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"Cabrião" traz humor do pioneiro Ângelo Agostini

08/06/2001

 

 

RODRIGO MOURA

   Cabrião quer dizer, segundo o "Aurélio", "indivíduo que importuna ou molesta sem cessar". E não foi à toa que o italiano Ângelo Agostini (1843-1910) deu esse nome a seu semanário humorístico seminal, que fundou e editou ao lado de Américo de Campos e Antônio Manoel dos Reis, entre 1866 e 1867, na São Paulo imperial.

   A coleção completa dos 52 números de "Cabrião", uma das principais publicações humorísticas do Império, ganhou reedição fac-similar, após ter sido tirada dos alfarrábios particulares pela primeira vez em 1982.

   O chargista, ilustrador e retratista, um dos pioneiros da história em quadrinhos e da caricatura no Brasil, se inspirou no personagem molestador do romance "Os Crimes de Paris", de Eugène Sue, famoso folhetim da segunda metade do século 19, para batizar sua publicação.

   Criticar, por meio do traço e dos textos, clero e governo foi a principal atividade de seus dois anos de circulação.

   Entre os alvos habituais de Agostini e companhia, estava a campanha de recrutamento do Brasil para a Guerra do Paraguai. "Agostini era o Cabrião", sintetiza Délio Freire dos Santos, que assina a introdução do volume. "A caricatura já existia no Brasil, mas foi a primeira publicação a dedicar mais espaço às imagens."

   "Era um humorismo muito bem-recebido. Só uma vez foi processado: no Dia de Finados, havia, no cemitério da Consolação, muita bebida, o que alterava o significado daquela homenagem", conta Santos.

   A charge mal recebida mostra mortos e vivos entre copos, o que chocou certas consciências cristãs da época. O "Cabrião" foi absolvido, mas as polêmicas motivaram o fim do semanário, bem como o calote dos assinantes.

   Após deixar São Paulo, seu primeiro pouso no Brasil (país para o qual se mudou com a mãe), Agostini parte para o Rio. Na então capital, cria a "Vida Fluminense" (1868-1875) e a "Revista Ilustrada", que dirige de 1876 a 1898.

   "Em São Paulo, não havia os excessos que Agostini cometeria mais tarde no Rio, quando começou a criticar o sistema de maneira mais violenta", diz Santos.

   "Como chargista ele era excepcional. Tinha uma linguagem moderna, à altura dos pioneiros europeus e americanos do século 19", avalia o pesquisador Álvaro de Moya, autor de "História da História em Quadrinhos". (Folha de S. Paulo)


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