Vinte e cinco anos
após o início de suas operações no País, a Fiat prepara-se para produzir o primeiro
automóvel genuinamente brasileiro. Em 2003, a montadora italiana vai inaugurar um centro
de desenvolvimento de produtos no Brasil.
Serão carros mundiais, em condições de serem exportados para vários
países, inclusive os europeus. Hoje, quase a totalidade dos veículos é desenvolvida
pelas matrizes das montadoras, e só adaptada aos mercados locais.
"Vamos enviar profissionais para nosso centro de desenvolvimento na
Itália e também trazer técnicos de lá para treinar o pessoal", conta Gianni Coda,
superintendente da Fiat. O centro exigirá um alto investimento, mas os números ainda
não estão fechados. Além desse projeto, a empresa confirmou gastos médios anuais de R$
500 milhões para os próximos quatro anos em novos produtos e equipamentos.
A montadora - que nos últimos meses vem intercalando com a Volkswagen o
primeiro lugar em vendas - promete lançar um novo carro a cada ano até 2004.
Não se trata, diz Coda, de reestilização, mas de novos produtos em
segmentos onde a marca ainda não atua ou substituição de modelos em linha.
Novos lançamentos
Amanhã, será lançado o Uno Mille com motor Fire, um dos mais
potentes do mercado. Apesar da inovação, o preço do carro, o mais baixo do mercado,
será mantido. Lançado em 1984, o Uno é a prova de que o brasileiro quer carros baratos.
O modelo é o terceiro mais vendido no País, atrás do Gol e do Palio. Em novembro, chega
ao mercado o Doblò uma perua que disputará com os importados Kangoo e Berlingo, da
Renault e Citroën, respectivamente.
A empresa já chegou ao Brasil trilhando um caminho diferente ao se
instalar em Minas Gerais, longe da rota das suas concorrentes, então concentradas na
região do ABC paulista. Começou produzindo o 147, um modelo que foi bastante criticado
pelos consumidores. Quem apostou que a marca demoraria a recuperar credibilidade, perdeu.
Em 1984, com o lançamento do Uno, começou a avançar no mercado e, dez anos depois,
tornou-se a segunda maior montadora do País, desbancando as norte-americanas General
Motors e Ford.
Grande Virada
A grande virada, na opinião do presidente da Associação
Brasileira dos Concessionários de Automóveis Fiat (Abracaf), Rubens Carvalho, ocorreu em
meados da década de 90, com a introdução dos carros com motor 1.0, que deram origem aos
chamados populares - hoje responsáveis por mais de 70% das vendas de automóveis no
Brasil.
A empresa foi pioneira em vários projetos, como o desenvolvimento do
motor a álcool, vendas pela Internet e, em breve, na criação do centro de
desenvolvimento. Apesar das dificuldades atuais com a crise energética, alta do dólar e
dos juros - que preocupam a economia em geral -, Coda diz estar satisfeito de poder
festejar os 25 anos da Fiat com a marca em primeiro lugar em vendas de carros e comerciais
leves. De janeiro a maio, a montadora contabilizou vendas no varejo de 185.430 veículos -
pouco à frente dos 183.879 da Volks.
Como em toda briga cada envolvido tem sua versão, a Volks alega que,
somando os automóveis Audi produzidos na fábrica do Paraná, a liderança é sua, com
188.913 unidades vendidas. Mas a explicação não reduz a lista de motivos da Fiat para
celebrar. "No início dos anos 90, tínhamos 15% de participação no mercado. Hoje
temos 27,4%. Nesse período, a Fiat foi a única grande montadora que ganhou
participação. As outras perderam."
Embora conte cada ponto à frente da maior rival, Coda tenta disfarçar a
importância da disputa. "Nosso objetivo não é o primeiro lugar, mas ter presença
forte no mercado e uma atividade lucrativa para podermos investir cada vez mais."
No ano passado, a filial brasileira teve resultados positivos de R$ 232,8
milhões. O montante só deve ser menor neste ano por causa da alta do dólar.
Ainda assim, a previsão de vender 400 mil unidades no mercado interno e
90 mil no externo está mantida. (Cleide Silva, estadao.com.br)