Em
"Homo Videns", Giovanni Sartori faz um ataque demolidor, embora parcial, contra
a TV
Teixeira Coelho
A televisão é a imagem da besta." Em grandes letras brancas sobre
fundo negro é isso que se lê em outdoors espalhados ao longo da marginal Tietê, em São
Paulo. Outros painéis do mesmo tipo reforçam a mensagem que alguma seita religiosa quer
imprimir nos olhos e mentes dos que passam por essa via fétida e deprimente. Numa noite
de outono, sob densa poluição, o cenário que ajudam a criar é de apocalipse, quase.
Tentando sair da cidade ou a ela retornando como um condenado, é grande a tentação de
concordar com essa seita.
Mas como é uma seita a dizê-lo, torna-se inevitável pensar duas vezes e
procurar na TV por aquilo que desmentirá de algum modo essa pregação visual, no limite
equivocada e enganosa.
E é essa mesma a primeira reação diante do livro de Sartori, "Homo Videns":
desconfiar do que diz. Isso porque logo de início o autor diz ser sua intenção
"assustar bastante os pais mostrando-lhes o que poderá acontecer à sua criança
televisiva", quer dizer, como se verá, depois, transformar-se num imbecil. É
preciso sempre desconfiar de um livro que se propõe metas desse tipo, armadas sobre uma
pedagogia da negação e, de resto, nas circunstâncias atuais, inúteis.
O autor de fato vai querer assustar os pais e nós todos com aquilo que
tantos outros já nos disseram: que a hegemonia da imagem abole o pensamento
lógico-criativo, que a televisão é agora o grande eleitor ao tudo manipular, que a
democracia definha sob a TV e a internet e que esse abominável "Homo videns" é
a antítese do fantástico Homo sapiens. Essas idéias não são novas nem são aqui
tratadas de modo inovador. E diante delas o leitor, como ao deparar-se com as mudas
pregações da marginal, acaba oscilando entre a concordância com a análise do autor e a
anotação dos tantos pontos em que esse autor derrapa no "apocalipsismo"
tradicional diante da TV.
Em suma, Sartori desconfia da imagem, que para ele muda a natureza mesma
do Homo sapiens ao destruir sua capacidade de abstração. As palavras escritas levariam
à abstração, e a imagem, à redução e à extinção do pensamento. O velho Homo
sapiens trabalharia com concepções abstratas próprias do mundo da inteligência, e o
"Homo videns" ficaria com as coisas concretas do mundo sensível. Sartori faz
uma distinção absoluta entre a percepção do mundo pelos sentidos e a percepção pelo
intelecto para privilegiar este sobre aquele, como na mais arcaica filosofia.
É redutor demais. Ele parece não se dar conta de nada do que aconteceu
com a arte nos últimos 500 anos e com o cinema de arte nos últimos 70 ou 80, para ficar
com esses dois casos.
E dá um peso excessivo à TV no jogo da política. A TV italiana talvez tenha elegido
Berlusconi, assim como a brasileira ajudou a eleger Collor. Mas George W. Bush, para
ganhar, teve de contar com a "ajuda" dos organizadores da eleição na Flórida
e dos juízes da Suprema Corte norte-americana.
A TV nem sempre é decisiva ou relevante, como se vê. E, depois, não há
por que investir apenas contra a TV: os jornais, que usam as sacrossantas palavras
escritas, contribuem fortemente para a manipulação geral.
Aqui no Brasil deram enorme destaque às declarações de um senador que
se cassou para não ser cassado por quebra do decoro (é o mínimo que se pode dizer) e
que em seguida saiu dando lições de moral a todo mundo. Os jornais dizem que isso é
informação. No mínimo, é o mesmo pós-pensamento a que Sartori alude. A manipulação
política e a corrosão da democracia e do pensamento dependem de um nível bem mais
abaixo e bem mais amplo.
Há, de todo
modo, alguns pontos interessantes neste livro. Um deles é a relativa
radicalidade de que ele se reveste, em suas últimas páginas, ao deixar
claro que por pós-pensamento o que o autor entende é mesmo a
imbecilidade, assim como a expressão "Homo videns" é, para ele, apenas
um eufemismo para "homem idiota". De fato, talvez a condescendência com
as massas telespectadoras e a tentativa de resgatá-las de sua posição de
cúmplices gozosos da TV, jogando a responsabilidade por tudo isso no
sistema, tenha impedido que se tornasse visível mais cedo a imagem de
uma sociedade de idiotas que se espalha tanto entre os que estão do lado
de cá do tubo quanto do lado de lá, gerando a programação dos canais.
Costumava-se escrever que não se
devia dizer "comunicação de massa" e, sim, "comunicação para a massa",
porque não seria a massa que faria a comunicação para si mesma: essa
comunicação seria feita por outros estamentos ou classes da sociedade,
visando à massa apenas para explorá-la e manipulá-la. Hoje, porém, já
está claro que as massas elas mesmas, por meio de seus "intelectuais
orgânicos", tomaram o controle da produção na TV e fazem programas para
si mesmas e à sua própria imagem. Nunca isso se tornou tão visível
quanto após o aparecimento da TV a cabo no Brasil. A TV aberta virou
predominantemente uma grande latrina enquanto a TV a cabo é apenas um
pouco menos ruim.
Portanto, falar em idiotia talvez seja mesmo correto. Hans Magnus
Enzensberger usou um outro eufemismo para designar o homem pós-TV: analfabeto
secundário. É a pessoa que consegue ler um jornal, sacar dinheiro de um caixa
eletrônico, mas é incapaz de interpretar por si o cenário político ou cultural que o
cerca. Analfabeto secundário é, hoje, uma forma polida demais. Idiota parece ser o
termo. Que o público se enterneça com o idiota Forrest Gump é o sinal mais claro não
apenas da existência da idiotia, mas também de seu culto. Idiotia que se desdobra, por
exemplo, na recepção triunfal dada em sua cidade àquele mesmo senador renunciante.
Mas, como sempre, é bom ir devagar com o andor. Talvez todos tenhamos
direito a um índice cotidiano de idiotia. Talvez a idiotia da TV não produza
necessariamente o idiota perfeito. Que a TV abre as portas para nosso idiota interior,
aquele de cada um de nós, é evidente. Que sucumbamos todos, inclusive as massas, sempre
e em todos os aspectos a esse "idiota residente" não é tão certo.
Fora isso, o livro repete idéias conhecidas. De certo, resta que não
mais se trata apenas de constatar a idiotia promovida pela mídia eletrônica e alertar
para o assalto à democracia e ao pensamento feito pelos "gangsta rap" e outros
neonazistas mal disfarçados. Se há um tema a discutir é o de uma política cultural
para a mídia eletrônica, TV e internet. Elas estão aí; como usá-las para evitar que
nos usem: é essa a questão, ainda evitada na sociedade e nos governos. (Folha de S.
Paulo)
Teixeira Coelho é ensaísta, escritor e diretor do Museu de Arte Contemporânea
(MAC-SP), autor, entre outros, de "Niemeyer - Um Romance" (Geração Editorial)
e "Dicionário Crítico de Política Cultural" (ed. Iluminuras).