece ter decaído. E parece
certo que a garantia desse valor não está em outro lugar senão no fato de serem
simultaneamente expressão e parte constitutiva, como outras tantas literaturas, da
imortalidade histórica do povo -e de terem aí o seu "allegro" fundamental.
(Folha de S. Paulo)
José Maria Cançado é jornalista, autor de "Os Sapatos de
Orfeu" (Scritta), biografia de Carlos Drummond de Andrade.
Erica e Seus Irmãos
112 págs., R$ 21,00
de Elio Vittorini. Trad. Liliana Laganá. Berlendis e Vertecchia.Cenas de Vida
Siciliana
286 págs., R$ 29,00
de Giovanni Verga. Coordenação da tradução: Mariarosaria Fabris. Berlendis e
Vertecchia Editores (rua Moacir Piza, 63, CEP 01421-030, SP, tel 0/xx/11/ 3085-9583).
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