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Nem chinês nem libanês: Barra é de italiano

25/06/2001

O calabrês Pasquale Mauro

 

Enquanto Tjong Hiong Oei e Mohammad Ismail El Samad — o chinês e o libanês da Barra — travam uma batalha sem fim na Justiça pela posse de uma área incomensurável do bairro, o título de Rei da Barra é de um italiano. Pasquale Mauro, que contabiliza 13 milhões de metros quadrados de terra espalhados pela região (o equivalente a todo o bairro da Taquara, algo em torno de 2.600 campos de futebol), já foi o Rei da Banana no Brasil, na década de 70, e não perdeu a majestade. Ao contrário. O calabrês, que chegou ao Brasil aos 5 anos sem nunca ter calçado sapatos e que na Itália comia pão feito pela mãe com água do mar por falta de dinheiro para o sal, não pára de ampliar seu reinado.

   Nove anos depois de inaugurar o primeiro grande hospital da Barra, o RioMar, e no mês de estréia de sua casa de espetáculos Ribalta — com ingressos para jantar e show de Bibi Ferreira a R$ 160 (“Porque nem todo mundo é pobre”, justificou ele aos presentes) — o emergente monarca continua arquitetando.

   No início do próximo ano, Pasquale dá início às obras de mais dois empreendimentos: um centro de exposições de 14 mil metros quadrados, com direito a hotel, ao lado da Ribalta. E, em frente à casa de espetáculos, um centro de 60 mil metros quadrados, com quatro blocos de edifícios e 1400 apartamentos, para a terceira idade.

   Conhecido na vizinhança da mansão de onze quartos onde vive, no Recreio, por ser discreto e pouco sociável, Pasquale prefere ser chamado apenas de Pascoal.

   — Em tudo que fiz quando criança, eu me tornei rei mais tarde: comecei aos 8 anos vendendo bilhetes de loteria, e cheguei a ser distribuidor de toda a loteria do estado. Ajudava a montar barracas de feira, e me tornei dono da companhia de montagem de todas as barracas de feira do Rio. Depois, de jornaleiro ambulante fui dono de diversas bancas de jornal — conta ele, aos 74 anos, entre um cigarro e outro, com a camisa de linho aberta arejando o peito. — Mas não me considero Rei da Barra. Já me inibia o título de Rei da Banana, dado por meu contador quando eu tinha 19 anos, já era o maior comerciante no Mercado da Praça Quinze e precisava abrir uma firma.

   Modéstia à parte, Pasquale descarta a concorrência de outros estrangeiros pelo reinado da Barra. Segundo ele, com muitas terras no bairro, atualmente, só Carlos Carvalho, fundador e presidente da construtora Carvalho Hosken, que coleciona na região 2,5 milhões de metros quadrados só em área construída.

   — O chinês comprou 9 milhões de metros quadrados, mas já vendeu tudo. Não sobraram mais do que uns 300 mil. Hoje sou o maior proprietário da região. Tenho uma fazenda na estrada Benvindo Novaes com 10 milhões de metros quadrados que, desde 1950, sempre foi produtiva. Só construo em áreas que não têm mais condições de produzir.

   O italiano que só estudou até a 1 série primária, conta que, antes dos 20 anos começou a formar seu império comprando terras para plantar as frutas e hortaliças que negociava. O negócio cresceu com a aquisição das terras do Banco de Crédito Móvel. E foi se ramificando até o Nordeste, onde Pasquale se gaba de ter plantado o primeiro melão no Brasil, criado a fruta de conde sem caroço e uma seleção de mangas que, numa época em que só havia carlotinhas ou rosas, foi batizada pelos agrônomos de Cruz das Almas de Pascoal 1, Pascoal 2...

   O italiano também reivindica para si a façanha de ter inventado na década de 50 o primeiro supermercado do país, o Fênix, na Rua da Carioca.

   — Teve uma fase em que eu tinha 23 ramos de atividade. Hoje me afastei. Dei todos os negócios que tinha para irmãos e filhos gerenciarem.

   Na linha sucessória estão a mulher de Pasquale, Teresinha, e os quatro filhos do casal (o administrador João, de 46 anos; a economista Roseana, 51 anos; a arquiteta Marisa, 48; e o engenheiro Roberto, 42), além de 13 netos e um bisneto. Todos envolvidos com os negócios da família. Para o diretor do Sindicato dos Médicos, Ivan Arbex, isto trouxe inconvenientes ao RioMar, onde Pasquale investiu US$ 25 milhões com equipamentos importados:

   — Tem uns dois anos que não opero lá. Acho que o hospital sofreu uma queda de qualidade. Talvez porque se trata de uma administração familiar, de pessoas não ligadas à área de saúde.

   O presidente da Associação de Clínicas do Rio e da Federação dos Hospitais do Rio, José Carlos Abraão, discorda:

   — O hospital dele se diferencia por ter sido construído com tecnologia de ponta e por estar em atualização constante.

   Pasquale já se debruça em um novo projeto. No centro para a terceira idade, os moradores estarão ligados ao Rio Mar por telemetria.

   — Não é um asilo, mas um hotel cinco estrelas para maiores de 60 anos. O que eu invisto na Barra eu tirei da própria Barra. Papai Noel não me dá nada — diz ele. (Paula Autran, O Globo)


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