Quando as sirenes de Nápoles, na Itália, anunciavam um bombardeio aéreo e os
moradores da cidade, assustados, refugiavam-se em suas casas, Ugo di Pace subia numa
colina para, de longe, observar maravilhado "aquele mar de aviões lançando bombas
que caíam lentamente, desenhando cachos de uva no céu".
Mesmo em meio aos horrores da Segunda Guerra Mundial, o futuro arquiteto e
decorador de sucesso, então um adolescente, conseguia exercitar o olhar."Aquela
imagem era triste, mas esteticamente fantástica", diz, aos 73 anos, o italiano
radicado no Brasil desde os 20, que comemora 50 anos de carreira lançando Ugo di Pace
Interiores (G&A, 312 págs.).
O livro reúne cerca de 400 fotografias clicadas pelo americano Lew
Parella em 27 dos mais de mil ambientes criados por Ugo di Pace no Brasil, Nova York e
Paris.
São imagens reveladoras do estilo e da personalidade do decorador,
colecionador de obras de arte, que as considera "protagonistas" dos espaços que
concebe. Colunas, arcos e outros elementos arquitetônicos são projetados por ele como
moldura para as peças.
No apartamento de Ugo no Morumbi, em São Paulo, parte de sua coleção de
mais de 500 objetos, quadros e peças de mobiliário está à vista. "Guardo apenas
20% aqui", conta ele, de pé, sob um portal fiorentino do século 16 instalado na
sala de jantar. "Não pude pôr tudo no apartamento porque minha mulher e minha filha
são jovens e queriam uma decoração limpa", ri, enquanto mostra uma exótica
cadeira de 1910, forrada de pele, assinada pelo designer inglês Redmiller.
Ugo define o espaço residencial como o palco de um teatro onde os
moradores são personagens. "Eles precisam sentir-se confortáveis e inspirados em
seu cenário." Para isso devem decorá-lo sem se preocupar com a platéia - vizinhos
e visitas. "As pessoas costumam projetar em sua casa aquilo que gostariam de ser e
não o que são. A melhor dica de decoração é a espontaneidade", recomenda.
Quando se mudou para o Brasil, em 1948 (veio ao País, atraído pela
beleza das mulheres, para passar dois meses de férias e acabou ficando de vez), Ugo di
Pace morou com o pintor italiano Vittorio Gobbis em uma casa que apelidou de "morada
dos espíritos". "Ela parecia abandonada. O jardim nunca tinha sido cuidado e os
móveis eram rasgados, com as molas para fora."
Sentiu-se impelido a "consertar" o ambiente, freqüentado por
artistas e intelectuais? Não. "Aquele lugar era coerente com a personalidade do
Vittorio. E, além do mais, me inspirou muito. O olhar do artista se apura quando se
depara com o estranhamento."
Ugo começou a carreira no Brasil associando-se ao antiquário português
Fernando Medeiros na abertura da Antiqua, conhecida loja de antigüidades localizada na
esquina da Rua Araújo com Avenida Ipiranga, no Centro de São Paulo. Lá, ampliou seus
conhecimentos sobre arte. Quinze anos depois, já bastante requisitado para decorar a
residência de ilustres famílias do Brasil e do exterior, abriu seu próprio escritório.
Em seus 50 anos de carreira, desenvolveu um estilo próprio marcado pela
sofisticação. E quebrou certos clichês da arquitetura, como o de se construir, em casa,
bares semelhantes aos que se encontram nos restaurantes. "O bar alto, com aquelas
cadeiras compridas, é muito desconfortável", diz.
"Nunca entendi porque as pessoas o reproduziam." O barzinho do
apartamento de Ugo é horizontal - e combina cadeiras do século 18 com uma peça da Tok e
Stok comprada por 100 reais. "Isso mostra que não é só com muito dinheiro que se
podem comprar coisas bonitas", finaliza ele. (