 |
|
|
"A Pervertida" é uma história de sexo |
|
08/06/2001
|
O diretor italiano Tinto Brass fala de sua atração
pelo sexo e de como encontrou a atriz Yulya Mayarchek. Seu filme está sendo lançado
diretamente em DVD e vídeo
São Paulo - Tinto Brass roda
atualmente em Veneza seu novo filme. É uma história de amor desenrolada durante a 2.ª
Grande Guerra. Bem, se é um filme de Tinto Brass não deve ser bem uma história de amor,
mas de sexo. Brass é do tipo que só pensa naquilo. A prova é A Pervertida, que
começa a chegar hoje às locadoras e lojas especializadas de todo o País. O filme está
sendo lançado diretamente em DVD e vídeo. Lembram de Monella, a travessa? Era uma freira
perto da protagonista de A Pervertida. Mesmo assim, o filme fez menos sucesso que
Monella nos cinemas italianos. Elevando o tom de voz, quase berrando, Brass explica o
porquê, numa entrevista por telefone, de Veneza.
Havíamos espalhado cartazes do filme por toda a
Itália mas eles foram retirados pelas autoridades, porque era o ano mariano, consagrado a
Maria, e eles achavam que o traseiro da pervertida conspurcava a imagem da mulher. Brass
odeia o governo, a Igreja, a família. Acha que são instituições repressoras, que
impedem o pleno exercício da liberdade. Diz que seu cinema não é erótico, o que poucos
críticos concordam, muito menos pornográfico, o que a maioria julga ser. Para ele, seu
cinema é libertário.
Tão libertário que
ele considera Jean Vigo seu mestre, mesmo que o diretor francês morto em 1934, aos 29
anos, tenha se destacado mais pela liberdade do espírito que propriamente pelo erotismo.
Brass aproveita e faz um elogio: Você é do Brasil, não? Aquele brasileiro que escreveu
sobre Vigo é autor do melhor livro sobre cinema que conheço. Refere-se a Paulo Emílio
Sales Gomes. Era mais uma vez a libertação pela via do sexo que tinha em mente ao contar
a história de A Pervertida, sobre essa italiana que vai para a Inglaterra e lá
vive decisivas experiências, homo e heterossexuais. Brass diz que o título escolhido
para o Brasil é coisa dos distribuidores, ele não tem nada c om isso. No original,
chama-se Transgredire, Transgressing na versão inglesa. Ou seja: a que no
Brasil é pervertida lá fora é transgressora. Brass também se acha transgressor.
Pornógrafo, eu? Nunca.
Acha que seu problema
é não fazer o tipo de cinema erótico que os críticos gostam, filmes como Último
Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, e O Império dos Sentidos, de Nagisa
Oshima. Reconhece que possuem qualidades plásticas e dramáticas, mas não lhe agrada
essa visão do sexo ligada à morte que tem respaldo na literatura e na poesia francesas.
Lembra, a propósito, que não é por acaso que, após a ejaculação, vem o que os
franceses chamam de petite morte. Que morte que nada. Para Brass, sexo é vida e não há
aids que o faça mudar de opinião. A vida sem prazer sexual é um desperdício,
sentencia.
A obsessão pelo sexo
não é recente. Não foi por acaso que seu oitavo filme, de 1968, se chamou, no Brasil, A
Atração do Sexo. Mas o primeiro a fazer sensação foi Salão Kitty, de 1972, com
sua mistura de mulheres nuas e uniformes nazistas. Veio depois, em 1979, o affaire
Calígula. Contratado por Bob Guccione, Brass rodou o filme sobre a pervertida Roma dos
sexos, mas o produtor queria mais safadeza e acrescentou os planos de sexo explícito, com
os quais o diretor não estava de acordo. Brigaram na Justiça. O sexo, para ele, começa
mesmo com A Chave, de 1983, ao qual se seguiu Miranda, dois anos depois. Em
1992, outro título emblemático: L´Uomo Che Guarda. O homem que olha, o voyeur.
Na vida, Brass, que
nasceu em 1933, jura que é oposto do que pode sugerir sua atividade como diretor. Casado
há 45 anos (com a mesma mulher!), é avô dedicado, daqueles que babam pelos netos. Diz
que sublima seus desejos de adultério dirigindo as belas atrizes de seus filmes. A de A
Pervertida, encontrou num restaurante de Nápoles. Procurava um bumbum especial, um dia
estou nesse restaurante, vem a garçonete, toma o pedido, quando deu as costas disse à
minha mulher: é ela! Foi a chance de Yulya Mayarchuk. No novo filme dirige a deusa Ana
Galiena, de O Marido da Cabeleireira, de Patrice Leconte. O novo filme, segure-se
para não cair, é um remake, com nu frontal, claro, do clássico Sedução da Carne,
de Luchino Visconti. Ah sim, qual entre todos os seus filmes é o preferido de Brass? Ele
gosta muito de O Yankee, de 1966, um spaghetti western com Philippe Leroy, com
visual baseado nos quadrinhos. (Luiz Carlos Merten, estadao.com.br)
A Pervertida. Itália, 2000. Direção de Tinto Brass com
Yulya Mayarchuk. DVD e vídeo da Paris. A partir de hoje, nas locadoras. R$ 49
|
|
|
|
|
 |
 |