RODRIGO MOURA
Cabrião quer dizer, segundo o "Aurélio",
"indivíduo que importuna ou molesta sem cessar". E não foi à toa que o
italiano Ângelo Agostini (1843-1910) deu esse nome a seu semanário humorístico seminal,
que fundou e editou ao lado de Américo de Campos e Antônio Manoel dos Reis, entre 1866 e
1867, na São Paulo imperial.
A coleção completa dos 52 números de
"Cabrião", uma das principais publicações humorísticas do Império, ganhou
reedição fac-similar, após ter sido tirada dos alfarrábios particulares pela primeira
vez em 1982.
O chargista, ilustrador e retratista, um dos pioneiros
da história em quadrinhos e da caricatura no Brasil, se inspirou no personagem molestador
do romance "Os Crimes de Paris", de Eugène Sue, famoso folhetim da segunda
metade do século 19, para batizar sua publicação.
Criticar, por meio do traço e dos textos, clero e
governo foi a principal atividade de seus dois anos de circulação.
Entre os alvos habituais de Agostini e companhia,
estava a campanha de recrutamento do Brasil para a Guerra do Paraguai. "Agostini era
o Cabrião", sintetiza Délio Freire dos Santos, que assina a introdução do volume.
"A caricatura já existia no Brasil, mas foi a primeira publicação a dedicar mais
espaço às imagens."
"Era um humorismo muito bem-recebido. Só uma vez
foi processado: no Dia de Finados, havia, no cemitério da Consolação, muita bebida, o
que alterava o significado daquela homenagem", conta Santos.
A charge mal recebida mostra mortos e vivos entre
copos, o que chocou certas consciências cristãs da época. O "Cabrião" foi
absolvido, mas as polêmicas motivaram o fim do semanário, bem como o calote dos
assinantes.
Após deixar São Paulo, seu primeiro pouso no Brasil
(país para o qual se mudou com a mãe), Agostini parte para o Rio. Na então capital,
cria a "Vida Fluminense" (1868-1875) e a "Revista Ilustrada", que
dirige de 1876 a 1898.
"Em São Paulo, não havia os excessos que
Agostini cometeria mais tarde no Rio, quando começou a criticar o sistema de maneira mais
violenta", diz Santos.
"Como chargista ele era excepcional. Tinha uma
linguagem moderna, à altura dos pioneiros europeus e americanos do século 19",
avalia o pesquisador Álvaro de Moya, autor de "História da História em
Quadrinhos". (Folha de S. Paulo)