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Veneza retratada por Canaletto |
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27/06/2001
A tranqüila e vibrante paisagem de Veneza,
retratada por Canaletto (1697-1768) está na mostra Canaletto Prima Maniera, que
está em seus últimos dias na Fondazione Giorgio Cini
Veneza - Quando se pensa em Veneza, a primeira imagem que nos vem à mente
não é a da Praça de São Marcos entulhada de turistas, que perambulam aos milhares pela
pequena cidade em qualquer época do ano. Mas a de uma tranqüila e vibrante paisagem,
retratada por Canaletto (1697-1768), cujo nome está para sempre associado ao de sua
cidade natal. A exposição Canaletto Prima Maniera, que está em seus últimos
dias na Fondazione Giorgio Cini, retraça, por meio de 75 obras, as primeiras décadas de
produção do artista, reunindo alguns exemplos imperdíveis de "vedutas", como
são chamadas na Itália as paisagens urbanas que o celebrizaram.
A mostra é uma das
principais atrações na cidade, que neste momento atrai todas as atenções do público e
da crítica de artes por causa da 49.ª edição da Bienal de Veneza, em cartaz até
novembro, e desde 1982 não se fazia uma exposição tão significativa de sua obra.
E mesmo assim, não foi
toda a produção de Canaletto que chamou a atenção dos organizadores da mostra, que
preferiram restringir-se a exibir trabalhos de seus primeiros anos de carreira, mostrando
na prática como o pintor de teatro, que aprendeu a arte do cenário com o pai e chegou a
trabalhar na montagem de óperas de Antonio Vivaldi, Giuseppe Porta e Alessandro
Scarlatti, foi atraído pela pintura da natureza, pelo cenário urbano e não mais
teatral.
A exposição começa
com pouco mais de uma dezena de desenhos realizados pelo jovem Canaletto em sua viagem a
Roma, como o cuidadoso bico-de-pena do fim da década de 1810, Santa Maria d´Aracoeli e
il Campidoglio, que durante muito tempo pertenceu ao sobrinho de Canaletto e
também "vedutista", Bernardo Belotto , que chegou a usar a composição em sua
própria obra. A maioria desses desenhos - assim como boa parte das obras de Canaletto -
pertence a coleções e museus ingleses, terra de origem dos principais compradores de
suas obras. A fama de Canaletto, aliás, está profundamente ligada ao turismo nascente.
Como explica o crítico
Alessandro Bettagno no alentado catálogo da exposição, "o gênero ainda era
desprezado e tido como inferior em relação às mais nobres expressões impostas pela
tradição. Mas um novo colecionismo, os estrangeiros e os turistas de passagem, rompem a
crosta do gosto comum, disputando entre si essa nova pintura". Se as
"vedutas" em geral começam a conquistar a admiração do público e as
atenções do mercado, aquelas de Canaletto reservam algo especial, que as diferenciam das
realizadas por seus colegas. Provavelmente influenciado por sua íntima convivência com o
teatro, ele passa a conceber as cenas de paisagem como narrativas, como um retrato da vida
e da alma da cidade mercante já em decadência e que só recupera seu brilho graças ao
mito veneziano, que tem Canaletto um de seus principais autores.
Apesar da riqueza
impressionante dos desenhos, repletos de significados históricos e artísticos (são
impressionantes, por exemplo, os rascunhos e as anotações feitas pelo artista, que
depois serviriam de base para a realização das telas, já que a pintura ao ar livre só
surgiria no século 19), as grandes pérolas da mostra são suas magníficas telas a
óleo, nas quais registra momentos únicos e ao mesmo tempor fugidios da vida da cidade,
com seus gondoleiros, vendedores, animais e, sobretudo, seu céu dramático e o jogo de
luz e sombra sobre seus canais.
Uma das telas mais
impressionantes da mostra é O Laboratório de Mármore no Campo San Vidal, que
foge um pouco das plácidas e iluminadas paisagens típicas do pintor, nas quais as
figuras humanas aparecem de forma intensa, mas diminuta em meio à fascinante paisagem
arquitetônica e à força da natureza - representada pelos intensos azuis da água e do
céu. Trata-se de uma movimentada cena urbana, repleta de detalhes encantadores, como a
mulher que se debruça na janela para falar com as vizinhas que trabalham o mármore, ou a
mãe que corre para pegar seu filho bebê, que urina deitado no chão, no canto esquerdo
do quadro. Na contramão dessa encantadora cena quase doméstica está a tela "Il
Bucintoro al Molo no Dia da Ascensão", que retrata o fausto das festas e procissões
venezianas.
"Canaletto se dá
conta de que o paisagismo não é simplesmente um gênero pictórico, mas um diálogo
especial e ininterrupto como uma cidade esplêndida como é Veneza: esta se faz retratar
como uma "bella donna" do pintor, que não cansa de a interpretar diversas
vezes, tantas quanto permite a mutação contínua de suas luzes, de seus reflexos, de sua
arquitetura", resume Giancarlo Galan na apresentação da exposição. (Maria
Hirszman, estadao.com.br)
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