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Máfia russa investe pesado na Itália |
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18/06/2001
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Comércio
legal radiografa setores e valores da Organizatsja
ARAUJO
NETTO
ROMA - A revelação de uma pesquisa da Confcomercio (associação
nacional do comércio italiano) de que a Organizatsja, a mais sofisticada e bem
estruturada das máfias russas, já investiu cerca de US$ 4,5 bilhões na Itália não
surpreendeu o juiz Piero Luigi Vigna, coordenador de todas as iniciativas da magistratura
e da polícia italiana contra o crime organizado. ''O perigo representado pelas máfias
russas foi sempre admitido por nós. Há muito tempo previmos a hipótese de ele se
concretizar. Não é de hoje que estamos reclamando maior colaboração internacional para
combatê-lo'', diz o supercoordenador italiano da luta antimáfia.
A pesquisa da entidade representativa do comércio italiano indica que os
maiores investimentos de Organizatsja - que só aceita e trabalha com russos,
ucranianos, armênios, bielorrussos, chechenos e azerbeijanos com folhas corridas
imaculadas, que possam fazê-los viajar e apresentar-se como insuspeitáveis turistas ou
homens de negócios - são efetuados na construção ou compra de centros turísticos,
fábricas de tecidos, atividades de importação e exportação, administração de redes
de hotéis, gestão de butiques, joalherias, grandes lojas de eletro-domésticos, cadeias
de restaurantes e pizzarias.
Todas atividades aparentemente limpas, consideradas as melhores fachadas para
as operações mais interessantes e lucrativas para a Oganizatsja. Operações que
cobrem a reciclagem do dinheiro apurado com o tráfico de droga, urânio e armas, e que
facilitam a expansão do mercado de prostitutas eslavas perfeitamente legalizadas.
Surdos-mudos - Uma das descobertas chocantes dos pesquisadores da
associação comercial foi a dos 200 rapazes e moças da Rússia e da Bielorrússia que,
viajando nos trens ou circulando por localidades turísticas e balneários das ricas
regiões da Toscana, Emilia Romagna e Ligúria, todos eles surdos-mudos, são usados para
mendigar esmolas sem falar. Valendo-se apenas de pequenos bonecos de pano, anéis, brincos
ou broches, ou ícones sagrados, que deixam em cima de uma mesa ou de uma cadeira,
acompanhados por bilhetes, escritos em várias línguas, informando sobre suas desgraças.
Rapazes e moças que em muitos casos os grandes chefes de Organizatsja sub-alugavam
a diversas organizações mafiosas menores.
A Itália não é o único país preocupado com os investimentos financeiros
e a presença física da Organizatsja em seu território. Recentemente, revela Enzo
Catania, estudioso dos fenômenos mafiosos, investigadores avisaram seus aliados europeus:
''A Organizatsja resdecobriu e relançou três metas. A primeira se atingiria com
participações acionárias em sociedades e empresas criadas para defender a segurança do
Estado. A segunda, com o controle do recolhimento e da descarga de lixo, principalmente
dos mais tóxicos. A terceira, com a compra de sofisticados equipamentos nucleares,
químicos e sanitários de todos os tipos.''
Pacto - Por enquanto, um pacto das três principais máfias italianas
(Cosa Nostra, Camorra e Ndranghetta) com os mafiosos russos vem funcionando. A
conveniência de uma aliança com três velhas máfias continua mantendo a mais nova - a Organiztsja
- desinteressada e inativa nos estados do Centro-Sul da Itália. No resto do país,
principalmente no Norte, no Nordeste e no Sul, a perigosa organização tem sinal verde
para agir, investir e tornar-se sócia ou proprietária de bons negócios.
Situação que, se perdurar - diz com ironia Enzo Catania -, impediria que a Organizatsja
realizasse o antigo sonho dos cossacos: fazer com que seus cavalos saciassem sua sede
bebendo água nas famosas fontes da Praça São Pedro de Roma. Prazer que poderia ser
negado aos mafiosos russos porque Roma, localizada no centro-sul, continua sendo cidade
fechada à Organizatsja, indicada como a aristocracia do crime da Federação
Russa. (Jornal do Brasil)
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